FILHOS DE PEDRA MARIA ( completo )
FILHO DE PEDRA MARIA
Homenagem de saudade a todos os meninos de pé descalço que nasceram e cresceram embalados pelos sinos de Pedra Maria, antes e durante a difícil década de 1940, para quem o mundo acabava no céu azul dos Montes de Santa Quitéria, nos alvores dos longes frios do Marão, onde nascia o sol, para se ir deitar atrás dos pedregosos Montes dos Perdidos e da Serra da Penha…
Almada, 17 de Fevereiro de 2000
Joaquim Luís Monteiro Mendes Gomes
CAPÍTULO PRIMEIRO
§1
EM VARZIELA
O ano de 1941 acabava de entrar na 2ª metade. Em pleno verão. Dizem que esse foi um dos mais quentes dos últimos dez anos.
No dia 7 de Julho, veio ao mundo um fero rapaz, de cerca de 4 quilos. Rechonchudo. Olhos castanhos e cabelo escuro. Era o 4º daquela família, modesta, como a maior parte das que habitavam, no lugar de Pedra Maria.
O pai era alfaiate. A mãe, padeira; levantava-se de madrugada, de verão e de inverno. Ia à vila buscar uma comprida canasta de vime, cheia de bijús, os pães de trigo, que depois ia distribuir pelos fregueses da aldeia de Varziela, a tempo do almoço.
Eram mais ou menos umas 6 dúzias de pães, as que carregava à cabeça, quando passava por casa do pequeno Quim Luís, (assim se chamava o nosso anfitrião) ainda quentinhos e a quem, durante os primeiros 4 ou 5 anos, era dado o mimo de comer, só, um deles.
A irmã Delfina, ia à frente 4 anos; já não disfrutava daquele apetecido gosto e privilégio. Uma fatia de broa de milho, com uma malga de café quente e as maçãs ou a fruta da época, retiradas do quintal, eram o pequeno almoço de cada dia. Tal como o dos pais, Joaquim e Leonor.
Os irmãos, anteriores, haviam morrido, logo nos primeiros anos, porque a assistência social daquela época e os conhecimentos sobre cuidados de infância, eram, como em todo o lado do país, muito reduzidos.
Vingavam os mais fortes, dos 7 ou 8 filhos que nasciam, em média, por família.
A aldeia vivia, na sua maior parte da agricultura e, apenas, uma meia dúzia de artesãos, se dedicavam ao fabrico das necessidades do vestir e do calçar, bem como à extracção das pedras ou esteios de granito, com que eram feitas as casas e se erguiam as ramadas ou bardos onde cresciam as videiras que davam o apreciado vinho verde da região.
Os lavradores constituíam a classe considerada mais rude e baixa. Eram ”os labroscas”. Mas era gente humilde e generosa. Trabalhavam, de sol a sol, as quintas, formadas por vastas terras arrendadas, a troco de um terço da produção, ou, em certos, mas raros casos, a meias, com os afortunados e ociosos fidalgos, os senhorios.
Destes, uns eram descendentes da fidalguia contemplada por antigos condes ou corregedores da côrte, enquanto outros as haviam comprado àqueles que haviam caído na bancarrota, com a fortuna angariada no rico Brasil, ou, mais tarde, nas longínquas colónias portuguesas de África.
A resignação, alimentada pela vida que girava à volta da igreja branca, donde, de hora a hora, caíam as grossas badaladas do sino grande da torre altaneira de Pedra Maria, nascida e alimentada, desde o berço, ao colo das mães ou irmãs mais velhas, durante as ritmadas missas de domingo e da catequese, dada por beatas solteironas, ou por vermelhuscas moçoilas, recém-confirmadas pelo sacramento episcopal, fazia daquela gente a fonte da felicidade e da natural alegria reinante, por paradoxal que parecesse.
O contraste com o desinteresse e a vida fastidiosa que grassava nas casas fartas da fidalguia era visível.
O pequeno Quim Luís, cedo, se apercebeu desse fenómeno que muito o confundia, quando começou a conviver, na catequese ou na escola primária, com alguns dos filhos mimados da fidalguia, de costumes esquisitos e que levava uma vida arredada de todos os vizinhos da aldeia.
As suas grandes casas apalaçadas estavam, normalmente, afastadas dos caminhos e eram cercadas de altos muros de pedra, revestidos de hera e verde musgo. Por detrás dos grossos portões de ferro, corriam grandes e anafados cães, que se atiravam com feroz ladrar, às grades altas daqueles portões, quando a criançada passava para a escola.
Nalgumas, havia viveiros de gordos patos ou perús e, nas mais requintadas, via-se pavões armados de elegantes e vistosos leques de altas penas, de cores flamejantes.
Era o caso da quinta da Seara e da casa das Bócas, casa da Estrada, entre outras.
Os fartos pomares de rica fruta e os grandes cachos de uvas gordas e doces, brancas e tintas, os saborosos morangos, constituíam a fonte das arriscadas aventuras que alimentavam o imaginário das cabeças da garotada, depois da escola.
O segredo da sua localização, adentro dos muros elevados e cravejados de cacos de vidro de garrafa, cortante, não conseguia vencer o engenho pujante da pequenada.
Escalá-los e conseguir enganar os temerosos cães, constituia a irresistível tentação do nosso Quim Luís e da maior parte dos seus colegas.
O Zé Ribeiro, mais conhecido pelo “peixe”, o mais veloz na corrida dos 100 metros; havia o Zé velho, para quem o tamanho não acompanhava a soma dos anos; o Zeca do Sr. Guilherme, latoeiro, especialista na descida ao fundo dos poços; o ladino Eduardo, conhecido por “ginera”, não se sabe porquê, um pouco mais velho, mas que havia reprovado na 3ª classe; o Horácio do Ribeiro, electricista do Xintado – depois da escola, foi para o Brasil, ninguém mais o viu -; o Adriano pachorrento, filho de um lavrador - trazia boas maçãs, diospiros ou figos, consoante a época. P’rós amigalhaços; havia o lendário Lèro-Tèro, que nunca fora à escola e era o mais famoso, pelos lendários e inultrapassáveis feitos, a roçar a delinquência. Para ele nada era impossível; o Chico, gago; o Rolando do ferreiro, irmão mais novo do Eduardo – seguiu para as Áfricas e, lá, entregou, cedo, a alma ao Criador…Tantos mais…
Quem sabia bem de tudo isto era o sr. Abade, o bondoso padre João que a todos tinha baptizado e ouvia na confissão das primeiras sextas feiras de cada mês.
Um ligeiro puxão de orelhas, que mais parecia uma branda carícia daquela familiar figura de batina preta, era o preço que tinham de pagar pelas aventuras travessas. Saía barato. Com uma só excepção. Quando as uvas ou laranjas eram do passal viçoso e bem tratado, dele; então, as cabeças baloiçavam arrastadas pela mão mais hirsuta e ao ritmo de palavras ralhadas, em segredo, bem junto ao ouvido.
O Jesus que recebiam escondido na hóstia redonda e branca, ao meio da missa, esse, não lhes ralhava sequer. Até achava graça, era o que parecia ao nosso Quim Luís.
Afinal, quem as criava era Ele, para todos, assim o pensava, porque lho haviam ensinado nas tardes de catequese.
Comparado com as fantásticas histórias que contavam os mais velhos, ao serão, junto à lareira, de cavacos incandescentes, não era nada.
Desde cedo, o nosso Quim Luís começou a sentir uma especial simpatia por aquela figura, um tanto estranha e cuja função, não compreendia muito bem.
A missa a que tinham de ir todos os Domingos, às 10 horas, na igreja velha, toda ela dita em latim, pelo sr.abade, vestido de estranhas roupas de cor, ora verde, ora vermelha ou outras, por cima de um comprido vestido branco, até aos sapatos pretos, diante de um lindo altar dourado, sempre cheio de flores perfumadas, não constituia para o Quim Luís nenhum sacrifício, apesar do longo tempo que demorava e de nada perceber do que ouvia.
Pelo contrário, sentia-se bem e os apelos que a voz lenta e serena da prática que o sr. abade dizia ao meio da missa, voltado para as pessoas, esses, caíam-lhe bem e duravam na sua lembrança durante a semana.
Quantas vezes, não fazia o que, de repente, lhe apetecia fazer, só porque estaria a ir contra o que tinha aceite, no seu íntimo.
Ele falava de Deus e de Jesus, como pai e o maior amigo de todos e estas palavras não lhe levantavam quaisquer dúvidas, como acontecia, quando as ouvia da boca rotineira das catequistas, rezengonas, como a “ ‘Ròrinha” da Lage e a outra irmã, sempre com os beiços muito pintados, de vermelho vivo, de cereja, e a Mariana “pulga”, uma das tais solteironas, para quem tudo era pecado e feio.
Só, de vez em quando, a catequese dos domingos à tarde era dada pelo abade João.
Então, ouvia embevecido as lindas histórias, que até lhes faziam esquecer o apetite de ir para o recreio, no adro relvado da igreja de Pedra Maria. Golias e David, Daniel, na cova dos leões…
Certo dia, parece que adivinhava, o bom do padre perguntou ao nosso Quim Luís se queria aprender a ajudar à missa. Teria uns 7 anos; mal chegava ao altar.
Claro que, logo, aceitou. Daí, até passar a fazê-lo não demorou muito.
As complicadas palavras ditas em latim, “ Introibo ad altarem Dei, ad Deum qui laetitiat nostram juventutem” e as complicadas tarefas que tinha a seu cargo durante a missa, tudo foi aprendido num abrir e fechar d´olhos.
A missa, à semana era dita às 6 da manhã para que os lavradores e outros pudessem seguir à sua vida.
O sino do meio repicava, meia hora antes, num desfiar de badaladas, cada vez mais apressadas, até desaguarem numa sequência espaçada de 3, destacadas e bem retinadas.
Era o tempo necessário para os de mais longe da freguesia, se levantarem e percorrerem todo caminho até à igreja nova, a tal, dedicada a Nossa Senhora de Pedra Maria.
A linda imagem, de manto azul dourado, desta senhora, ainda hoje lá está, no cimo e ao lado do altar principal.
Dizia-se que já tinha feito muitos milagres e, por isso, até vinham de longe, grupos de raparigas, vestidas de brancos vestidos de chita, a cantar, as tradicionais novenas, por promessas feitas, no seguimento de curas, aflições ou bênçãos recebidas por alguma devota mãe.
Passavam todas, diante da casa do Quim Luís, durante as tardes de domingo. Tudo isto rodeou naturalmente a sua infância, feliz.
Por isso, nada lhe custava o levantar, manhã cedo, ainda à luz do luar, quando o havia, ou ao frio de rachar do inverno e ir ajudar à missa, onde, de propósito, passou a usar-se o missal mais pequeno.
Quando voltava a casa, numa saborosa corrida, sem parar, cortando o vento fresco da manhã que nascia, já eram quase 7 horas e encontrava o pai agarrado à sua tarefa constante; ora, riscando, em traço seguro, firme e de uma só vez, com o giz branco, as diversas partes do tecido que iam dar as calças de cotim ou os vaidosos fatos domingueiros dos seus fregueses, ora, de fina agulha enfiada, cosendo aquelas, em rápidos, largos e certeiros gestos que se repetiam, vezes sem fim.
“ O galo guerreiro canta no poleiro, com seu mavioso cantar”…
Era o cantar que ouvia, cada vez mais nítido, à medida que se ia aproximando de casa, na voz que lhe parecia bem timbrada ou no assobio afinado do pai, a sair da janela da oficina.
§ 2
Escola Primária
Mais um dia começava.
-Sua bênção, pai?. Assim lhe pedia o nosso Quim Luís com a voz ofegante da veloz corrida.
- Deus te abençoe – respondia, ele, de imediato.
Com a sacola de ganga amarelada a tiracolo, feita pelo Avô, José, logo seguia para a escola, depois de beber a malga, de café com leite e de saborear o tal bijú, fofo e ainda quentinho que lhe deixara a mãe.
Descalço e de calções de caqui amarelado, descia, a correr, as escadas de pedra que davam para a estrada e, não tardava muito, logo encontrava alguns dos seus companheiros da escola que vinham da Forca ou do Xintado.
- Tem cuidado, gritava-lhe o pai.
A partir daí, era sempre o mesmo. O professor, o Sr. Pereira, vinha de longe, doutra freguesia vizinha, Rande, 3 km a pé, e passava sempre pela loja do Zé Barbosa, no lugar das Fontaínhas, para beber um cálice a esbordar d’águardente.
Dizia-se que se metia nos copos, mas era boa pessoa. Ninguém lho levava a mal. A idade já era avançada.
Tinha a ponta dos dedos, grande e indicador, crestados do fumo de tantos cigarros que por eles passavam, uns atrás doutros.
Mal assomava ao cimo da inclinada costeira, de terra esburacada pelas enxurradas do inverno, a qual vinha da estrada até ao largo da escola soalheira, virada ao nascer do sol, acorriam todos ao seu redor, com um sonoro “bom dia, Sr. Professor”, ao que ele respondia, de imediato, com um ligeiro, mas expressivo sorriso, no olhar, onde sobressaíam fartas sobrancelhas grisalhas, olhos redondos e negros e os lábios grossos, de uma boca simpática.
Aberta a porta, velha e cheia de habilidosos desenhos, atrevidos uns, mais ingénuos, outros, a garotada depressa se entrincheirava ao longo dos compridos bancos corridos, de madeira de pinho, onde estava o lugar fixo de cada um.
Por lá tinham passado os pais e até avós de todos eles.
À frente, estavam os da 4ª classe; a seguir, os da 3ª e assim, até aos iniciantes da 1ª, lá, atrás de todo.
Na parede da frente, havia uma cruz de madeira lisa, ao centro, ladeada dos retratos do Salazar, muito bem penteado e do Presidente da República, o marechal Carmona, com o seu bigode retorcido..
As paredes laterais estavam cobertas de um grande mapa de Portugal e de todas as nossas enormes colónias ultramarinas.
Na parede do fundo, havia largos painéis que retratavam, com muita vivacidade, as diversas batalhas sangrentas da nossa história; ora, contra os mouros, ora contra os vizinhos castelhanos e, também, os franceses, nas célebres invasões de Napoleão.
Valentes cavalos, de patas dianteiras erguidas, a facilitar as fatais espadeiradas do seu cavaleiro, vibradas no inimigo invasor; cavalos e guerreiros estendidos no chão, já mortos, ou de rostos desesperados, à espera do golpe final. Imagens empolgantes que alimentavam o imaginário inesquecível da pequenada, a desabrochar para a vida.
Tudo fazia o grande orgulho da rapaziada e a ideia da pátria gloriosa a que pertenciam, dava a todos uma força capaz de ofecerem a vida, se isso fosse preciso.
Em cima do estrado, de madeira, a toda a largura da sala, do lado da janela, estava a velha secretária de madeira negra do Professor, com a velha ”santa luzia” ( palmatória de 5 olhos) bem à vista, e, na parede, do outro lado, estendia-se o negro quadro de lousa, onde se via, ainda, restos de complicadas contas, de giz branco, feitas pelos mais velhos da 4ª classe.
Esses eram os que ocupavam a maior parte do tempo do Mestre, porque estavam sujeitos ao exame, no fim do ano o qual era feito na vila, por outros professores, com prova escrita e oral obrigatória.
Era um caso sério.
Com os outros, pouco se preocupava o nosso mestre escola. A curiosidade e o interesse natural de cada um é que os fazia ascender àquela classe.
Por isso, o nosso Quim Luís, que já havia frequentado aulas dadas por um velho polícia reformado, o bem anafado Sr. Ferreira, no lugar do Mouxinhos, a uma dúzia e meia de miúdos, a troco de uns patacos mensais, a somar à magra reforma do Salazar, ou de outros favores, desde os 5 anos, já sabia ler todas as lições do velho livro de leitura, que ostentava na capa uma desfraldada bandeira nacional, verde e vermelha, com o escudo amarelo de 5 quinas, ao centro, no punho de um valoroso soldado, em jeito de corrida, através de um sinuoso caminho de uma qualquer aldeia, ao longe, em lugar cimeiro, a torre da igreja, depois de se passar por uma escola e um disperso casario, simples e florido.
As contas também já não tinham grandes segredos, bem como os problemas.
Por isso, o Sr. Pereira não teve qualquer hesitação em passar o nosso Quim Luís da 1ª para a 3ª classe, o que lhe valeu, no final do ano, ser surpreendido com o prémio de 3$20, de melhor aluno do ano, dado com certa pompa pelo sr. Presidente da Junta de Freguesia, numa tarde de Domingo.
Tudo isto e o facto de, anos depois, ter passado na 4ª classe com muito bom e distinção, lhe granjeara, na aldeia, uma espalhada fama, de esperteza, e a esperança de que, ainda, havia de ir longe, apesar das posses dos pais não serem nenhumas.
Tanto mais que eles se haviam lançado à difícil tarefa de construir a sua tão ambicionada casa própria, no pedaço de terreno comprado, na ligeira encosta, soalheira, do monte de Pedra Maria, mais próximo da igreja nova e mais perto ainda de uma capelinha, encostada a um saliente e gordo penedo, de granito, dedicada à Senhora Aparecida.
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Casa Nova
Para ela se mudou com os pais, ao longo do ano de 1949.
Por um lado, sentiu uma certa pena de deixar a casa onde nascera, porque ficava mais perto da maior parte os seus amigos de infância, no lugar da Forca, mas, por outro, ali, o sítio era bem bonito.
Tinha uma larga vista, sobre toda a encosta da serra do Marão, bem ao longe e, mais perto, via-se o casario da Serrinha, na linha mais baixa do horizonte.
Antes, eram os verdes campos entremeados por vastas matas de pinheiros negros e altos eucaliptos verdes, salpicadas de casas, mais ou menos esbranquiçadas, das aldeias vizinhas, tais como, Refontoura, a Pedreira ou São Jorge de Várzea, demarcadas pelas sobreelevadas torres das igrejas, donde soavam, de vez em quando, nas ondas do vento e na musicalidade própria, o badalar dos sinos, mais ou menos grossos, conforme o tamanho do bronze, custeado pela fidalguia dominante de cada freguesia.
Sentia saudade e pena de deixar a alta janela do seu quarto, no 1º andar, que dava para os campos e matas traseiras.
Dali, soprava as bolas de sabão e contemplava o fulgurante nascer do sol, lá para os lados da Serrinha, bem como, no inverno, contemplava os largos campos, cobertos de água, que, até, lhe faziam lembrar o mar, aonde, tanto gostava de ir, todos anos, passar uns 15 dias com a Mãe e a irmã Delfina, na Póvoa do Varzim, durante o quente mês de Agosto.
A pouco e pouco, foi-se habituando e descobriu outros agradáveis sítios para as livres brincadeiras com os colegas. O aprazível adro da igreja, os longos montes de pinheiros frondosos e de abundantes carvalhos, que se estendiam da igreja, para o outro lado, dos montes dos Perdidos, onde havia tantos penedos de granito.
Bem no fundo, corria, serpenteando, um fresco riacho, ladeado de salgueiros, altos e esguios, de folhas amareladas; de vez em quando, formava largas enseadas, onde já se podia tomar uns bons banhos, nas tardes quentes de verão, no final da aula ou nas tardes de domingo.
As altas hastes floridas dos milheirais dos campos que acompanhavam o ribeiro, garantiam-lhes que podiam tomar banho, à-vontade, despidos das breves peças de roupa, a camisa e os calções.
Às vezes, porém, eram surpreendidos com a partida bem pregada por alguns dos lavradores, a de terem de andar nus, à procura da roupa, no final do fresco banho.
Procurar ninhos escondidos nos altos ramos dos carvalhos ou nas tocas furadas, nos troncos velhos e grossos, ou, os verdadeiros e saborosos cogumelos, também, escondidos, sob penhascos e tufos, ramalhudos, de urzes ou de espinhoso mato, era outra empolgante tarefa que, depois, se negociava, entre os melhores amigos, a troco de umas boas camisadas de fruta, figos, maçãs, peras ou doces uvas.
O pior era à chegada a casa. O tempo corria célere e quando se davam conta, já a hora de comer tinha passado e as mães estavam cansadas de gritar pelos retardados filhos.
O resultado era já sabido e variava consoante o génio de cada família.
A mãe do Quim Luís não lhe perdoava umas boas palmadas no rabo; havia as que se armavam de finas chibatas de vimes ou de vergastas de ramos secos, o que era bem pior.
O pai do Eduardo e do Rolando, esse, um duro ex-combatente da grande guerra de 14/18, ferreiro de profissão, nunca lhes perdoava uma boa sova pelos seus puxados braços de bater o ferro saído da forja.
O Zé Ribeiro tinha a mesma sorte, quando era o pai, o anafado e vermelhusco, sr. Pereira, a chamar. Sapateiro que era, armava-se de duras viras de sola e as marcas ficavam-lhe gravadas na barriga das pernas.
Tanto valia. No dia seguinte, a cena voltava a repetir-se.
Assim, ia correndo o tempo. Infindáveis jogos de futebol, a pé descalço, com uma bola de trapos, bem conseguida com o enrolar e revirar, muitas vezes repetido, de uma velha meia da mãe, mas que funcionava bem, enquanto durava.
O dinheiro para comprar uma, de borracha preta, bem cheirosa, era apanágio do “Luisinho” da casa da Estrada, ou do Pedro do Cóto, ou do “Joãozinho” da Seara.
Vinha o tempo das alegres romarias, a do S. Pedro, no alto de Santa Quitéria; a de Santa Quitéria, no 15 de Agosto que fazia subir àquele elevado monte, junto à vila, procissões de todas as freguesias do concelho; vinha a festa de S. Jorge e da Senhora d’Aparecida, mas a mais apetecida da pequenada era a feira de Maio, o feriado municipal, pelos carrocéis, carrinhos eléctricos, poço da morte e a roda das cadeirinhas.
Todas eram seguidas de lautos farnéis estendidos sobre alvinitentes toalhas brancas do sol ; havia a comunhão solene de cada aldeia, antecedida de mais frequentes lições de catequese e de uma semana de longos sermões, pregados por afamados pregadores.
Nem todos os padres tinham a capacidade de subir ao alto púlpito da igreja e, de lá, aguentar longos discursos, ditos de cor, com maior ou menor calor, consoante a conhecida fama de cada um.
Havia os mais caros e os mais baratos.
O exame era dado pelo famoso sermão que antecedia os pedidos de perdão daqueles que faziam a comunhão solene, aos respectivos pais.
Alguns punham a igreja a chorar, comovidamente e, nesse dia, tudo se esquecia: as partidas dos filhos e as duras tareias dadas pelos pais. A harmonia restabelecia-se e, assim, se reforçavam os laços com que se tecia aquela larga família da freguesia e que ficava a perdurar através das gerações.
Deste modo, se vivia, naqueles anos em que, na longínqua França, se combatia, numa tremenda guerra, que trazia as pessoas amedrontadas pelo dia em que ela se estendesse até àquelas pacatas aldeias.
Para evitar que tal acontecesse, fazia-se mais frequentes tríduos de oração à Senhora de Fátima, ora, na igreja velha, ora, na capela de Pedra Maria.
Na oficina do pai, os fregueses discutiam a guerra, como, hoje, se fala do futebol; uns defendiam os bravos alemães; outros eram, nitidamente, a favor dos aliados.
Todos os dias 13 de cada mês, de Maio a Outubro, as pessoas pregavam-se à beira da mercearia e tasca dos pais do Zé Ribeiro, na lugar da Forca, ou do tio Armindo na Bouça da Pia, (os únicos rádios que ali havia) a ouvir a transmissão, ao vivo, das cerimónias de Fátima, feita com um entusiasmo e fé, como nunca mais se viu.
A história complicada das aparições, ainda estava bem viva na memória dos mais velhos, que só não foram lá, porque, Fátima ficava muito longe. Fátima era tema dominante das conversas de serão ou , mesmo, de companhia , durante as horas de labor.
Rodeada das dúvidas de alguns, para o nosso Quim Luís, Fátima constituiu, no segredo do seu íntimo, um primeiro grande e inexplicável apelo. De tal modo que, com o Zé Ribeiro e o Xico, gago, combinaram e, preparados, fizeram, durante alguns dias, o mesmo que os 3 pastorinhos, nos montes de serra d´Aire, na esperança ingénua de virem a ser visitados pela Senhora de Pedra Maria.
§ 4
Ventos da Guerra
O ano de 1950 ficou gravado na memória das gentes de então. Ele foi bem preparado e repetidamente anunciado nas homilias do sr. abade, como o ano santo, por ordem do papa de Roma, o papa Pio XII.
A figura branca deste era muito familiar e rodeada da elevada admiração de toda a gente. Fruto das veneráveis palavras e frequentes referências que lhe eram feitas, nas homilias e na catequese.
Na década antecedente, a vida da aldeia, ainda mais, passou a girar à volta da igreja. Havia que aproveitá-lo, porque a guerra ameaçava não mais acabar e os nossos militares poderiam ser chamados, a todo o momento, a combater.
A vida tornou-se ainda mais difícil. Faltavam as coisas mais elementares, como o pão, o açucar, o arroz. Tudo era racionado.
A Portugal, competia mandar alimentos para a frente da guerra, e, por isso, mais facilmente se suportava a carência que era exigida.
Salazar era considerado um habilidoso negociador, no meio dos governantes das outras nações. Assim se pensava, com raras excepções.
O jornal do Porto que se comprava, só por causa do futebol ou, quando decorria a volta a Portugal em bicicleta, no tempo do famoso camisola amarela, Fernando Moreira, dava notícia de grandes e duras batalhas que estavam a acontecer, lá longe, na Europa.
Não se falava do problema dos judeus. Só, muito às escondidas, lá aparecia, na oficina do pai do nosso Quim Luís, o sr. Ernesto, – o gorgulho - de alcunha – homem. já, de certa idade, a falar de maneira diferente de todos, contra Hitler e os alemães. Como é que ele sabia, ninguém fazia ideia e, por isso mesmo, não era levado muito a sério.
A ideia dominante, porém, era a promessa da Nossa Senhora de Fátima: Portugal não entraria na guerra, se se rezasse muitos terços.
E o facto era que, em quase todas as casas, ao anoitecer, depois da ceia, se ouvia a reza das 5 dezenas de pai nossos e ave-marias, que acabava com a linda oração do “Salve Rainha”.
§ 5
Exéquias do Rogério Sampaio
Também foi nesse ano que, morreu, de repente, o filho do anterior professor primário de Varziela, o Sr. Sampaio.
Como tinha vários filhos, decidiu ir viver, para os arredores do Porto. O filho mais velho, chamado Rogério, entrou para o seminário e, quando frequentava já o curso de teologia, faleceu, subitamente, dizia-se que, por causa do tamanho excessivo do coração.
Teria uns 19 a 20 anos. Era um dos melhores alunos do seminário e o seu diário foi, depois, publicado, em livro, por iniciativa do condiscípulo, Manuel Martins, que viria a ser o bispo de Setúbal.
Nascido em Varziela, o funeral constituiu um acontecimento da freguesia que o nosso Quim Luís, muito especialmente, jamais esqueceu.
Um grande cortejo de seminaristas, de batina preta e sobrepeliz branca, em duas filas, vindos em autocarros, enchiam a rua que, da estrada dava para a capela de Pedra Maria, à frente da linda urna do seu colega Rogério que ficou sepultada no jazigo da família, em Varziela.
Os salmos que, compassadamente, entoavam, em celestial gregoriano, de vozes, como nunca se ouvira, deixou toda a gente encantada.
Em vez da natural consternação, própria do momento, a aldeia, em peso, viveu este dia, enlevada por um generalizado sentimento que não era feito de tristeza.
O Rogério, conhecido dos rapazes mais velhos, colegas de escola, surpreendeu toda a gente em redor, para além da freguesia. Os seus escritos foram lidos e relidos por toda a gente e a revelação da sua grande alma, fez pensar que ele tinha bem o tamanho dum grande coração.
Foi através da Srª Luzia, antiga governanta do sr. abade, que o nosso Quim Luís conseguiu ter acesso ao exemplar do diário do Rogério Sampaio que, naturalmente, não conheceu em pessoa.
A sua leitura, repetidas vezes, fez-lhe pensar no que nunca, até aí, lhe passara pela cabeça. De mera ideia, passou a um sonho. Ser padre.
Mas, como, se os pais não podiam pagar-lhe os estudos?
Ainda tinha que fazer a 4ª classe, como, já se viu, veio acontecer, no final desse ano lectivo.
Havia que dar a conhecê-lo ao pai. Como iria reagir ele e, sobretudo, a mãe que, todos os dias, lhe chegava a roupa ao pêlo, pelas repetidas e variadas traquinices, sem emenda?…
A melhor altura, pensou, seria na altura da comunhão solene, que viria a acontecer no ano seguinte. Mas não foi preciso.
A 1ª pessoa a saber foi o sr. abade João, numa tarde em que, ele mesmo, guardava a sua cabrinha leiteira e a cria branca, de tenra idade, na encosta de Pedra Maria, junto à capela do cruzeirinho.
O alívio e o contentamento que sentiu, não mais o esqueceu.
O padre fitou-o com o olhar manso e, sem grande surpresa, apenas lhe perguntou. Mas queres mesmo? Parecia que já sabia de tudo.
Vamos ver o que se arranja.
§ 6
O PADRE AMORIM
Havia na aldeia outra figura inesquecível. Era o sr. Dr. Amorim. Um padre bastante idoso, muito rico, porque dono de muitas terras na freguesia e que vivia com duas irmãs, também já de idade avançada, em grande casa assobradada, com caseiro e criadagem, a uns breves passos da igreja velha.
Limitava-se a dizer a missa diária, por volta do meio dia e sabia-se que era comandante honorário da Legião, naquelas paragens.
Tinha-se formado em teologia, na universidade de Coimbra e sabia-se que era íntimo de Salazar.
Figura extremamente alta, fina e bem parecida, de cabelo basto e ondulado caminhava sempre de batina preta e realçado cabeção branco, agarrado a uma esguia bengala preta, de cabeça prateada.
Tinha uma voz forte e bem timbrada e não havia ninguém que a ele não acudisse quando era preciso vencer qualquer dificuldade.
Subia-se umas altas escadas de pedra, gradeadas de ferro, que davam para a porta principal, onde ficava o seu escritório. Uma grande secretária, de rica madeira negra e trabalhada e muitas prateleiras, abarrotadas de livros, cobriam grande parte das paredes, de alto tecto trabalhado. Ali passava o Dr. Amorim, grande parte do tempo e, chamado à campainha, a todos respondia, lá de dentro, em alta voz:
-Venha cá, amanhã, às 9 horas…( amanhã jejua preto…)
Já era sabida a resposta. A melhor estratégia, porém, era falar com a bondosa irmã, srª D. Aurorinha. Ela se encarregaria de lhe apresentar o caso. O certo é que ninguém ficava por atender.
Quando o sr. abade João lhe apresentou o caso do Quim Luís, já, o coronel da casa da Torre, em Rande, seu conhecido, tinha aceite custear os estudos de um novo seminarista, no seminário do Porto. O último tinha acabado de “cantar missa nova.”
Era promessa da esposa, a piedosa sr.ª D. Helena, ter sempre um seminarista em preparação, por razões que se desconhecia.
O contemplado desse ano era filho de um moleiro da própria freguesia de Rande. Ia fazer exame de admissão ao colégio diocesano da Formiga, em Ermesinde, e, se passasse, iniciaria, em Outubro, os estudos que, daí, a 12 anos o levariam à ordenação.
Sucedeu, porém, que reprovou na admissão. Mal dele, para bem do Quim Luís.
Com grande alegria, ficou a saber pela boca do sr. Dr. Amorim, que o chamou, de propósito, ao seu gabinete. Ao fim de uma breve conversa, seria ele o candidato, no próximo ano.
Ao mesmo tempo, ficou a ser conhecido daquela notável figura, que ao vir despedir-se à porta, o convidou a, sempre que quisesse, ajudar à sua missa.
Com o coração a bater de feliz, não demorou muito a chegar, ao pé do pai, com a maravilhosa notícia.
- O pior é que vais ter de esperar um ano e esqueces-te da matéria para o exame de admissão – avançou, logo, o pai.
- Não há problema, vou falar com a srª professora e ela deixa-me, com certeza, ir assistindo às aulas – atalhou, de imediato, o Quim Luís.
Assim, aconteceu, de facto.
§ 7
Tempo das vindimas
As férias grandes já iam a mais de meio. Estava-se no princípio de Setembro. Fazia muito calor, como era próprio dos verões daquele tempo.
Já se ouvia, nos diversos campos, em redor, os grupos de vindimadores, acavalados nos altos escadotes de pinho, que encostavam aos elevados bardos, ou iam avançando, perfurando com mais baixas escadas, as ramadas, donde pendiam os compridos cachos, de gordos bagos, a gritarem em uníssono, os tradicionais pregões, a reclamando a presença das moças lavradeiras, que tinham a dura tarefa de transportar, à cabeça, pesados cestos de vime, cheios de uvas.
Os lagares ficavam, quase sempre, nas frescas e fundas adegas térreas dos senhorios.
Eram famosas as vindimas nos vastos quintais que rodeavam a casa da srª D. Efigénia Seara Cardoso. No seu todo, formavam a chamada quinta da Tripa.
Ficava mesmo em frente à casa do Quim Luís e estavam a decorrer. Como de costume, este fazia-se convidado. Aparecia por lá, sem que lhe fosse pedido, a ajudar na apanha dos bagos ou cachos que iam caíndo no chão.
O Quinzinho da Tripa e a mulher, Miquinhas, conheciam-no muito bem e nunca se opunham. Os filhos andavam na escola com ele. Naqueles dias, era um fartote de ricas uvas, as tais que mal começavam a pintar, logo eram alvo de arriscados “raids” pelos mais afoitos da escola.
Dava direito à saborosa merenda de broa, com rodelas de grossos e saborosos salpicões caseiros, bolinhos de bacalhau ou sardinhas pequeninas, bem fritas no azeite da casa.
No final da vindima, à noite, depois da abundante ceia servida na cozinha da criadagem da D. Efigénia, seguia-se a penosa tarefa da pisa das uvas nos lagares enormes que lá havia.
Os vindimadores, de calças arregaçadas e descalços, subiam para as rimas de uvas que, quase, esbordavam dos lagares de pedra. Começavam a calcá-las, marchando, voltas sem fim, em redor dos lagares.
Ao fim de umas horas, já só se via uma salpicante calda de uvas esmagadas, que tingia de perfumado tinto, até às coxas dos mais baixos pisadores.
Às moças das vindimas, cumpria acompanhá-los, fora e em redor dos lagares, cantando os brejeiros cantares que, ainda hoje, se ouvem no Minho. A faina era longa; durava pela madrugada fora.
Quantos casamentos tinham ali o seu começo...
A rapaziada miúda, entre a qual, também havia raparigas da mesma idade, essa, entretinha-se ao jogo das escondidas. O local não podia ser melhor.
Havia a Rosa do Manel lavrador e mais algumas das irmãs mais chegadas; as duas inseparáveis gémeas do sr. Sampaio cantoneiro, a Luísa e a Adília e outras mais.
Com que pena o nosso Quim Luís teve de deixar a brincadeira, passava da meia noite, quando a irmã Delfina o foi buscar.
§ 8
A primeira paixoneta
Por acaso, ou não, foi nesse ano que o nosso Quim Luís reparou na Rosa do Manel lavrador.
Este era chamado de lavrador, mas, de facto, já havia muito que o deixara de ser, como principal actividade.
Casara com a filha de um grande lavrador, o Sr. Alvarinho da Refontoura, chamada Aurorinha e veio viver, com os seus mais de 10 filhos, para o lugar de Pedra Maria.
Naquele simpático bando, apenas, havia 3 rapazes. O Zeca, o Quim Luís e o Alvarinho.
A Rosa era a 2ª filha mais velha das raparigas existentes. Mais 2 nasceram em Varziela.
Com a ajuda do sogro rico, tinham construido uma grande casa, de três pisos, arvorada de blocos, afitados, de granito, como era costume na região, num pedaço de terreno que aquele possuía, ao fundo e do outro lado da costeira de Pedra Maria. Distava uns 100 metros da casa do Quim Luís.
Exploravam uma farta mercearia e loja de utensílios domésticos, onde também, havia boa pinga e bons petiscos. O Zeca e o irmão( Quim Luís) ajudavam o pai a consertar bicicletas.
Também as vendiam, novas. A Rosa era quem mais ajudava a mãe na mercearia e no serviço dos petiscos.
Grande parte do tempo de férias do Quim Luís era passado, por ali, ou na forja do sr. Artur ferreiro, ajudado pelo filho, Quim “ inglês”,( este era excepcionalmente louro e de olhos azuis, enquanto os pais eram bem morenos…) a vê-lo aguçar, com dura têmpera, os picos dos muitos pedreiros que havia.
A partir daquela vindimada e durante uns breves dias, passou a privilegiar a casa do fundo da costeira.
Por entre os bons momentos em que acompanhava montagem ou o conserto das bicicletas, o Zeca lá o deixava dar uma saborosa voltinha de bicicleta e ia presenciando, com enlevo, os graciosos passos da jovial Rosita com quem, naquela noite da vindima, quase sempre partilhara, por acaso… os mesmos esconderijos.
Os vivos olhos negros, batidos pelo claro luar daquela noite de verão, iluminavam com um brilho especial, o doce sorriso que mais lhe realçava as suas bem desenhadas faces rosadas. O farto cabelo negro, de ébano, nascido, segundo uma linha de fino recorte, na testa bem dimensionada, cobria-lhe a cabeça, em reluzentes e encarapinhadas ondas que iam apanhar-se, atrás, sobre o pescoço alongado, num belo feixe, apertado por um laço de fita, talvez, de seda preta.
Mas, então, como vai ser a ida para o seminário? – segredava-lhe uma voz no seu coração palpitante.
Nada se passara entre os dois. É certo. Mas, algo de fascinante estava a acontecer a ambos. Outras ondas passaram a vibrar no seu coração de 11 anos , e, dimanavam, por certo, daquela vivência.
Um conflito, de contornos desconhecidos, começou a redemoinhar-se no pensamento do Quim Luís.
Que chatice!?…Tinha de ser, logo, naquela precisa altura em que um pesado compromisso acabara de ser assumido, publicamente – era o lamento interior que lhe tomava a alma.
Sim, porque, não tardaria muito, não se sabe como, todo o mundo, em Pedra Maria iria saber que o filho do Quim “do Padre”, (assim era conhecido o sr. Joaquim, alfaiate, pelo facto de o seu pai, Zé do Padre, ser o sacristão da freguesia) queria ser padre.
Tal facto, embora fosse muito frequente, naqueles tempos, era sempre acolhido, pela grande maioria das pessoas, de um certo carinho e regozijo; o seminarista passava a constituir uma certa pertença colectiva.
Daí, um natural acompanhamento dos seus passos iria começar, desde logo, a persegui-lo, à luz do futuro padre que dele se esperava.
Era já nítido para o Quim Luís que a opção tomada era incompatível com o estranho sentimento que acabava de ser despertado pela formosura encantadora da sua vizinha, de já há algum tempo.
Havia que tomar uma decisão.
Seguir para o seminário foi a que se lhe impôs, como o caminho a tomar, a todos os títulos.
§ 9
Um duelo oculto
Daí em diante, passou a mostrar-se mais interessado, junto do pai, na ajuda às tarefas mais fáceis da arte de alfaiate, para além do tirar alinhavos, com a ponta da tesoura, às peças de roupa concluídas.
Chulear calças, fazer casas dos botões, coser baínhas, passar a ferro as calças de cotim era tudo o que, passado umas semanas, já fazia com certo desembaraço. A tal ponto que o pai chegou a manifestar-se preocupado com o risco da troca do seminário pela carreira de alfaiate, tal era o tempo que passava na oficina.
Ainda fazia grande calor, nomeadamente, depois do meio dia.
- Porque não levas uma manta e vais ler um livro à sombra do adro da igreja? – desfechou-lhe certo dia o pai.
O Quim Luís, apercebendo-se da intenção, aceitou a sugestão e passou a ausentar-se mais para os lados da igreja e da Bouça da Pia, onde moravam os seus avós, no lado oposto à estrada nacional.
Estes, depois de terem criado uma grande ninhada de filhos, dos quais restavam 3 rapazes e 6 raparigas, vivos e já casados, parte deles, espalhados por várias freguesias vizinhas de Varziela, na Pedreira, em Margaride, em Sendim e em Macieira da Lixa, os avós paternos, viviam os dois, num pequeno anexo comunicante com a casa grande de dois pisos, onde todos cresceram, e agora estava ocupada por uma das filhas, casada o tio Armindo, São Pedro, de apelido, a tia Esperança e o seu igual bando de filhos.
O avô, conhecido por José do Padre, era uma pessoa pachorrenta e bem disposta. Ainda trabalhava, mas, vagarosamente, na arte de alfaiate. Como se disse, ao mesmo tempo, desempenhava, dedicadamente, as tarefas de sacristão. Tocava os sinos das duas igrejas, ora de festa, ora de dobrar a finados; dava corda ao orgulhoso relógio da torre de Pedra Maria, que marcava o ritmo da vida da aldeia; cuidava da conservação das grandes arcas e armários antigos da sacristia onde se guardava a paramentaria e toda a panóplia de utensílos ligados à vida litúrgica; mantinha religiosamente, limpos e bem cuidados, os arruamentos térreos do vistoso cemitério, logo ao lado e ao fundo do adro.
Era um regalo ouvi-lo a repinicar os três sinos, o grande, o médio e a sineta, puxando, com as mãos, as cordas ligadas aos respectivos badalos, retirando uma original e harmoniosa cantilena, aos domingos e nos dias de festa.
Fazia-o com tanta dedicação e era tal o dispêndio do seu tempo, que a avó, Emília, volta e meia, se virava, de fúria, contra ele, pregando-lhe um sermão, sobretudo quando precisava de dinheiro para comprar o comer. Foi sempre assim. Ou, melhor. Antes, as coisas piavam mais fino, quando os filhos eram pequenos. Era flagrante o contraste de feitios entre ambos.
Ela parecia que tinha, dentro de si, uma fábrica de electricidade; ele, levava tudo na maior das calmas. Diziam que ainda tinha tempo para dar umas tocadelas de viola, no que era um habilidoso, nos intervalos do trabalho.
Tinham, já, mais de 60 anos, mas ainda estavam rijos. No fundo, eram unha com carne.
A avó Emília, ainda conseguia acudir, dali, às aflições dos filhos.
O fiho mais novo, o Alberto, dizem que era um robusto e bem parecido homem, tinha casado com uma irmã da mãe do nosso Quim Luís. Esta tinha um feitio levado dos diabos e o pobre do marido, quando chegava da fábrica da Longra, 5 km a pé, ele era serralheiro, tantas vezes, saía porta fora e ficava sem jantar, para não ter de lhe chegar…
A tuberculose apanhou-o. Precisava de comer melhor e as posses eram escassas. Um marchante da vila propôs-se dar-lhe todos os dias um bife de vaca. Só era preciso ir lá buscá-lo.
Pois, era a abnegação extrema da mãe Emília que, a maior parte das vezes, o fazia chegar, deslocando-se, ela própria, de Varziela ao Pé do Monte, onde morava o filho desafortunado.
A morte ceifou-o, implacável, nos seus tenros 30 e tal anos deixando 3 filhos pequenitos.
§10
Toque de Finados
Foi a primeira vez que o Quim Luís ouviu, em Pedra Maria, os sinos da igreja de Margaride a dobrar a defuntos, pela morte de um seu familiar. Os primos, com quem ia muitas vezes brincar, quando passava dias a fio na casa dos avós maternos, que viviam ao pé, ficaram sós com a mãe.
Eram como 3 irmãos, tal era a força da afinidade de sangue, pelo facto de os respectivos pais serem irmãos e casados com duas irmãs.
O avô Laurentino foi quem fez todos os blocos de cimento aplicados na casa dos seus pais e foi quem pintou toda a casa, no interior e no exterior. Era trolha, de profissão.
Ainda hoje se lembra do cheiro agradável a tintas, a cal e betume, que dele se desprendia, quando chegava a casa. O carinho não era o seu forte. Um pouco quesilento. Não se poupava de ralhar, quando via os netos a depenicar-lhe as primeiras uvas ou a comer-lhe os doces figos de S. João que havia no seu quintal. Dizem que era extremamente teimoso. Tinha arribado ali, vindo do lado das Beiras.
A sua dureza contrastava com a doçura dominante das gentes de Pé do Monte.
Para compensar, a bondosa avó Margarida, “ a Guidinha padeira”, parecia que adivinhava todas as vezes que o Quim Luís lhe aparecia, de surpresa, com permissão da mãe Leonor. Logo, corria para ele, de braços abertos e enchia-o de doces beijos, como não recebia de mais ninguém. Tão carinhosa. Uma malga de marmelada caseira ou uns saborosos queijinhos de cabra que um caseiro, o velho sr. José das cabras, pastor de ofício, sabia fazer como ninguém, com um rico pão d`óvelhinha, logo, apareciam à frente do preguiceiro.
A cozinha era de chão térreo e era nela que se passava mais tempo. À volta do lar de pedra, com a trempe de ferro, para a panela do caldo e as panelas negras de fumo, havia 2 bancos, compridos de madeira de pinho, os preguiceiros, à frente dos quais caíam as tábuas presas aos toros do telhado e que serviam de mesas.
O fumo da lenha de pinheiro, no inverno, era tanto que fazia os olhos chorar, antes de se esvair pelas frestas do telhado negro, sem forro e sem chaminé.
Dormir num pequenino quarto, iluminado por uma pequenina janela, e que antecedia a sala grande, depois de um corredor comprido, tinha um especial encanto para o Quim Luís.
Havia muitos quadros de santos, à mistura com os de fotografias dos antigos, ao longo de todas as paredes.
Gostava de ouvir os barulhos próprios dali. Eram diferentes dos da sua casa. Havia o berrar do rebanho de cabras do sr. José, no curral, durante a noite; já nem incomodavam; o toque bem sonante da dezena de sinos, de tamanho crescente, na torre de Santa Quitéria.
A sua escala dava para entoar as mais simples cantigas de igreja. Os cheiros também eram diferentes e agradáveis. Vasculhar os fundos gavetões da grande cómoda antiga, com cheiro a naftalina, naquele quarto, era um encanto, jamais esquecido.
Foi lá que encontrou um tosco livro que contava a história dos 3 pastorinhos de Fátima. Tinha umas capas de cartão amarelado e grosso, uma lombada de carneira escura e dentro havia algumas das fotografias dos pastorinhos e dos mais importantes acontecimentos que lá ocorreram.
Leu-o, muitas vezes, e na sua imaginação tudo se passava com impressionante realismo.
O resto das dúvidas eram tiradas pela muito paciente e sempre pronta avozinha Margarida que também era sua madrinha de baptismo. Talvez por isso, o carinho era especial.
Pela Páscoa, nunca lhe faltava com uma saborosa rosca de trigo, oferecida como prenda de madrinha. Esta ia aumentando de tamanho, à medida que os anos se somavam.
Parece insignificante, mas o efeito que assumia no mundo do Quim Luís era enorme.
Jamais esquece o encanto das brincadeiras com os primos e outros miúdos do lugar, no meio da vegetação rasteira, entremeada de perfumadas flores silvestres, dos mais variados matizes e que revestia a encosta do monte de Santa Quitéria, sem lhes ultrapassar as cabeças; quando acompanhava a avó Margarida, manhã cedo, à missa da Santa Quitéria, seguindo a direito, pelo carreiros estreitos e sinuosos, monte fóra, enquanto ouvia, dela, a história da fuga e do martírio heróico da menina, Quitéria, filha do senador romano sediado na Bracara Augusta, (hoje Braga) para não renegar a fé cristã.
A meia dúzia de capelas brancas, erguidas ao culto, ao longo da estrada de terra que, serpenteia a encosta íngreme e dá acesso à ermida, ainda lá está a contar, com vivas imagens esculpidas em madeira ensanguentada, a impressionante lenda do martírio ocorrido nos primeiros anos do cristianismo, durante o império romano.
Quem, nascido em Felgueiras, ignora esta mágica história e não se apropriou, como seu, daquele soberbo fascínio do monte de Santa Quitéria?
Quantas vezes o subiram, como crianças na companhia dos pais e familiares, ou enquadrados em procissões multicolores, nas quentes jornadas do 15 de Agosto, ou nos inesquecíveis piqueniques da romaria de S. Pedro, ou, mais tarde, como adultos, repetindo aos seus descendentes a mesma magia que tinham recebido dos pais, naquele mesmo monte…
As visitas, de surpresa, à creche de Santa Quitéria, que ficava num enorme convento, junto à ermida, para ver a freirinha, a tia Alice, a mais nova dos tios, do lado paterno, são outra inesquecível recordação.
Naquele tempo, as irmãs vicentinas usavam um amplo chapéu branco, hirto de goma, de forma triangular, sobre a cabeça completamente rapada, que lhes deixava, apenas, como que a espreitar o mundo, os rostos rosados, iluminados pela candura dos olhos e sorrisos bondosos e largas vestes azuis, compridas, até aos sapatos pretos.
Assim era a figura da tia Alice, quando, após o toque da campainha, assomava, ao cimo da longa escadaria de pedra, depois de se abrirem as largas portas verdes do grande edifício conventual.
Era, então, uma jovem donzela de pouco mais de 20 anos. Ficava toda regalada, de alegria esfusiante, quando, saudosa, era visitada por qualquer familiar. Mas o pequeno Quim Luís, desde os 6 anos, de todos os sobrinhos, era quem mais vezes a procurava. Não abrangia bem o alcance da opção de vida que ela escolhera, mas os encontros mexiam com ele e, por certo, o marcaram.
§ 11
A longa subida
Chegou o dia 7 de Outubro. Este dia, por si, significava, para toda a miudagem o começo de mais um ano escolar. O 1º dia de escola para os mais miúdos e a continuação para os que queriam, a todo o custo, obter o exame da 4ª.
Esta era a única possibilidade de aceder aos empregos, considerados mais limpos, bem como, a de um dia, poderem tirar a carta de condução de pesados, ou concorrer à polícia. Era a grande ambição da maior parte.
Conseguir continuar a estudar, na vila, era prerrogativa de muito poucos, já que o colégio era privado e custava muito dinheiro. Liceu, só em Guimarães, a 17 Km e isso implicava a deslocação diária de camioneta e alimentação fora de casa. Nem pensar. Contava-se pelos dedos da mão os que, em Varziela, tinham tal regalia. As filhas do Dr. Ribeiro, dentista, Ana Maria e Leonor Maltês; os filhos do Sr. Carvalho das camas; os filhos da casa do Cóto, do sr. Guimarães da Sobreira e poucos mais.
A única escapadela era entrar no seminário lazarista de Pombeiro, com ou sem vocação, onde o custo era reduzido – 150$00, por mês.
Foi o que fez o primo Armando, filho da tia Ana e tio Alexandre. Este era empregado da mini-central eléctrica, situada num lugar ermo, no meio das serranias de Curvete, lá para os lados de Fafe e que ajudava a abastecer a cidade de Guimarães.
A troco de um lugar estável e que lhes rendia um ordenado, magro, mas certo, ao fim do mês, aceitaram ir viver lá, num total isolamento. Duas famílias, ali viviam, em casas geminadas, pertença da empresa hidro-eléctrica.
O tio Alexandre e os seus 4 filhos e o sr.Lucas, o sogro do tio Zé Maria, também alfaiate e a quem catrapiscou a filha mais velha, tão franca e viva como o nome que tem - Felicidade.
Passar umas semanas, a fio, na casa da tia Ana, no tempo das férias, era uma das muitas variantes habituais do Quim Luís. Bastava conseguir a autorização do pai e pôr-se a caminho.
Quem vinha de Felgueiras pela estrada que ligava a Fafe, por entre matas isoladas de pinheirais, cortava-se à esquerda, passados uns 3 Km, ali, pela casa brasonada do dr. Luís de Sergude. Seguia-se por uma estrada térrea e muito sinuosa, por entre campos de milho e vinhedo de enforcado, sem se encontrar viv’alma; passava-se pelo centro de Curvete, com meia dúzia de casa térreas de lavrador, e, ao fim de umas 6 horas de marcha, desde Pedra Maria, chegava à casa da tia Ana.
As casas geminadas e respectivos quintais estavam construídas a meio da encosta bem alcantilada, por onde descia uma grossa conduta de ferro que só a braçada de dois ou mais homens talvez conseguia abranger. Por ela, escorria túrgida, a água vinda da grande represa lá bem no alto, e ia precipitar-se, vertiginosamente, no fundo da vertente, por onde corria um pequeno ribeiro, fazendo girar as duas grandes turbinas da central que eram vigiadas, contínua e alternadamente, pelos tio Alexandre e o vizinho sr. Lucas casado com a srª Amélia.
As duas encostas que ali confluiam formavam um vale profundo; estavam recheadas de grandes penedos de granito, encobertos por velhos pinheiros e denso mato que cresciam livremente.
O silêncio amazónico era total. Só o cantarolar das rolas, dos gaios, melros e passarada bravia, abundantes, o quebravam. Ou, então, as vozes descontraídas dos dois agregados familiares vizinhos. Curiosamente, falavam todos muito alto, mesmo quando o tema podia aconselhar mais recatez. Era sabido que ninguém estaria a ouvir.
Volta e meia, ouvia-se a voz e o eco da tia Ana a gritar pelo Quim Luís e os primos Armando e Alexandre que andavam, calmamente, entretidos pelos montes, à procura de ninhos, ou tomando banho na represa da hidroléctrica, para virem comer.
O Armando já andava no seminário de Pombeiro, havia 3 anos. Sabia dizer umas coisas em latim e era bastante habilidoso para trabalhar madeira. Ele próprio construiu o seu bandolim. O tio Alexandre ficava todo babado ao vê-lo tocar, nada mal; pelas costas, não cessava de elogiar as raras capacidades daquele filho, até certo ponto, predilecto da família, de quem esperavam vir a ser padre. Os irmãos não levavam a mal, porque, de facto, reconheciam-lhe aquelas qualidades. Pelo contrário, consideravam-no mais humilde do que poderia não ser.
Tudo isto contribuia para que no espírito do Quim Luís a ideia de ir para o seminário se tornasse uma obsessão.
CAPÍTULO SEGUNDO
&1
ENTRADA NO SEMINÁRIO
O ano de espera demorou a passar. O acompanhamento das aulas da 4ª classe, autorizado e acarinhado pela nova professora, não deixou de lhe evitar um certo receio de vencer o obstáculo decisivo do exame de admissão.
De facto, não se sentia tão habilitado como estava, após o célebre triunfo da 4ª classe.
Em certo dia de Agosto, que não recorda exactamente, o pai foi levá-lo ao colégio de Vila Nova de Gaia para o tal exame de admissão. Eram tantos os moços da sua idade, espalhados pelos grandes corredores.
“- Que pena, se eu não consigo passar?!… pensava o Quim Luís.”
Começou a chamada, feita por um padre, que mais tarde, veio reconhecer, como professor de francês e tio de um colega de turma. O padre Gomes.
§2
O primeiro combate
O seu nome finalmente ecoou. Nervosamente, foi sentar-se na carteira que lhe indicaram. De novo, foi a distribuição de uma folha grande de linhas, com a etiqueta do colégio de Gaia ao alto. Resolver uns problemas de aritmética, responder a umas questões de história e geografia e fazer uma redacção sobre o mar, foi a prova que durou todo o dia.
Quando regressou a casa com o pai que, entretanto, fora fazer umas compras ao seu fornecedor de fazendas no Porto, e que, habitualmente, eram feitas através do recoveiro, não fazia ideia do resultado que iria ter.
Após alguns dias de ansiosa expectativa, a boa notícia chegou, acompanhada de uma longa lista do enxoval que teria de levar para o colégio de Ermesinde, no dia 7 de Outubro.
De fato preto, com chapéu de abas pretas, uma camisa branca e gravata preta, sapatos pretos, era como deveria apresentar-se. Para além disso, a lista era enorme. Tantos pares de camisas, meias, roupa interior, toalhas, lençóis de cama e cobertores, pasta e escova de dentes…. Eu sei lá, tanta coisa. E todas as peças tinham de ser numeradas com o seu número – o 243. A mala, ainda existe, o pai mandou fazê-la, em madeira de pinho, tingida a aguarrás, na fábrica de serração de madeiras, em Margaride.
Foi um caso sério para os pais do Quim Luís. Ainda atingiu uma pesada soma.
&3
Colégio de Ermesinde
Mas, no dia marcado, a 7 de Outubro, o pai e o Quim Luís estavam na estrada, à espera da camioneta da carreira, que passava às 7 horas da manhã, para o combóio de Caíde, rumo ao colégio de Ermesinde.
A mala estava cheia e bastante pesada. O que valia era o homem dos bilhetes quem a carregava no cimo da camioneta, subindo, com ela às costas, escada acima, o sr. João Vieira, bem conhecido do sr. Quim do padre que lhe fazia a roupa. A viagem pareceu imensa ao Quim Luís, apesar de, efectivamente, não distar mais de 50 km de casa.
Da estação de caminho de ferro de Ermesinde até ao colégio da Formiga, ainda eram uns 3 km.
Foi um homem, que por ali estava e que era mudo, quem a carregou, às costas, por 5$00. Curvas e mais curvas, estrada acima, o colégio acabou por assomar ao fim da última curva. A ânsia era enorme.
Um casarão enorme, branco, com letras grandes escritas a preto sobre o portão da entrada; muitas janelas altas. Eram duas ou três da tarde. Junto ao portão, já se via muitos dos novos colegas. Algumas caras já eram conhecidas, desde o exame de admissão. Um largo pátio interior se seguia à portaria.
O pai tratou de tudo; as roupas já estavam na rouparia, no respectivo cacifo numerado; a mala foi para a malaria e foi-lhe aposto a tinta branca o nº 243. Não demorou muito e já tinha a sua cama coberta com a colcha branca que a Mãe Leonor lhe comprara na vila.
A camarata tinha p`raí umas 60 camas, alinhadas em três filas; mas havia mais. A curiosidade de conhecer tudo, o recreio e o refeitório, era imensa. O pai tinha de apanhar o comboio das 17 horas. A vontade de se ver só, permitiu que a separação não lhe custasse nada. O mesmo já acontecera, de manhãzinha, quando da despedida da mãe e da Delfina.
Já tinha guardado o fato preto e vestido a roupa nova, para uso corrente. Agora tudo era mais fácil.
O colégio desenvolvia-se em 4 blocos de 3 andares, unidos em forma de um rectângulo. No meio ficava o tal grande átrio, descoberto, com chafariz ao centro, algumas árvores e circundado por um longo coberto, a escorrer do edificio, para recreio quando chovesse.
Dois grandes salões de estudo ocupavam grande parte da ala em frente à portaria que ficava ao centro. Do lado direito, ficava o grande refeitório com imensas mesas quadradas para 4 e a enorme cozinha; o resto era ocupado por serviços de secretaria e salas de aula.
Um largo alpendre, entre as portas do refeitório e de um dos salões de estudo, dava para o sector do recreio exterior. Havia um campo térreo de futebol, de tamanho a sério; um ringue de patinagem e uma piscina. Do lado de lá, seguia-se uma vasta quinta, com campos, árvores de fruta, ramadas de uvas, acabadas de colher e, ao longe, as casas dos empregados que faziam as terras.
Um edifício independente, ao longe e do lado direito, era a residência do cónego Gaspar, já de avançada idade e que, há muito, deixara de ser o reitor do colégio. Também, ali ficavam os serviços de tratamento de roupas.
Era um novo mundo, com muito para descobrir.
Os colegas eram os mais novatos. Andavam todos na casa dos 11 ou 12 anitos. Apesar do natural acanhamento do 1ºdia, já se via alguns grupos a girar. O Quim Luís já encontrara um que era de Felgueiras. Era o Zé da Fonseca Lemos. Da freguesia de Moure.
Foi o seu 1º conhecimento e com ele andou à descoberta do colégio. Do lado esquerdo, ao fundo da ala em frente, saía um corredor que dava para famosa igreja de Santa Rita de Cássia.
Era lá que, todos os dias, se ia à Missa e rezava o terço. Estava aberta ao público, mas os bancos da frente eram ocupados pela centena e meia de seminaristas do 1º ano. Os outros alunos, do 1º ao 7º ano eram colegiais externos e internos e não estavam sujeitos àquelas obrigações.
A 1ª grande reunião do 1º ano de seminaristas, teve lugar no salão de estudo maior, após o toque das 18h, depois de todos os familiares já terem partido.
Foi o vice-reitor, o padre Alberto Soares, quem deu as boas vindas e as explicações do momento. Homem alto, ágil e esguio, com uns trinta e tal anos, de batina preta, óculos de lentes escuras, falar afável e cativante.
O ano distribuia-se por 4 turmas de cerca de 30 e tal, por ordem alfabética. O Quim Luís pertencia à 3ª e tinha o nº 25.
As aulas teriam início no dia seguinte e seguiam os horários já afixados. As disciplinas eram: português, latim, história, ciências naturais, religião, desenho e música.
A vida no colégio era ditada pelos toques de uma grande campainha, cravada na parede à saída da portaria, para o átrio interior.
Após o toque para jantar, as grossas portas do refeitório, abriram-se de par em par.
Em poucos minutos todos os alunos internos, de todos os anos, que se haviam acumulado por ali próximo, tomaram os seus lugares nas respectivas mesas, distribuidas por sectores, conforme os anos.
O dos novos ficava na ala, ao fundo, do lado esquerdo, a partir da parede. A sequência era a das turmas do ano. Quatro Joaquins ficaram na mesa do Quim Luís. Ali, ficou a ser conhecido pelo último apelido – o Gomes.
Havia o Baldaia, do Marco de Canaveses; o Sousa Ribeiro de Arouca e o Teixeira da Cunha, de Penafiel.
O guardanapo, com o nº de cada um já estava na respectiva argola metálica do colégio.
Depois de uma breve oração, resmungada pelo prefeito, ouviu-se o arrastar das cadeiras, seguido da ordem para falar. A vozearia, especialmente, dos anos anteriores, foi crescendo, à mistura com o tilintar dos talheres e dos pratos. Uma equipa de empregados, com casaco branco, apareceu com terrinas de sopa que iam deixando em cada mesa.
Seguiram-se as travessas de massa guisada com bocados de carne de vitela, uma por mesa. Uma peça de fruta finalizou o 1º jantar, acompanhado a água de um jarro de vidro.
Uma natural reserva dominava os iniciantes. A conversa na mesa do Quim Luís reduziu-se às normais perguntas, relacionadas com a freguesia de proveneniência de cada. Nenhum conhecia ainda a terra dos demais.
Com o andar dos tempos, chegou-se à conclusão de que todos eram do distrito do Porto.
Os conhecimentos de geografia trazidos da 4ª classe, começavam a dar fruto. Havia colegas dos mais variados concelhos, desde Castelo de Paiva a Oliveira de Azeméis, da Póvoa do Varzim a Amarante ou a Vila da Feira.
Foi curioso, reparar na forma diversificada das toadas de falar, bem como dos diferentes nomes dados às mesmas coisas, tal como dos costumes. Não havia dúvida de que, para todos, se iniciava uma rica e inesquecível experiência.
O princípio de cada aula era antecedido pela chamada feita pelo professor da disciplina, que enunciava o nome completo de cada aluno. Por isso, ainda hoje, passadas dezenas de anos, todos sabem de cor o nome completo de todos.
Ao fim do 1º trimestre, em Dezembro, já todos se conheciam e se fazia uma ideia aproximada do perfil de cada um. A maioria era oriunda de famílias modestas, quer no campo das profissões, quer no grau de cultura. Filhos de agricultores eram predominantes. Mas havia-os de outros ofícios. De polícias; sapateiros; alfaiates, pequenos comerciantes, etc. A localização da origem tinha muito a ver com isso. O Baldaia, por exemplo, era filho de ferroviário; o Teixeira da Cunha de agricultores, bem com o Sousa Ribeiro.
Apenas o Sebastião Hernâni era filho de um grande comerciante, de Felgueiras, o conhecido Quim Carvalho de Margaride. O Quim Luís conhecia-o desde o exame da 4ª classe na vila. O Tristão, desde cedo se evidenciou, porque cantava muito bem as baladas napolitanas e sabia andar de patins.
Era filho de um encarregado de fábrica de calçado de Oliveira de Azeméis e sobrinho do abade de Oliveira.
O Domingos Soares era irmão do vice-reitor do colégio, o tal padre Alberto Soares…
A habilidade para o desporto, designadamente, o futebol, desde cedo, constituiu um factor de evidenciação. A pouco e pouco, se foram formando grupos de convivência mais acentuada, que ultrapassavam as próprias turmas e dividiram, desde cedo, o curso, comprometendo, para sempre, como se irá ver, a sã convivência entre todos.
Os recreios eram comuns aos alunos chamados “colegiais” externos e internos, não seminaristas.
Durante o 1ºano, para além da assistência diária à missa, a reza do terço e as aulas de religião, nada assinalava, de modo especial, a orientação vocacional que os prendia ali.
Não havia conferências especiais orientadas para os seminaristas. Tudo era dito para todos, nos salões ou no refeitório, normalmente, pelo padre Alberto ou pelo padre Marinho e reduzia-se a maior parte das vezes, à manutenção da disciplina geral. O colégio existia fundamentalmente como escola de educação na zona, como alternativa aos escassos liceus públicos e eram, como os outros seis espalhados pela cidade do Porto, pertença e fonte de rendimento para a diocese do Porto.
Era evidente a predominância na atenção dada à parte colegial sobre a referente ao seminário.
Este constituia uma visível excrescência. Alguns dos professores eram leigos. O de ciências, por exemplo, assumia-se como manifesto ateu e anti-clerical.
Quem não se lembra das sessões dos, por si chamados “machimbomos” , no decurso das aulas para gáudio seu e da turba-multa. Os alunos mais atrasados da turma subiam para o estrado e respondiam às perguntas do professor. Aquele que respondesse certo teria o direito de dar uma grande estalada no que, a seguir, falhasse. Quando nenhum acertava, voltavam-se um para o outro e, ao comando do professor, investiam, cabeça contra cabeça. Seguia-se a risada geral…
Isto era do conhecimento geral. No entanto, o professor lá continuou, impunemente, nos anos seguintes, tal como vinha dos anteriores…
Inacreditável…Como é possível?…Não faz qualquer sentido, pensava para si o Quim Luís.
Por isso, apenas teve que transpor para o colégio a natural estratégia que cultivava, com sucesso, na aldeia, no âmbito da escola primária ou da catequese. Surgiram os normais conflitos entre a rapaziada e a receita continuou a ser a mesma. Quando o desentendimento aparecia, a solução era encontrada, em última análise, pela via da luta física.
Este método funcionou às mil maravilhas, até ao 4º ano, já noutro seminário. Ou antes, no 3º ano, pouco faltou para ser expulso, como se verá.
A adaptação escolar não foi difícil. A curiosidade que sentia pelo latim, desde os contactos com o primo Armando, fê-lo entrar com muita facilidade pelo mundo das 5 declinações e pela complicada gramática latina, com regozijo manifesto do professor, o calvo padre Babo, o entusiastas da inventariação, fomento e culto das “alminhas”, na diocese do Porto.
Só no português é que se viu um pouco atrapalhado. Estava muito longe do Carmo Reis, de Vila de Conde, ou do Cardoso de Pinho, de Arouca, pelas admiráveis redacções que faziam e que eram lidas, em voz alta, para conhecimento de todos. Como era possível, escreverem tão bem?… Ideias, tinha–as o Quim Luís, mas como passá-las ao papel? Faltavam-lhe as palavras.
A ciências naturais, também, não houve dificuldade de maior. O sistema solar, as noções elementares de biologia, física e química, eram o natural desenvolvimento do que se aprendia na 4ª classe. Em religião, davam-se histórias bíblicas do Velho e Novo Testamento. Era agradável. De novo, David, Daniel, Samuel, Salomão eram as figuras que o encantavam.
Depressa, se chegou ao fim do 1º trimestre. Iam ser dadas notas, de 1 a 20 valores, por cada disciplina. Nos seus cálculos, parecia que tudo ia correr bem. O professor de português era padre e, no entendimento, ingénuo do Quim Luís poderia contar com um ligeiro acréscimo à nota que previa ser a mais fraca, só pela razão de o professor ser padre...
A responsabilidade por apresentar boas notas pesava muito. Havia, sobretudo, o benfeitor, o sr. Coronel da Torre, a quem teria de mostrar, pessoalmente, as notas de cada período. Assim ficou estabelecido, no único encontro que teve com ele.
Quando, se abeirou da pauta geral, com as notas de todos, por disciplina, e verificou que tinha uma negativa a português, 9 valores, e 11 às restantes, ficou estarrecido de medo e vergonha. Foi como se tudo se desmoronasse, naquele instante e tudo estivesse perdido.
Caíu em choro convulsivo, junto ao muro que dava para o ringue de patinagem. A consolação de alguns, os gracejos de outros, jamais foram esquecidos. Só com as palavras do prefeito, o Sr.Virgílio, homem maduro e compreensivo, se sentiu mais aliviado e pronto a enfrentar a família e o benfeitor.
Sentiu-se frustrado nos cálculos acerca da bondade do padre de português. Nunca mais contaria com essa fantasia. No 2º período, iria dar tudo por tudo para recuperar e até, afirmar a posição de que considerava ser capaz.
Ao fim dos 3 meses, já começava a ter saudades de casa. Não recebeu qualquer visita entretanto, como os outros. Só um postal do pai, de vez em quando lhe vinha refrescar as saudades crescentes. Era a 1ª vez que estava fora do seu ambiente familiar. Confrontado com uma variedade inesperada de gente diferente da que estava habituado. Reconhecera a sua inferioridade, em muitos aspectos, relativamente a certos colegas. No desporto e na gama de conhecimentos. Hábitos de leitura, para além dos livros escolares ou ligados à catequese, não tinha.
& 4
As primeiras férias de Natal
As férias do natal – de 15 dias - iam ser bem aproveitadas, tal como eram desejadas.
O dia de saída para férias foi uma festa. Começou com a preparação das malas na véspera. O que deviam levar. A mala de cartão que o pai lhe tinha comprado, estava a rebentar de cheia. Livros e roupa, tudo podia ser preciso… os gordos dicionários de português e de latim…não podiam ficar.
Como fazia falta ao pai perder um dia, ficou combinado que o Quim Luís ia com o irmão do Fonseca Lemos que era sargento do exército no Porto e vinha visitá-lo aos domingos.
Pela noitinha, eram já umas 22 horas, a mota grande do irmão do Lemos deixava o Quim Luís junto ao portão de ferro da sua casa.. a mala não sei como lá foi parar. O pai e a mãe Leonor, com os dois únicos empregados, lá estavam no habitual serão, à luz da lâmpada eléctrica pendente do tecto de madeira de pinho. O serão ia pela madrugada fora, nas alturas do natal ou da páscoa. Viu-os mas não foi visto chegar.
Arrastando como pôde a pesada mala, entrou porta adentro. As portas estavam sempre abertas aos fregueses. Todo ufano foi abraçado por todos.
- Estás mais gordo!… e estava mesmo. A comida era boa, comparada com a que comia em casa. A abundância e a boa cozinha não eram apanágio lá de casa. Era a melhor possível, sem dúvida. Tudo bem. Havia que poupar para pagar a casa nova. Além disso, em boa verdade, a mãe nunca foi muito habilidosa para o fogão da cozinha, mas era poupada e trabalhadora. Tanto poupava que a saúde começou a fraquejar.
- Ò Leonorzinha, olhe que primeiro está a saúde. Assim lho recomendava amistosamente a cunhada Aurora, mulher do tio Tónio. Está muito magrinha. Tenha cuidado. Tem de comer mais e trabalhar menos. Esta vida são dois dias, acrescentava ela muitas vezes.
E estava de facto sem saúde. Também o Quim Luís não a achou bem. Durante as férias, foram muitas as vezes que a viu a chorar com dores na barriga. Estava a tomar umas injecções vermelhas que lhe receitara, de graça, o Dr. Ribeiro, dentista. Mas as melhoras eram nenhumas.
Durante a sua vida de escola primária o relacionamento com a mãe era escasso, devido às constantes tareias que dela recebia, com razão.
Não havia um grande proximidade entre ambos. A mãe era severa e pouco carinhosa.
As saudades que sentiram ambos aproximou-os um pouco. Durante as férias. Algumas vezes, por exemplo, passou a assistir à mãe a fazer a massa para a cozedura da meia dúzia de broas de pão no forno a lenha. Não se lembra bem do que falavam. Parece-lhe que os temas não abundavam.
Mas a sua presença passou a contar muito, para o Quim Luís. Parecia que a tinha descoberto com outro sabor. Fitava-a e achava-a muito bonita, apesar da doença. Tinha um lindo cabelo castanho, alourado, ligeiramente ondulado, apanhado atrás num bem feito carrapito.
Os olhos eram negros e profundos, realçados por umas muito bem desenhadas sobrancelhas e longas pestanas pretas. A cor da pele era branca rosada e sem qualquer ruga. A boca era pequena e os lábios eram docemente delineados. Não se lembra do seu sorriso. Apenas se lembra do seu ar sofredor e preocupado. Ao pescoço, alto e tenro, trazia sempre um fio de ouro com a medalha azul dourada da Senhora da Conceição. O Quim Luís achava os seus rostos maternais muito parecidos e sentia vaidade nisso.
As férias foram passadas o mais possível dentro de casa, ao pé dos pais e da Delfina. As saudades iam aumentando à medida que se aproximava o dia do regresso ao colégio de Ermesinde.
As zangas que, antes, eram frequentes com a irmã, quase desapareceram. Havia que aproveitar ao máximo. É do que se lembra.
A festa do natal, como de costume, foi assinalada pelo bacalhau cozido com batatas e couves, com azeite saboroso, misturado com vinagre e alho. Nenhum lhes sabia também com o daquela noite. As rabanadas e os formigos eram a sua perdição. Os pratos que sobravam eram guardados no guarda-fatos. Mas a mãe não ralhava quando o via ir cortar uma fatia daquele doce inesquecível, à base de trigo seco, cozido com ovos, mel, vinho do porto, uvas passas e pinhões. Só era comido quando estava bem frio, pelo frio de inverno.
A consoada era sempre um problema. O pai estava apertado com os fatos para dar prontos a estrear no Natal. Só ao fim de muito chamar pela mãe, ele aparecia e, então, começava a ceia. Prendas de Natal, não era hábito. O Quim Luís e a Delfina bem punham os sapatos na lareira à espera duma prenda do menino Jesus, mas, em vão. Paciência. Hoje, quando o recordam, sentem que não ficaram, assim, muito magoados com isso.
Tudo o mais compensava e não era por isso que não se sentiam felizes.
O mais importante, o calor de família, existia. A comunhão de sacrifícios acontecia naturalmente.
O dia da partida chegou. Podia seguir na camioneta da manhã, às 7 horas. Mas, não. Os pais não se importaram que ele fosse antes, na das 3 da tarde.
Quando se despediu da mãe, lembra-se que não resistiu e chorou. A mãe também.
- São mais 2 meses e cá estarás de novo pelo carnaval… dizia- lhe a mãe, com os olhos luzentes. Aquelas lágrimas vertidas por casa dele, nunca mais as esqueceu. Foram um bálsamo, quase divino, que o fortificou para o esforçado período que vinha a seguir.
Durante as férias tinha lido em voz alta, na oficina, a Cabana do Pai Tomás de Hans Becher Stone que lhe emprestara a Ana Maria do dr. Ribeiro, sua companheira da comunhão solene.
Com tanto empenho o fez que quase reproduzia de cor longas tiradas daquele emocionante enredo.
O seu vocabulário estava mais rico. Consultar o dicionário para ver o significado das palavras difíceis e encontrar-lhe sinónimos era uma tarefa que o divertia, horas a fio, sem cansar.
O resultado veio logo nas primeiras aulas de português. Até porque o professor era o mesmo de latim. E nesta disciplina, o progresso continuava em óptimo ritmo.
A queda para o latim e para o estudo das gramáticas de português e do latim, eram evidentes.
Vieram as notas intercalares do carnaval. Foi um delírio. Estava afirmada a sua posição na turma e no curso. No final do ano, figurava ao lado dos 5 melhores do curso, com média de 16 valores.
Caíu em choro convulsivo, junto ao muro que dava para o ringue de patinagem. A consolação de alguns, os gracejos de outros, jamais foram esquecidos. Só com as palavras do prefeito, o Sr.Virgílio, homem maduro e compreensivo, se sentiu mais aliviado e pronto a enfrentar a família e o benfeitor.
Sentiu-se frustrado nos cálculos acerca da bondade do padre de português. Nunca mais contaria com essa fantasia. No 2º período, iria dar tudo por tudo para recuperar e até, afirmar a posição de que considerava ser capaz.
Ao fim dos 3 meses, já começava a ter saudades de casa. Não recebeu qualquer visita entretanto, como os outros. Só um postal do pai, de vez em quando lhe vinha refrescar as saudades crescentes. Era a 1ª vez que estava fora do seu ambiente familiar. Confrontado com uma variedade inesperada de gente diferente da que estava habituado. Reconhecera a sua inferioridade, em muitos aspectos, relativamente a certos colegas. No desporto e na gama de conhecimentos. Hábitos de leitura, para além dos livros escolares ou ligados à catequese, não tinha.
& 4
As primeiras férias de Natal
As férias do natal – de 15 dias - iam ser bem aproveitadas, tal como eram desejadas.
O dia de saída para férias foi uma festa. Começou com a preparação das malas na véspera. O que deviam levar. A mala de cartão que o pai lhe tinha comprado, estava a rebentar de cheia. Livros e roupa, tudo podia ser preciso… os gordos dicionários de português e de latim…não podiam ficar.
Como fazia falta ao pai perder um dia, ficou combinado que o Quim Luís ia com o irmão do Fonseca Lemos que era sargento do exército no Porto e vinha visitá-lo aos domingos.
Pela noitinha, eram já umas 22 horas, a mota grande do irmão do Lemos deixava o Quim Luís junto ao portão de ferro da sua casa.. a mala não sei como lá foi parar. O pai e a mãe Leonor, com os dois únicos empregados, lá estavam no habitual serão, à luz da lâmpada eléctrica pendente do tecto de madeira de pinho. O serão ia pela madrugada fora, nas alturas do natal ou da páscoa. Viu-os mas não foi visto chegar.
Arrastando como pôde a pesada mala, entrou porta adentro. As portas estavam sempre abertas aos fregueses. Todo ufano foi abraçado por todos.
Estás mais gordo!… e estava mesmo. A comida era boa, comparada com a que comia em casa. A abundância e a boa cozinha não eram apanágio lá de casa. Era a melhor possível, sem dúvida. Tudo bem. Havia que poupar para pagar a casa nova. Além disso, em boa verdade, a mãe nunca foi muito habilidosa para o fogão da cozinha, mas era poupada e trabalhadora. Tanto poupava que a saúde começou a fraquejar. Caíu em choro convulsivo, junto ao muro que dava para o ringue de patinagem. A consolação de alguns, os gracejos de outros, jamais foram esquecidos. Só com as palavras do prefeito, o Sr.Virgílio, homem maduro e compreensivo, se sentiu mais aliviado e pronto a enfrentar a família e o benfeitor.
Sentiu-se frustrado nos cálculos acerca da bondade do padre de português. Nunca mais contaria com essa fantasia. No 2º período, iria dar tudo por tudo para recuperar e até, afirmar a posição de que considerava ser capaz.
Ao fim dos 3 meses, já começava a ter saudades de casa. Não recebeu qualquer visita entretanto, como os outros. Só um postal do pai, de vez em quando lhe vinha refrescar as saudades crescentes. Era a 1ª vez que estava fora do seu ambiente familiar. Confrontado com uma variedade inesperada de gente diferente da que estava habituado. Reconhecera a sua inferioridade, em muitos aspectos, relativamente a certos colegas. No desporto e na gama de conhecimentos. Hábitos de leitura, para além dos livros escolares ou ligados à catequese, não tinha.
& 4
As primeiras férias de Natal
As férias do natal – de 15 dias - iam ser bem aproveitadas, tal como eram desejadas.
O dia de saída para férias foi uma festa. Começou com a preparação das malas na véspera. O que deviam levar. A mala de cartão que o pai lhe tinha comprado, estava a rebentar de cheia. Livros e roupa, tudo podia ser preciso… os gordos dicionários de português e de latim…não podiam ficar.
Como fazia falta ao pai perder um dia, ficou combinado que o Quim Luís ia com o irmão do Fonseca Lemos que era sargento do exército no Porto e vinha visitá-lo aos domingos.
Pela noitinha, eram já umas 22 horas, a mota grande do irmão do Lemos deixava o Quim Luís junto ao portão de ferro da sua casa.. a mala não sei como lá foi parar. O pai e a mãe Leonor, com os dois únicos empregados, lá estavam no habitual serão, à luz da lâmpada eléctrica pendente do tecto de madeira de pinho. O serão ia pela madrugada fora, nas alturas do natal ou da páscoa. Viu-os mas não foi visto chegar.
Arrastando como pôde a pesada mala, entrou porta adentro. As portas estavam sempre abertas aos fregueses. Todo ufano foi abraçado por todos.
- Estás mais gordo!… e estava mesmo. A comida era boa, comparada com a que comia em casa. A abundância e a boa cozinha não eram apanágio lá de casa. Era a melhor possível, sem dúvida. Tudo bem. Havia que poupar para pagar a casa nova. Além disso, em boa verdade, a mãe nunca foi muito habilidosa para o fogão da cozinha, mas era poupada e trabalhadora. Tanto poupava que a saúde começou a fraquejar.
- Ò Leonorzinha, olhe que primeiro está a saúde. Assim lho recomendava amistosamente a cunhada Aurora, mulher do tio Tónio. Está muito magrinha. Tenha cuidado. Tem de comer mais e trabalhar menos. Esta vida são dois dias, acrescentava ela muitas vezes.
E estava de facto sem saúde. Também o Quim Luís não a achou bem. Durante as férias, foram muitas as vezes que a viu a chorar com dores na barriga. Estava a tomar umas injecções vermelhas que lhe receitara, de graça, o Dr. Ribeiro, dentista. Mas as melhoras eram nenhumas.
Durante a sua vida de escola primária o relacionamento com a mãe era escasso, devido às constantes tareias que dela recebia, com razão.
Não havia um grande proximidade entre ambos. A mãe era severa e pouco carinhosa.
As saudades que sentiram ambos aproximou-os um pouco. Durante as férias. Algumas vezes, por exemplo, passou a assistir à mãe a fazer a massa para a cozedura da meia dúzia de broas de pão no forno a lenha. Não se lembra bem do que falavam. Parece-lhe que os temas não abundavam.
Mas a sua presença passou a contar muito, para o Quim Luís. Parecia que a tinha descoberto com outro sabor. Fitava-a e achava-a muito bonita, apesar da doença. Tinha um lindo cabelo castanho, alourado, ligeiramente ondulado, apanhado atrás num bem feito carrapito.
Os olhos eram negros e profundos, realçados por umas muito bem desenhadas sobrancelhas e longas pestanas pretas. A cor da pele era branca rosada e sem qualquer ruga. A boca era pequena e os lábios eram docemente delineados. Não se lembra do seu sorriso. Apenas se lembra do seu ar sofredor e preocupado. Ao pescoço, alto e tenro, trazia sempre um fio de ouro com a medalha azul dourada da Senhora da Conceição. O Quim Luís achava os seus rostos maternais muito parecidos e sentia vaidade nisso.
As férias foram passadas o mais possível dentro de casa, ao pé dos pais e da Delfina. As saudades iam aumentando à medida que se aproximava o dia do regresso ao colégio de Ermesinde.
As zangas que, antes, eram frequentes com a irmã, quase desapareceram. Havia que aproveitar ao máximo. É do que se lembra.
A festa do natal, como de costume, foi assinalada pelo bacalhau cozido com batatas e couves, com azeite saboroso, misturado com vinagre e alho. Nenhum lhes sabia também com o daquela noite. As rabanadas e os formigos eram a sua perdição. Os pratos que sobravam eram guardados no guarda-fatos. Mas a mãe não ralhava quando o via ir cortar uma fatia daquele doce inesquecível, à base de trigo seco, cozido com ovos, mel, vinho do porto, uvas passas e pinhões. Só era comido quando estava bem frio, pelo frio de inverno.
A consoada era sempre um problema. O pai estava apertado com os fatos para dar prontos a estrear no Natal. Só ao fim de muito chamar pela mãe, ele aparecia e, então, começava a ceia. Prendas de Natal, não era hábito. O Quim Luís e a Delfina bem punham os sapatos na lareira à espera duma prenda do menino Jesus, mas, em vão. Paciência. Hoje, quando o recordam, sentem que não ficaram, assim, muito magoados com isso.
Tudo o mais compensava e não era por isso que não se sentiam felizes.
O mais importante, o calor de família, existia. A comunhão de sacrifícios acontecia naturalmente.
O dia da partida chegou. Podia seguir na camioneta da manhã, às 7 horas. Mas, não. Os pais não se importaram que ele fosse antes, na das 3 da tarde.
Quando se despediu da mãe, lembra-se que não resistiu e chorou. A mãe também.
- São mais 2 meses e cá estarás de novo pelo carnaval… dizia- lhe a mãe, com os olhos luzentes. Aquelas lágrimas vertidas por casa dele, nunca mais as esqueceu. Foram um bálsamo, quase divino, que o fortificou para o esforçado período que vinha a seguir.
Durante as férias tinha lido em voz alta, na oficina, a Cabana do Pai Tomás de Hans Becher Stone que lhe emprestara a Ana Maria do dr. Ribeiro, sua companheira da comunhão solene.
Com tanto empenho o fez que quase reproduzia de cor longas tiradas daquele emocionante enredo.
O seu vocabulário estava mais rico. Consultar o dicionário para ver o significado das palavras difíceis e encontrar-lhe sinónimos era uma tarefa que o divertia, horas a fio, sem cansar.
O resultado veio logo nas primeiras aulas de português. Até porque o professor era o mesmo de latim. E nesta disciplina, o progresso continuava em óptimo ritmo.
A queda para o latim e para o estudo das gramáticas de português e do latim, eram evidentes.
Vieram as notas intercalares do carnaval. Foi um delírio. Estava afirmada a sua posição na turma e no curso. No final do ano, figurava ao lado dos 5 melhores do curso, com média de 16 valores.
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- Ò Leonorzinha, olhe que primeiro está a saúde. Assim lho recomendava amistosamente a cunhada Aurora, mulher do tio Tónio. Está muito magrinha. Tenha cuidado. Tem de comer mais e trabalhar menos. Esta vida são dois dias, acrescentava ela muitas vezes.
E estava de facto sem saúde. Também o Quim Luís não a achou bem. Durante as férias, foram muitas as vezes que a viu a chorar com dores na barriga. Estava a tomar umas injecções vermelhas que lhe receitara, de graça, o Dr. Ribeiro, dentista. Mas as melhoras eram nenhumas.
Durante a sua vida de escola primária o relacionamento com a mãe era escasso, devido às constantes tareias que dela recebia, com razão.
Não havia um grande proximidade entre ambos. A mãe era severa e pouco carinhosa.
As saudades que sentiram ambos aproximou-os um pouco. Durante as férias. Algumas vezes, por exemplo, passou a assistir à mãe a fazer a massa para a cozedura da meia dúzia de broas de pão no forno a lenha. Não se lembra bem do que falavam. Parece-lhe que os temas não abundavam.
Mas a sua presença passou a contar muito, para o Quim Luís. Parecia que a tinha descoberto com outro sabor. Fitava-a e achava-a muito bonita, apesar da doença. Tinha um lindo cabelo castanho, alourado, ligeiramente ondulado, apanhado atrás num bem feito carrapito.
Os olhos eram negros e profundos, realçados por umas muito bem desenhadas sobrancelhas e longas pestanas pretas. A cor da pele era branca rosada e sem qualquer ruga. A boca era pequena e os lábios eram docemente delineados. Não se lembra do seu sorriso. Apenas se lembra do seu ar sofredor e preocupado. Ao pescoço, alto e tenro, trazia sempre um fio de ouro com a medalha azul dourada da Senhora da Conceição. O Quim Luís achava os seus rostos maternais muito parecidos e sentia vaidade nisso.
As férias foram passadas o mais possível dentro de casa, ao pé dos pais e da Delfina. As saudades iam aumentando à medida que se aproximava o dia do regresso ao colégio de Ermesinde.
As zangas que, antes, eram frequentes com a irmã, quase desapareceram. Havia que aproveitar ao máximo. É do que se lembra.
A festa do natal, como de costume, foi assinalada pelo bacalhau cozido com batatas e couves, com azeite saboroso, misturado com vinagre e alho. Nenhum lhes sabia também com o daquela noite. As rabanadas e os formigos eram a sua perdição. Os pratos que sobravam eram guardados no guarda-fatos. Mas a mãe não ralhava quando o via ir cortar uma fatia daquele doce inesquecível, à base de trigo seco, cozido com ovos, mel, vinho do porto, uvas passas e pinhões. Só era comido quando estava bem frio, pelo frio de inverno.
A consoada era sempre um problema. O pai estava apertado com os fatos para dar prontos a estrear no Natal. Só ao fim de muito chamar pela mãe, ele aparecia e, então, começava a ceia. Prendas de Natal, não era hábito. O Quim Luís e a Delfina bem punham os sapatos na lareira à espera duma prenda do menino Jesus, mas, em vão. Paciência. Hoje, quando o recordam, sentem que não ficaram, assim, muito magoados com isso.
Tudo o mais compensava e não era por isso que não se sentiam felizes.
O mais importante, o calor de família, existia. A comunhão de sacrifícios acontecia naturalmente.
O dia da partida chegou. Podia seguir na camioneta da manhã, às 7 horas. Mas, não. Os pais não se importaram que ele fosse antes, na das 3 da tarde.
Quando se despediu da mãe, lembra-se que não resistiu e chorou. A mãe também.
- São mais 2 meses e cá estarás de novo pelo carnaval… dizia- lhe a mãe, com os olhos luzentes. Aquelas lágrimas vertidas por casa dele, nunca mais as esqueceu. Foram um bálsamo, quase divino, que o fortificou para o esforçado período que vinha a seguir.
Durante as férias tinha lido em voz alta, na oficina, a Cabana do Pai Tomás de Hans Becher Stone que lhe emprestara a Ana Maria do dr. Ribeiro, sua companheira da comunhão solene.
Com tanto empenho o fez que quase reproduzia de cor longas tiradas daquele emocionante enredo.
O seu vocabulário estava mais rico. Consultar o dicionário para ver o significado das palavras difíceis e encontrar-lhe sinónimos era uma tarefa que o divertia, horas a fio, sem cansar.
O resultado veio logo nas primeiras aulas de português. Até porque o professor era o mesmo de latim. E nesta disciplina, o progresso continuava em óptimo ritmo.
A queda para o latim e para o estudo das gramáticas de português e do latim, eram evidentes.
Vieram as notas intercalares do carnaval. Foi um delírio. Estava afirmada a sua posição na turma e no curso. No final do ano, figurava ao lado dos 5 melhores do curso, com média de 16 valores.
CAPÍTULO TERCEIRO
COLÉGIO DE TRANCOSO
& 1
O Começo da Fraude e Desilusão
Este era mais um dos vários colégios da diocese do Porto, com longa tradição. Ficava situado em pleno centro da Vila Nova de Gaia de então, 1953/54.
Um enorme edifício amarelado dava para uma das ruas centrais da vila.
Tal como o colégio de Ermesinde, funcionava como alternativa ao liceu para os filhos das famílias de mais possibilidades e ao mesmo tempo, como seminário, ou seja, escola de preparação dos futuros párocos da diocese.
O edifício estava dividido em duas partes, não comunicantes. Uma, para os alunos externos, outra, para os seminaristas. Os recreios eram totalmente separados. Não havia, por isso, contacto entre os dois tipos de alunos, embora os professores fossem, em grande parte, comuns. Melhor, a maior parte dos professores do seminário eram-no também do colégio. Não o inverso.
Daquele e dos outros colégios, saíu uma boa parte do escol dominante, não so no norte, como, à escala do país.
Ali, eram dados os 2º e 3ºanos de seminário. Dizia-se que era lá que começava mais propriamente a longa caminhada de preparação. Do 4º ao 7º ano, esta decorria no seminário de Vilar, próximo do Palácio de Cristal no Porto; do 8º ao 12º , no seminario maior, junto à Sé Catedral.
Do 2º ao 7º anos, eram ministrados, mais ou menos as mesmas disciplinas do ensino liceal, acrescidas do aprofundamento do latim, grego, da filosofia escolástica, à mistura com umas noções amplas mas superficiais da religiosidade e história católica. No seminário maior, era dado o curso de teologia, antecededido de um ano preambular, o 8º.
Mas, voltando ao seminário de Trancoso, assim, era designado o seminário de Gaia, todos tinham a percepção de que uma nova vida se iria iniciar. As coisas passariam a ser diferentes de Ermesinde. E, assim era de facto, mas apenas em parte O corpo docente era todo ele formado por padres. Normalmente, estes saíam do lote dos melhores alunos de cada curso, após a ordenação.
Havia o padre Armando a latim, a música e a civilidade; o P.e Santos Silva a françês; o P.e Delfim a português; o P.e Azevedo a Religião e Moral;
O edificio destinado ao seminário desenvolvia-se em dois blocos grandes, em forma de L, de 4 pisos, em cimento armado moderno. Ainda cheirava a novo.
Havia, para além de grandes camaratas, uma capela interior, onde se assistia à Missa diária e à reza do terço, antes do jantar; aquela, logo de manhã, antes do pequeno almoço; seguia-se um pequeno período de estudo de 30 minutos e a seguir, tinham início as 4 aulas de 45 m de manhã, separadas por intervalos de 10 m.
O almoço, num grande refeitório, formado de grandes mesas de dez ou doze lugares, com o tampo de mármore; seguia-se um recreio de uma hora e meia; novo período de aulas, uma ou 2, em certos dias da semana.
O resto do tempo era dividido em dois períodos de estudo, num amplo salão comum aos dois anos.
Uma vasta zona de recreio, com campos de futebol, de ténis, de voleibol e uma zona térrea indiferenciada, ladeada por uma latada de videiras. Para lá de um muro alto, seguia-se uma imensa quinta, com produção de vinho, horta, pomar e currais de gado, trabalhada pela empregadagem escolhida e ali residente.
A produção destinava-se ao consumo na grande cozinha do seminário.
A alimentação era menos rica e variada que no colégio de Ermesinde. Predominavam os farináceos; a carne e o peixe escasseavam e, manteiga ao pequeno almoço, só quem a trouxesse de casa.
A manteigueira do Quim Luís era de vidro, igual à do colega, Fortunato Adélio de Sousa Machado, repetente do 2º ano, conterrâneo de Felgueiras, mais propriamente da Longra. Traquina sem par, esperto, estudar é que não era com ele, mas bom colega. Os pais eram conhecidos do pai do Quim Luís e tinham uma grande mercearia, loja de vinhos e drogaria. Quando a manteigueira estava no fim, era só substituir pela do Fortunato, sempre bem abastecida…Ele nem dava fé…
O comando da vida era dado pelo toque da sineta e toda a movimentação era feita em formatura de duas filas, através dos longos corredores envidraçados, segundo as turmas e a respectiva ordem de lugares existente na turma.
O 2ºano, devido às desistências e reprovações, já só tinha cerca de cem alunos, distribuidos por 3 turmas.
Fora das aulas havia sempre um prefeito a manter a disciplina. Este era um dos professores, segundo a escala de serviço fixada pelo reitor, o venerando cónego Nédio. Nédio de nome e de aspecto.
Figura muito característica, já com os sessenta e tal anos; cara bolachuda, com duas maçãs bem avermelhadas e luzidias, tal como a cabeça completamente careca e reluzente. Baixo e gorducho, a barriga proeminente, projectava-se para a sua frente em assinalado arco redondo, realçado pela fila de botões vermelhos da batina preta, desde o pescoço ao fundo. Usava uns óculos de lentes muito grossas, por cima de uns olhos redondos e salientes. O sorriso e a calma fazia dele uma presença agradável e irradiante de respeito.
Era ele quem presidia às refeições, sentado ao centro da grande mesa dos professores, que ficava sobreelevada, no topo cimeiro do refeitório. De resto, era só no refeitório que ele era visto, para além da leitura das notas de cada período, feita, solenemente, em voz alta, ao meio do salão de estudo.
Este era um momento, aguardado sempre com enorme ansiedade geral. Ali, se ficava a conhecer a evolução de cada colega, pelas notas que tirava.
O Cardoso de Pinho, o Armando e o Carmo Reis, na 1ª turma; o Q.L. e o Mário Júlio, na 2ª; o Lúcio Barbosa e o Tristão, na 3ª, continuavam a ser os melhores.
O espírito exacerbado de competição nas notas, no desporto e educação física, era a força dominante. Dela brotavam, de forma paradoxal, duas castas antagónicas, com estatuto bem caracterizado.
A dos bons alunos e a dos melhores atletas no desporto e ginástica faziam a classe dominante.
A outra girava numa esfera desclassificada e menor. O apadrinhamento de alguns padres dado a esta situação aberrante era notório. Os “ meninos bonitos” e o resto…
O Tristão liderava-a, à frente, marrão e bom aluno, desportista polifacetado, muito snob e elitista; o Rebelo, aluno medíocre, repetente, mas bom no futebol, no andebol, no volei e na ginástica; o Lúcio Barbosa, marrão, bom aluno e desportista; os Rolando e Orlando, eram dois exímios na bola e maus alunos; o Silva Rocha, repetente e bom ginasta e outros simpatizantes formavam o grupo dos notáveis do desporto.
Aos restantes era-lhe regateada a devida atenção pelo corpo docente e a discriminação que lhes era feita pelo grupo dos notáveis, estava assinalada pela denominação que estes davam àquele grupo –eram o “PENICO”.
A desilusão e a frustração continuavam a germinar no íntimo do Quim Luís. Uma coisa lhe parecia evidente. Ainda não tinha encontrado o ambiente que idealizava como próprio de um seminário. No fundo, tudo continuava a reger-se pelas mesmas regras da escola primária. Com a agravante da inexistência dos naturais laços da vizinhança e origem.
Por isso, o Quim Luís continuou a usar a mesma estratégia. A do sopapo. No final do 3º período esteve para ser expulso porque deu uma valente sova num “ esperto” do 3º ano. O lunático Padre Barros, professor de francês do 3º ano, e que passava os salões em que era prefeito, a ler e “ a fazer a limpeza do seu salão” comentou o evento em voz alta:
- “Esse fulano é um delinquente. Devia ser expulso. Se fosse eu que mandasse…ia para a rua. ( Foi pena… .)
Só que os seus professores já o conheciam bem. “Se ele o fez é porque teve razão…” diziam o P.e Santos Silva, sub-reitor, o P.e Armando e o padre Delfim.
Que vontade de “arrear” naquela altura, a mesma dose no Tristão, o famoso cantor das canções napolitanas, patinador e sobrinho do abade de Oliveira de Azeméis, por ser um peneirento…trocista e elitista…ele e o seu grupinho…Eram tudo menos seminaristas. Hoje,
pode dizer-se que, pelo menos, estragaram o curso, do 1º ao último ano.
De resto, para além da missa e do terço diário e de uma prédica semanal, feita por um reverendo ancião, que de director espiritual, apenas tinha o nome, nada se encontrava naquele pequeno mundo, que o diferenciasse de um vulgar colégio.
O distanciamento dos padres em relação aos seminaristas era flagrante, a começar pelo lugar no refeitório onde a alimentação passava diferente e bem melhor, à vista de todos; a severidade exagerada traduzia-se em constantes reprimendas e frequentes castigos corporais, desde lambadas na cara, por tudo e por nada, um papel caído no chão, uma torneira que ficava a pingar, até horas de joelhos virados para a parede no salão de estudo, quando não com as mãos debaixo dos joelhos!…
Entre os chamados “seminaristas” que o eram só de nome, reinava uma estúpida competição nas notas e no desporto… Esta, aliada ao manifesto favoritismo de alguns padres, gerava as tais duas castas de alunos, separada por autêntico rancor e desprezo recíprocos.
A agressividade reinante em nada se distinguia da verificada noutro ambiente qualquer. Por isso, as desistências aconteciam com frequência, sobretudo, no fim das férias grandes.
A esperança de que as coisas se haveriam de modificar com a progressão no curso, fizeram com que o Quim Luís fosse aguentando. Ademais, tinha todo o interesse em conseguir os estudos. O 5º ano já dava a possibilidade de um emprego num banco, nas finanças, ou nos correios, por exemplo. E daí em diante, haveria a possibilidade de continuar a estudar…Ser professor de liceu ou de colégio, já seria muito bom.
& 2
Perda da Mãe
Para cúmulo, o ano de 53/54 ficou marcado, logo, no 1º período, com a morte inesperada da Mãe.
Estava-se em Novembro. Durante a reza do terço, antes do jantar, veio o Padre Santos Silva chamar o Quim Luís localizado num dos muitos bancos corridos, ao centro da capela.
Cá fora, no corredor, diz-lhe que se preparasse para ir a casa, ainda naquele dia. A Mãe estava muito mal… Fez a mala. Tinha uns 20$00. Dava para a viagem de comboio e camioneta.
Toda a viagem foi a chorar. Eram para aí umas dez horas da noite, quando subiu a costeira de Pedra Maria, com a mala na mão. Noite escura e fria; o pai estava a trabalhar na oficina, na mesa de corte. Pela janela iluminada, via-se que estava também a chorar…
O portão de ferro rangeu, ao abrir e a cadela , chamada “seta” apareceu, de imediato, com o rabo a abanar e a lamber o Quim Luís. Foi pela porta de lado, por onde entravam os fregueses. O pai já tinha enxugado as lágrimas quando lhe veio abrir a porta, fechada no trinco, por causa do frio.
- Sua bênção, pai!?…
- Deus te abençoe, respondeu-lhe, como de costume, estendendo a mão direita, para receber o beijo do filho.
O ambiente era muito carregado. Os 2 empregados, o João e o Eduardo também tinham os olhos marejados…apareceu a Delfina e o pequeno “ Gerinho”, o 3º irmãozito que nasceu serôdio e de que adiante se contará a história, com uns três anitos, cabelo louro e encaracolado.
- Trouxeste-me um “porto”? perguntou ele como de costume.
“Porto”era um bolo de arroz que costumava comprar-lhe numa pastelaria ao pé da estação de São Bento, quando vinha de férias.Por acaso, não se esqueceu. Ficou todo contente e a sua alegria serviu para aliviar, por uns momentos, … a atmosfera triste, na sua casa.
A mãe estava deitada no quarto dos pais, ao fundo do corredor, junto à cozinha. A Delfina foi arranjar o resto do jantar. Abriu a porta do quarto. A Mãe lá estava, magrinha, cara amarelada, olhos encovados e muito sofredora. Esboçou um sorriso e estendeu os bracitos para o Quim Luís. …Um longo abraço apertado banhado de lágrimas. De ambos… Nunca sentira o calor da Mãe a soluçar, como daquela vez…Não era possível que a Mãe morresse … Nossa Senhora não iria deixar que isso acontecesse… Porquê?…Pensava para si. Mas o aspecto da Mãe era muito preocupante. Só um milagre!!!…A noite foi passada a chorar e a rezar à Senhora de Pedra Maria…enquanto ouvia os gemidos da Mãe com fortes dores na barriga.
O Quim Luís tinha 13 anos feitos em Julho passado…Como havia de ser, se a Mãe faltasse? A esperança era muito grande, mas Deus é que sabia…
No dia seguinte, à noite, a Mãe chamou a Delfina e o Quim Luís à sua beira. Sòzinhos. Olhou-os. À Delfina e ao Quim Luís.
- Meus filhos, eu vou morrer…Portai-vos bem e tomai conta do “Gerinho”…Abraçou-os…a ambos…
Na madrugada do dia 27 de Novembro, tinha falecido … as tias Aurora e Esperança vieram logo…de manhãzinha. O Quim Luís e o Gerinho foram com elas. Lembra-se que tudo se desenvolveu sem a sua presença, em casa.
Os sinos tocaram como de costume a finados, agora, pela sua Mãe. Decorreu o funeral e um grande vazio se apoderou para sempre, pela vida fora, na alma do Quim Luís. Nunca entendeu como fora possível…acontecer-lhe a ele…ficar sem Mãe…aos treze anos.
Regressou ao seminário de Trancoso. Ali, a vida continuava o seu ritmo. Não se apercebeu de qualquer reflexo resultante do que lhe acabara de suceder… Tudo parecia normal…Para o Quim Luís é que não era.
À morte da mãe de um seminarista, com 13 anos, não fora dado qualquer relevo…pelo seminário!!!…
-“ Isto é que é um seminário?… Estes é que são ou serão os futuros padres?…que desencanto!!!…”
Desistir. Era cedo. Havia que continuar e aproveitar o máximo. Depois se veria.
O padre Delfim, jovem padre de cabelo engrenhado, moreno e de rosto excepcionalmente corado, natural de Felgueiras, era o seu professor de português. Muito exigente. As aulas eram duras batalhas, onde todos eram chamados, em cada dia.
Sinónimos e mais sinónimos, antónimos de toda e qualquer palavra…gramática; origem e evolução das palavras; sufixos e prefixos, etc… a preparação do português consumia a maior parte do estudo.
Cada asneira, era uma bofetada na cara. Pesadelo. Mas que se ficava a saber português para toda a vida, ficava. Ele devorava romances, enquanto tomava conta dos salões de estudo.
Terra Fria e Lã e a Neve de Ferreira de Castro; Ivanhoe de Walter Scott; livros sem fim. Resultado: redacções constantes sobre os temas mais esquisitos. Ditados só de palavras difíceis, corrigidos logo na própria aula.
O padre Armando, cabelo preto, ondeado, sempre a reluzir de brilhantina e muito aprumado na sua batina preta, impecável; sempre perfumado, não escondia as suas preferências… Não se sabe porquê, mas, tinha um fraquinho pelo Quim Luís, naquele ano. O ser o melhor aluno a latim talvez contasse alguma coisa…Depois veio a saber que ele era condiscípulo do novo abade de Varziela.
O mesmo acontecia com o padre Santos Silva, a francês. Adorava francês. Conseguir perceber francês e falar… era um sonho. Nas férias, poderia experimentá-lo, com os primos franceses do Carlos da Pedreira. Todos os verões vinham passar férias a Portugal. Era um sucesso…
O 2º ano estava garantido. As notas eram óptimas. Não havia exame final. O que contava era a média do ano. 14,8 foi a média final do Quim Luís, na pauta. As melhores foram a do Cardoso de Pinho, 16; a do Carmo Reis e o Simão, 15.
No 3º ano, haveria exame final, sujeito a prova oral. Aí se veria.
Reprovações e desistências iam encurtando o número de cada curso. Eram já só três turmas.
O tenebroso Simão passou a ser da sua turma. Um dos últimos, pela ordem alfabética.
Ia conhecer melhor o real gabarito daquele fatídico companheiro, crê-se que do curso inteiro.
Não demorou muito a aperceber-se que o seu forte residia na memória verdadeiramente excepcional. Decorava fotograficamente o que lia. Por isso, nas chamadas as respostas saíam em rajada. Se o professor lhe trocava as voltas, era um sarilho…para retomar a meada.
O 3º ano foi o ano de glória do Quim Luís. Com 3 dezoitos na pauta, a latim, françês e a religião e a média final de 16, com dispensa das orais, consagrou-se um dos melhores alunos do curso. Isso valeu-lhe o orgulho da família e sobretudo, dos benfeitores – o sr. Coronel e a D.Helena da Torre - a quem tinha de visitar, na rua Camões, no Porto, para lhes mostrar as notas, em cada período.
Tocava a campainha da porta grossa e vermelha. Aparecia a velha e bondosa criada da casa. Ficava à espera no átrio, ao fundo da escada que dava para o 1º andar.
Não tardava muito, aparecia ao cimo, a figura austera de militar de carreira, já reformado. Mandava-o subir. O diálogo que se seguia a um aperto de mão, era muito curto, como, aliás, convinha ao Quim Luís. Lia-lhe as notas. Sim, senhor. Boas férias. Novo aperto de mão e o Quim Luís só voltava a respirar cá fora, depois da porta bater o trinco. Tal era o pesadelo.
As férias grandes iam do final de Julho a Outubro. Eram mesmo muito grandes. Davam para esquecer as lutas e desencantos do seminário e voltar a reencontrar-se com os seus…
O Zé Ribeiro era sempre o primeiro a aparecer, para ver o Quim Luís, no final do seu trabalho na fábrica da Longra. Ele também queria ter ido para o seminário, mas o pai, embora pudesse, não quis custear-lhe a despesa. Havia mais irmãos e, isso, não podia ser.
Espírito curioso, lia tudo o que lhe vinha à mão. O cinema, na vila, ao domingo, era a sua escola. Foi ali que ele aprendeu muita história e geografia, nos filmes que depois comentava em longas conversas, sem fim. Apesar de reduzido àquela escassa fonte de informação, afigurava-se bem desenvolvido intelectualmente e um bom profissional de serralharia.
Vai para França, aconselhava-lhe o Quim Luís. Não ficas a perder. O nível de vida é muito melhor e lá poderás ser alguém. De resto, foi isso que aconselhou a todos os colegas da escola do seu tempo, porque estava ciente dessa realidade.
O tempo de férias decorria, sob a ideia assumida de que já não era um jovem qualquer. O Quim Luís sabia que. tinha um estatuto pré-definido, real, a que devia estrita obediência, sob pena de escandalizar e, na sua sequência, poder provocar o processo de expulsão da carreira sacerdotal. Os canais informativos estavam montados e, sem dúvida, que funcionariam. A caderneta das notas também devia ser vista e anotada pelo abade, a autoridade representativa do seminário, em férias.
Mas, no caso do Quim Luís, não era, de facto, esse temor que o levava a esforçar-se por cumprir e viver as férias com o melhor espírito seminarístico.
O dia começava com a assistência à missa dita pelo padre da freguesia, o padre Joaquim de Oliveira, o substituto do bondoso abade João, falecido, subitamente, nos anos 50, em consequência de uma pneumonia maltratada.
A freguesia chorou aquela perda, como de alguém que já conduzia a paróquia, desde há 5 décadas. Tinha casado os mais velhos da freguesia e baptizado os seus filhos e netos. Conhecia-os um por um, como se fosse da própria família. Toda a aldeia o chorou sentidamente.
A abundância de padres, naquele tempo, não deixou que a freguesia ficasse muito tempo sem pastor.
O novo pároco era um jovem padre vindo de uma aldeia, lá dos lados da Livração-Marco de Canaveses, ambiente, interior e serrano.
Para lá fora, logo a seguir à sua ordenação sacerdotal, uns três anos antes.
Durante os primeiros anos, notou-se um esforço de captação da simpatia geral dos fregueses. Tinha uma voz excepcional de tenor e tocava razoavelmente o órgão da igreja. Os actos litúrgicos, como o terço ou a missa ganhavam muito com essa qualidade. Por isso, não lhe foi difícil organizar, de raiz, um coro, por sinal, todo feito de vozes femininas, das raparigas, moçoilas, com ensaios, à noite, durante a semana.
Houve uma renovação da catequese e a paróquia entrou em novo ritmo.
A freguesia engalanou-se para receber o novo padre. Um grande arco, revestido com ramos verdes de palmeira, foi implantado no princípio da costeira de Pedra Maria e um tapete de flores multicolores estendia-se por aquela fora até à entrada da capela. Uns 400 metros. A ligar os 2 mastros daquele arco, uma faixa de pano branco com a seguinte inscrição:
“Bendito o que vem em nome do Senhor”.
Um grande cortejo se organizou atrás do novo padre acompanhando-o até à 1ª missa que ele iria celebrar. Ao sorriso e à bênção que ia dando, com a mão direita, o povo respondia com lanços de pétalas de flores sobre a sua cabeça. A prática ao meio da missa foi um inflamado programa do que ele quereria ser como pároco. Estava disposto à sua entrega total aos cristãos de Varziela. Praticamente, todas as pessoas eram cristãs.
Com o andar dos tempos, como é natural, a verdade veio ao de cima. O seu feitio autoritário e centralizador começou a entrar em acção. Vieram os descontentamentos e apareceram as críticas.
Um asilo para idosos, que era o orgulho da freguesia, deixado pelos antepassados, com património fundiário próprio, suficiente para alimentar e acolher umas dezenas de velhotes, tornou-se no pomo da discórdia. Não descansou enquanto não tomou as suas rédeas.
O asilo era frequentado pelos dois sexos. Havia os internos e os externos. Gozavam de uma certa liberdade de circulação e isso constituia, naturalmente, um factor positivo de bem-estar para os anciãos da freguesia, no final da vida de trabalho. Não parou enquanto não fez instalar no asilo, uma, por si considerada indispensável, disciplina monástica…cuidado com o convívio entre homens e mulheres…dar uma volta pela freguesia, nem pensar…Passear, só, ali, no adro da igreja…
O resultado foi que, num curto espaço de tempo, o asilo ficou deserto. O edifício equipado com uma grande cozinha, refeitório e quartos individuais, degradou-se. As terras passaram a ser exploradas pelo caseiro do Dr. Amorim, sem lucros visíveis…
Acabou por fechar. A guerra instalou-se e as práticas dominicais constituiam o ajuste de contas pelo que lhe ia chegando aos ouvidos…As represálias faziam-se sentir em relação aos não simpatizantes.
Os tempos eram difíceis. Convinha ter o padre do nosso lado, apesar de tudo. Era o sentimento dominante. Tudo o que carecesse de uma boa informação passava por uma boa informação daquela autoridade moral.
O Quim Luís apercebia-se de tudo isto e, a seu jeito, também teve de se adaptar. Não que isso não o perturbasse muito, pela vida fora, mas tinha de ser. Era mais um factor de desilusão.
Entre o abade e o Quim Luís havia a percepção recíproca de que as simpatias não eram muitas. Isso veio a tomar nítidês, quando, na freguesia, surgiram outras “ vocações para o sacerdócio”. O João Maria de Lemos, o Manel Barbosa, o Tónio Carvalho, todos seminaristas da ordem lazarista de Pombeiro, destinados às missões…
As preferências do abade iam direitinhas para eles e eram-lhe retribuidas por uma total docilidade.
Ainda por cima, a casa do Quim Luís. distava uns cem metros da residência paroquial. Os seus passos eram constantemente seguidos pelo olhar atento ou desatento do abade. Bastava-lhe abeirar-se da sua janela e, sem ser visto, podia observar o que se passava ao redor da casa do Quim Luís.
Por ela tinha de passar também, nas suas lides pastorais, ora descendo ora subindo a ladeira de Pedra Maria, debitando a devida vénia dos seus fregueses.
No final das férias grandes do 3º ano, seguia-se a mudança para o seminário de Vilar.
CAPÍTULO QUARTO
SEMINÁRIO DE VILAR
&.-1
Capa e Batina
Do 4º ano em diante, era obrigatório o uso de batina, romeira e cabeção, um luzidio “colarinho branco de plástico”, dentro do seminário. Na assistência à missa ou aos demais actos litúrgicos, usava-se também a sobrepeliz, branca.
Fora do seminário, o traje era o fato preto, com camisa branca e gravata preta.
Na páscoa, os seminaristas já iam substituir os párocos das freguesias da diocese, nas visitas pascais.
Tal facto traduzia-se num redobrado assumir, interna e externamente, das responsabilidades da opção sacerdotal.
A mudança de seminário era acompanhada sempre e cada vez mais de uma grande expectativa.
Novos padres, convívio com os cursos mais adiantados, até ao sétimo ano, outras condições, tudo ajudava a acentuar essa expectativa.
O grande edifício, implantado em pleno centro da cidade do Porto, na rua de Vilar, logo a seguir ao Palácio de Cristal, assume notável imponência, que lhe é dada por estar ligado a uma grande igreja de duas elevadas torres ponteagudas e altas janelas de traçado gótico, com vitrais azuis e safira.
Estende-se ao longo daquela rua, a uns dez metros de um elevado muro gradeado, numa ampla e comprida frontaria de cinco pisos amarelados, demarcados pelas filas das janelas altas dos quartos individuais dos sexto e do sétimo anos, encimados por um telhado de apenas duas abas, em forma de um alcantilado V, ao contrário. Debaixo desse telhado, ficavam duas grandes camaratas para os alunos do quinto ano.
Para dentro, o edifício desdobra-se em duas alas, em forma de U, e no centro ficam os campos de futebol, o ringue de patinagem e um grande coberto para a altura das chuva.
Na encosta que desce para o rio Douro, ficam vários socalcos de cultivo hortícola e de grandes latadas de videiras, viveiros de criação variada, porcos, galinhas e coelhos.Tudo propriedade do seminário e destinado a ali ser consumido.
A vista sobre o Douro, sobre a freguesia piscatória e ribeirinha de Massarelos, na sua margem esquerda e a foz é magnífica. Quando lá deu entrada, no ano de 1955/56, o Quim Luís, iniciava-se, então, bem à vista, a construção da ponte da Arrábida.
Quando de lá saíu para o seminário da Sé, esta já estava concluída.
Foi muito agradável entrar naquele novo ambiente. Parecia que estava, finalmente, encontrado o verdadeiro caminho que tinha escolhido. Dos três cursos que iam à frente, só o 5º ano era conhecido.
Já tinha decorrido um ano de separação, de convívio com os cursos seguintes. Todos se afiguravam ter um maior amadurecimento e revelavam-se mais aproximados daqueles seminaristas que tinham acompanhado as exéquias do Rogério Sampaio, em Varziela, nos anos 50.
O estudo da filosofia escolástica, do grego, da história de civilização e da apologética cristã, o aprofundamento da música e do canto gregoriano, por um lado; por outro, a maior intensidade da vivência espiritual, concretizada numa maior frequência e solenidade de actos litúrgicos na capela interna do seminário, onde se realçavam as frequentes práticas do director espiritual, conferiam, sobretudo aos mais velhos, do sexto e sétimo anos, uma cativante gravidade e aparente aproximação da atraente figura sacerdotal.
Parecia que aquela chocante mentalidade discriminatória que reinava no seu curso estava condenada a desaparecer, porque absorvida e neutralizada pela positiva influência dos cursos mais antigos.
Nestes, sobressaíam as exemplares condutas de distintos seminaristas, como as do Coelho e do Rocha Mendes, no 7º ano, as do Cristiano e do Campos, no 6º ano , as dos Afonso Moreira da Rocha, no 5º ano, impensáveis de existir, algum dia, no seu curso, turbulento…
Eram lindos os cantos em gregoriano, que acompanhavam a missa ou o terço diário; o coro a 4 vozes que acompanhava a missa solene rezada pelo reitor, ao domingo, às onze horas, na igreja pública do seminário, acompanhado ao órgão primorosamente tocado por um seminarista do 7º ano; era um deslumbramento.
Todos os meses, a vida escolar era interrompida por um dia de retiro espiritual, caracterizado, por inteiro silêncio, nos intervalos das 3 prédicas intensas do director espiritual.
A vida comunitária era profundamente marcada pelas doses massivas de intensa espiritualidade que brotavam das arrebatadoras práticas do padre Manuel Vieira Pinto, futuro bispo de Nampula.
Tão importante, senão mais que a vida académica, era a vivência espiritual e humana que dimanava daquele sacerdote, durante os dois anos em que ali esteve.
A direcção espiritual, constituída por um acompanhamento pessoal do padre Vieira Pinto, sempre que cada um o pretendesse, desencadeava-se naturalmente e alimentava a magnética vivência envolvente dos 4 cursos.
A sua substituição, a partir do 6º ano pelo recém-ordenado padre Marcelino, ( uma vocação tardia, desenvolvida após a sua licenciatura no curso de matemática) constituiu fulminante golpe em toda aquela obra acumulada.
A boa-vontade e evidente vivência espiritual eram insuficientes para dar continuidade ao estilo e ritmo de preparação reinantes que provinham do padre Vieira Pinto.
Por isso, durante o sexto e sétimo anos, desenvolveu-se e implantou-se no seminário, sem a oposição do corpo docente, uma outra mística bem diversa, a par da reavivada competição académica.
O culto do desporto, nas modalidades do futebol, basquetebol, andebol e sobretudo, no hóquei em patins, assumiu foros clamorosamente escandalosos. Campeonatos entre os vários cursos galvanizavam a maior parte da atenção e das energias dos seminaristas, durante os períodos escolares, com o aplauso da maior parte dos professores.
Aos domingos à tarde, depois do jantar, ouvia-se atentamente a súmula dos resultados futebolísticos dos clubes da 1ª divisão nacional, a partir de um altifalante do padre Agostinho, com a mesma paranóia reinante nas tascas cá de fora.
A idolatria dos “melhores atletas” grassou e voltou a reerguer, em cada curso, não um, mas vários “penicos”, com a reprodução das mesmas taras discriminatórias e aberrantes que havia dominado, até ao 3º ano.
As castas voltaram a radicar-se, com o beneplácito dos superiores que, ou desconheciam as suas consequências ou com elas sintonizavam.
O resultado, no curso do Quim Luís, foi uma verdadeira e comprometedora decadência para os anos seguintes, contaminando, pelo menos, os dois anos vividos no seminário maior.
No final do 7º ano, o Quim Luís esteve mesmo para desistir. A esperança de que as coisas se alterassem no seminário da Sé, com o curso de teologia, fizeram com que tal não acontecesse.
A necessidade de afirmação pessoal dentro daquele micro-cosmos social, esquisito, tornou-se uma constante. A disputa na obtenção de melhores notas tornava-se difícil. Os critérios dos professores deixavam muito a desejar. Favoritismos pessoais, imbirramentos com alguns dos seminaristas menos exuberantes eram visíveis. O nível das suas notas começou a baixar, apesar dos esforços redobrados que fazia.
A sensação era a de que as suas possibilidades estavam a diminuir irresistivelmente.
A literatura portuguesa dada pelo padre Valdemar, não obstante o gosto que sentia em estudá--la, não era correspondida nos resultados obtidos. Estes eram sempre uma incógnita, depois de terminar um exercício escrito, convencido de que tudo teria corrido bem. As redacções frequentes sobre temas esquisitos eram um quebra-cabeça e um pesadelo.
Muitas vezes se privou de ir ao passeio semanal das 4ªas feiras, para ficar a fazê-las. A inspiração , sob aquela pressão, não se manifestava e , por vezes, só na madrugada, conseguia chegar ao fim do tema, por forma a entregar a redacção na aula do dia seguinte.
Depois vinha a classificação em Bom, Muito Bom, Suficiente e Mau. Havia o comentário público das melhores.
Os melhores resultados do Quim Luís em redacções, não ultrapassaram o Bom, contrariamente ao que sucedia no 4º e 5ºanos com outros professores.
O padre Valdemar era conhecido já desde os anos anteriores, porque, oriundo doutra freguesia vizinha, veio residir com a sua mãe, viúva, numa casa de Varziela. Durante as férias convivia com ele, ajudava-o à missa e tudo lhe fazia crer que o seu relacionamento, nos anos futuros, onde o iria ter como professor, iria ser fácil.
Surpreendentemente e de modo incompreensível, esbarrou com a sua manifesta e inesperada indiferença. Pior do que se desconhecessem, quando o teve como professor.
A preocupação de se mostrar isento fê-lo cair num extremo que se tornou elevadamente perturbador, para o Quim Luís naquela fase da sua vida.
O Dr. Zacarias de Oliveira a ciências naturais e física era um caso muito estranho. Tinha tirado o curso de Físico-Química na Universidade do Porto, depois do de Teologia. Ficou com uma psicologia e um comportamento diferente dos demais professores, especialmente dos que se tinham doutorado em Roma. Mais tarde veio-se a compreender que a razão estava na mentalidade própria do ambiente universitário do Porto que ele assimilou.
Dava a entender que se tinha como diferente do resto dos padres, pela aparente descontracção social, mas dificilmente se lhe encontravam os traços caracterizadores dum sacerdote comum. Fazia do seminário o seu ponto de apoio e era professor noutros colégios laicos da cidade, propriedade da diocese.
Destoava do cunho seminarístico, mas jogava bem com os seminaristas que se evidenciavam pelo cunho não seminarístico, ou seja, pelo espírito aberrantemente colegial dominado pelos futebóis e pelo excessivo culto desportivo.
&.-2
Fuga pelo Hipnotismo
Por um acaso, no início do 6º ano, tomou conhecimento, através de anúncio de jornal, da existência de um curso de hipnotismo em lições transmitidas por fascículos e enviados pelo correio.
Eram dez cadernos e o seu custo atingia os 2.000$00. Verba inacessível para a bolsa do Quim Luís. Só com a agremiação de colegas seria possível. Escolhê-los foi a questão seguinte.
Convém dizer que o hipnotismo constituía um verdadeiro fascínio a partir do conhecimento das sessões famosas que o pároco da freguesia do Unhão fazia e de que se falava com assombro, por todo concelho de Felgueiras.
Já havia procurado livros na boa biblioteca que existia no seminário de Vilar, mas em vão.
Por isso aquela notícia se revelou como irresistível oportunidade.
O Sebastião Hernâni, o tal colega de Margaride, filho de uma família endinheirada, era uma boa hipótese de financiamento.. Depois, o estudo em conjunto, tornar-se-ia mais interessante. Falou ao Lemos, ao Cunha Dias de Castelo de Paiva, ao Cunha Rodrigues de Penafiel.
O acordo deles foi imediato. Com o financiamento do Sebastião, a 1ª lição chegou pelo correio. O grupo reuniu-se para o apreciar e decidir sobre a forma de estudo. Tudo decorria secretamente.
Pressentia-se que os superiores não concordariam com a iniciativa.
O fascículo era reduzido mas denso em matéria. Um pouco de história sobre o hipnotismo. Mesmer e outros de que não se recorda tinham desenvolvido experiências curiosas e aplicações medicinais com sucesso, nos século XVII/XVIII. As noções de psicologia eram convincentemente explanadas.
Os exercícios práticos de capacidade de fixação do olhar e o desenvolvimento do brilho dos olhos, através da fixação demorada do olhar num brilhante prismático e certos conselhos práticos tornaram-se a tarefa de todos, após um dia de estudo do fascículo.
Ao fim de umas semanas já íam praticar o adormecimento das galinhas e dos coelhos existentes na quinta do seminário, só com o fixar de olhos.
O sucesso surgiu logo às 1ªs tentativas, para o Cunha Dias e o Cunha Rodrigues.
Após as férias do Natal, o testemunho do Cunha Dias dos sucessos conseguidos em férias, como a fixação de mãos, o fecho de olhos, a queda involuntária e outros exercícios modestos, estavam a convencer o grupo do êxito certo da empresa.
Com o espicaçar do interesse geral, apressou-se o envio dos fascículos seguintes e o avanço em sucessivas experiências tornava-se uma absorvente obssessão.
Os fascículos subiam e desciam furtiva e rapidamente, dependurados num cordel, de janela para janela de cada um dos elementos, por acaso, todos situados no interior do claustro.
Não demorou muito tempo, que o caso passasse a ser falado, por entredentes, no 6º ano e não só. A ansiedade e uma certa expectativa ia-se apoderando de cada um, com efeitos diferentes.
Ao Lemos e ao Sebastião, deu para desistir. Nas férias da Páscoa, foi a vez de o Quim Luís ensaiar a sua tentativa.
Com indescritível surpresa sua, viu-se coroado de êxito logo nas primeiras experiências realizadas com o Zé Velho e Alvarinho. Tudo deu certo.
O espanto de quem presenciou espalhou-se rapidamente em Pedra Maria. Em casa do Sr. Sampaio cantoneiro, o tal que tinha 12 filhos vivos à lareira, o serão nunca foi tão banhado de lágrimas de riso. A Luisa e o Zé Velho, embora fossem os irmãos mais tímidos da família, foram capazes de divertirem, com total à-vontade e convicção, seguindo as propostas que o Quim Luís lhes ia fazendo. Desde o cantar fadista, à representação ou imitação das figuras mais conhecidas no lugar, à sensação de calor e de frio que os levava despir-se ou à procura desesperada de agasalho, depois de postos em sono hipnótico, tudo era feito com uma entrega indiscutível e convincente.
Nas primeiras noites nem conseguia adormecer, com a cabeça às voltas imaginando o que no dia seguinte poderia ensaiar.
Na loja do Manel lavrador, para além da numerosa família, havia a clientela habitual. O Alvarinho e o Zé Velho foram transformados em casal de melros. Era vê-los, trocarem de ingénuas carícias e voarem sobre o terreiro da loja de um balcão para o outro e darem-se mutuamente folhas de couve que ali se encontrava em molhos verdes. Entre meigos chilreares, as couves tenras iam sendo debicadas pelo casal amigo, enquanto a plateia se esvaía em gargalhadas contagiantes. O sr. Manel lavrador, pai do Alvarinho, nunca chorou tanto, agarrado à sua avantajada barriga.
O sonho estava conseguido. Mas o pior estava para vir. Em casa do Zé Ribeiro, a mãe Elisinha desafiou o Quim Luís quando ele passava à porta, vindo da vila, a hipnotizar a filha mais velha. Foram todos para as traseiras da loja. Não demorou muito e a Maria estava a cantar o fado como se fosse a Amália Rodrigues, a comer batatas cruas como se fossem gostosas maçãs ou a cambalear embebedada com um simples copo de água. A Elisinha, aflita, já suplicava ao Quim Luís que a pusesse, de novo, normal.
A Emilinha Cunha, a peixeira da terra, que de brejeira tinha tudo, uma das assistentes, encarregou-se de levar a notícia a toda a freguesia, incluindo aos ouvidos do abade.
O recado deste não se fez esperar. Não directamente, mas através do pai Joaquim.
- Olha que o Sr. abade não gosta que andes a fazer essas habilidades. Tens de parar senão ainda arranjas problemas – disse-lhe o pai, não em jeito de repreensão, mas, porque mais valia prevenir.
Embora compreendendo a preocupação do pai, não foi capaz de pôr termo, desde logo. O padre do Unhão usava o hipnotismo como meio da sua pastoral. Não via que fosse, de si, pernicioso ou incompatível. Por isso continuou, alheio às consequências. O pai também não insistiu. Por simples intuição. Apercebia-se que havia benefícios para o desenvolvimento psicológico do filho, tanto mais que este se lhe tinha aberto, revelando as dificuldades de relacionamento, que vinha sentindo, sobretudo, no seminário.
De facto, 1ª crise de desajustamento ao ambiente de seminário, atingiu o seu auge, durante o 1º período do 6-º ano.Nas férias de Natal, o Quim Luís despertou para a ideia de que teria no seu pai um incondicional amigo, com quem poderia desabafar;. quem sabe, até, lhe poderia resolver o problema. O pai era um homem simples. Muito calmo. Bem disposto e bonacheiro. A escola da vida, o seu ofício e o seu talento natural tornaram-no cheio .de sabedoria.
Apenas frequentara, nos longínquos anos 1915/18, durante a jovem 1ª República, a escola primária de Varziela. A 3ª classe foi o grau obtido. A sua sabedoria, porém, deixava-o Quim Luís, boqueaberto e embevecido.
As perguntas que lhe fizesse nunca ficavam por responder. O jornal e tudo o que lhe chegava à mão ele lia com interesse e fixava. Espírito curioso.
Muitas vezes o encontrava em amena conversa com pessoas cultas lá da terra: o sr. Coronel do Rabelo, o sr. Novais da Sobreira; o sr Mendonça do Cóto, o sr. Dr. Amorim.e outros mais.
Quantas vezes a oficina quente de alfaiate, se transformava em palco de curiosas tertúlias, sobre os acontecimentos que, então, se verificavam nos longes da Europa, …- a recente guerra civil espanhola fez chegar a Varziela os seus efeitos - e a contemporânea guerra de 39/45 inflamavam acesas discussões, nos serões de inverno ou nas tardes quentes do verão.
Os clientes que por ali passavam, a saber da sua roupa ou a prová-la eram uma fresca fonte de conversas que prendiam a atenção do Quim Luís e o enriqueceram…
Lembra-se do deleite que todos sentiam em ouvir o Quim Luís a ler em voz alta, bem entoada na expressão e nas pausas, “ A Cabana do Pai Tomaz”; o Cavaleiro da “Escócia”” O Zé do Telhado” “ As Pupilas do Sr. Reitor” foram livros que ficaram na memória dos empregados. O Eduardo ainda hoje o lembra, com saudade…quando se encontram…
&.-3
Em Memória da Tia Ilda
Póvoa do Lanhoso, 20 de Janeiro de 1999
No bar do Inter-Marché‚ local.
Tomei o pequeno almoço com a Clotilde e a Mariana. Para mim, um galão com descafeinado e 2 croissants quentinhos.
A Mariana, de olhos vivos num rosto bolachudinho e doce, iluminado pelas suas faces rosadinhas e por um sorriso malandro, apressa-se para seguir para a escola. Anda na 3ª classe. Tem 8 anos. A mãe lê o recado escrito que a Srª Professora lhe mandou. Pede o consentimento para que ela vá numa visita de estudo. Ficou descoroçoada, porque pensava que era para ir ver a neve…. Logo a mãe atalhou:
- Para veres neve, levo-te à Avó a Trás-os-Montes e fartas-te ...
- Oh!... fixe!..vamos lá. - respondeu com aquele sorriso brejeiro com que sabe desarmar, habilmente, todas as investidas temperamentais da mãe.
Foram para a escola. Eu fiquei …à espera. O Rogério está no seu gabinete a pôr em dia a falta que nestes últimos dias teve de dar, porque a tia Ilda faleceu, no Domingo passado.
Por isso é que aqui estou.
Foi no dia 17, de manhã, que ela chegou ao termo da sua missão, iniciada há 76 veneráveis anos...Foi a sepultar na sua campa, em Pedra Maria, ontem às 16h e 30.
Apesar da hora, muita gente veio acompanhá-la e despedir-se…Lá estavam os afilhados todos. A Ilda e o Gerinho. Entre todos os que vieram e que esteve sempre presente, houve um casal jovem, ele, rapaz fino; olhos pretos e profundos, com o cabelo escuro e liso, penteado ao lado, fartas sobrancelhas negras.
Ao pé, a mulher. rapariga também aprumada. Viveram todos os momentos com grande compenetração e consternados. Perguntei ao Rogério quem eram. É o afilhado da tia. O filho da Adelaide “ Riqueta”. Esta e a irmã eram, com a sua mãe, nos anos 40/50, as prostitutas da terra. Viviam, marginais, no meio de uma mata, para os lados do Eirado.
A tia Ilda cumpriu a vida com respeitável generosidade e entrega aos outros. Mulher bonita e prendada, podia ter constituido o seu lar. Hoje, estaria a ser chorada pelos filhos e netos...
A Natureza e as vicissitudes da juventude assim o não quiseram...Um amor não correspondido; uma debilidade nervosa afastaram-na do lar que poderia ter.
Baptizou o Rogério quando tinha cerca de 30 anos, o último filho de seu irmão e padrinho também.
Ele nascera em 25 de Novembro, como surpresa ou como tentativa de recuperação da saúde da Mãe, Leonor. Não sei.
Foi uma muito grata surpresa quando, naquele domingo, regressei do terço, na igreja de Pedra Maria e fui chamado ao quarto dos pais, ao lado da cozinha. Fiquei assustado, porque deixara a mãe a gemer, cheia de dores. Eu atribuia-as à maldita doença que, desde há uns 2 ou 3 anos, a martirizava, a ela e a nós, tornando a nossa casa sombria e triste.
Tinha eu 10 anos. Que maravilha...quando a mãe levantou o cobertor e me mostrou um bébé‚ rosadinho de cabelo escuro!...Dias antes, tinha visto, com certa inveja, um bébé assim, da Camilinha, cantoneira, o Rolando. Por isso, não queria acreditar. A gravidez da mãe passara-me completamente despercebida...tal era a inocência e a vivacidade da minha entrega à brincadeira…fui apanhado por total surpresa…
Então, lembrei-me de uma conversa que, na manhã duma 2ª feira, o momento que o pai destinava, sempre, a talhar os fatos e calças, que iriam ser feitas durante a semana.
Ainda vivia sob o efeito surpreendente que as exéquias do Rogério Sampaio me tinham causado. Desejei ter um irmão mais novo “para eu educar à minha maneira”. Foi esse desejo que naquela manhã expus naturalmente, ao Pai…sem ter recebido ou registado nele qualquer reacção…. Pois, ali estava o meu irmãozito…
Quando chegou à altura de se escolher um nome, sugeri, logo, o do meu ídolo, Rogério Sampaio. Sugestão e apelo aceite, de imediato. Hoje, cá temos o Gerinho, que teve como padrinhos, o Avôzinho – Zé do Padre – e a tia Ilda.
Lembro-me do dia do “baptizado” No final da missa do dia, num Domingo, como era costume. Foi na igreja velha, e ainda, pelo sr. Abade João. Seguiu-se um almoço de festa, servido na sala de jantar, na mesa de abas de eucalipto, extensível, com cadeiras , tudo comprado de fresco, ao sr. Carvalho das camas.
O sol da alegria brilhou, por uns breves tempos, na nossa casa.
Mas foi de pouca dura. A doença da mãe continuou a minar-lhe, em trabalho surdo e demolidor, arrastando-a desesperadamente e sem que lhe pudéssemos valer, para a morte, 3 anos depois, exactamente, no dia 27 de Novembro de 1954.
A Delfina tinha 18 anos. Desde os 14, ela foi o apoio da casa, sob o olhar triste da Mãe…e com o sacrifício das suas legítimas aspirações da adolescência que só passa uma vez…
“Bonita rapariga que era ela…um rosto e um corpo de artista de cinema” , assim, haveria de ser definida pela minha mulher em presença das suas fotografias de então e, mesmo, quando a conheceu, após o meu casamento em 1968.
O amor por um rapaz do seu tempo, jovem robusto e de traços sedutores, como o era a qualidade da família, -o Juca do sr. Artur Ferreiro -, levou-os ao casamento, pouco depois da morte da mãe Leonor.
Lembro-me do fausto banquete que ficou a marcar o seu casamento. Servido debaixo da ramada frondosa de vides padeiras, no terreiro da casa das tias do Juca, ali em Pedra Maria, junto á estrada. Quereria o destino que essa viesse a ser a casa definitiva e a última morada, da Delfina até 11 de Janeiro de 1998, dia em que tão inesperadamente se despediu da vida…
Eu já frequentava o 2º ano de seminário e só vinha a casa nas férias habituais. Meu pai vergastado pela vida lutava no seu ofício de alfaiate, com os 3 empregados fiéis, - o Quim faiate, o João violas e o Eduardo do ferreiro, - e uma vasta clientela que abrangia Varziela e freguesias em redor.
Foi, então, que vi entrar na nossa casa sombria de dor e horizonte carregado, a tia Ilda.
Servir nas casas fidalgas de Varziela, na da Seara, da D.Efigénia, na casa da Estrada, tinha sido a sua carreira até então, desde que deixou a escola na 3º classe. Foi assim que os avós paternos - o Zé do padre e a avó Emília Lopes – conseguiram criar um rancho de filhos, num jardim de alegria e labor… eram 8 ou 9. A Ilda era a penúltima. O caminho a seguir foi o mesmo das irmãs anteriores – servir. Ali, aprendeu e desenvolveu a notável habilidade para a arte de cozinhar.
Assear a casa e inundá-la de vida e gosto de viver, foi sempre o seu timbre. Afilhada do pai, mais velho uns 23 anos, e madrinha do Gerinho que teria os 5/6 anitos, sentiu-se na obrigação de vir criá-lo e acompanhar o padrinho…
O sentido da vida sem sentido do meu pai pareceu ter os dias contados. Viu-se, logo, a diferença, nas primeiras férias, as da páscoa. A casa, embora modesta, renovou-se. A ordem, o asseio e o sol começaram a brilhar nela…ajuda no quintal, muitas flores no jardim, ajuda na oficina de vez em quando e o acompanhamento do Rogério na vida escolar, encheram a casa. As minhas roupas passaram a ir na mala, mais limpinhas e bem brunidas, quando regressava ao seminário, no fim das férias. Um postal manuscrito, com breves notícias e uma palavra de encorajamento, passaram a surpreender-me amiúde, no seminário.
Nunca foi um sentimento filial o que lhe dediquei, desde então, mas o de uma enorme estima e grande gratidão pelo seu serviço. Entrevi que, se um dia viesse a ser pároco algures, teria nela uma preciosa governanta, para mim e para meu pai, este, se não viesse a casar de novo…
Penitencio-me de o ter afastado dessa orientação, por ciúmes estúpidos e um irracional preconceito…depois de ter cumprido a tarefa de buscar uma encomenda de roupa de cotim que ele dera a fazer a uma costureira que ficava na encosta dos montes de Rande, virada para a freguesia do Unhão.
Esta constituiu a auscultação habilmente montada pelo pai para ver a minha reacção. Fui recebido com uma gentileza tal que me suscitou o pressentimento de que estaria a desencadear-se uma apresentação recíproca, para ver o que resultava.
Ela era uma mulher formosa, limpa, morena e robusta, com cerca dos 30 anos. Era a costureira daquela zona, eminentemente rural, que o pai conheceu nas suas entregas da roupa que confeccionava.
Os anos foram passando. O Gerinho gostava mais da brincadeira do que dos livros da escola. A culpa estaria, mais, na severidade excessiva e no espírito arbitrário do mestre-escola – o recém- formado professor Armindo da Laje. Ainda cheguei a vê-lo ensinar nas aulas nocturnas e pude constatar aquelas particularidades.
A minha ascensão nos graus do seminário conhecia dificuldades e desajustamentos ameaçadores. A ideia de desistir tornava-se cada vez mais insistente no meu espírito. Só o meu director espiritual o sabia. Não sei se o pai e a tia Ilda o pressentiram alguma vez
Em Março de 1960, nos primeiros dias do 2º período do 1º ano de teologia, a decisão de abandonar a carreira eclesiástica foi penosamente tomada. A ideia de vir a ser mais um dos abades instalados numa qualquer paróquia, a viver à sua custa, tendo de regatear o pão nosso de cada dia, como se via fazer em redor, ajeitando a súplica, de modo mais ou menos velado ou ostensivo, no meio das homilias dominicais, não me seduzia de todo.
Talvez não acontecesse, se, eu, daquela vez em que um missionário comboniano veio ao seminário falar das missões na tentativa de despistar vocações donde as havia em abundância para onde faziam mais falta… me tivesse oferecido, como estive mesmo perto de o fazer. Como reagiriam o meu pai e os benfeitores?…Foi no 6º ano…
Tudo, porém, foi feito, à sombra da vontade de Deus. Disso estou certo.
Vim a casa com a notícia mais difícil que tive para dar ao meu pai e à tia Ilda. Ainda havia pouco tempo, tinha eu ido de férias do Natal, aliás, aquelas férias interrompidas coactivamente, pelo vice-reitor, Dr. Ângelo Oliveira, numa medida chocante e descabida…Se a tivesse invocado na altura, vejo-o, hoje, constituiria uma razão plenamente justificativa da desistência… Só que, embora o tenha sentido vivamente, sofri-a com resignação…Por deformação do carácter, sem dúvida…
Dias antes de começarem as férias do natal, a tia Ilda telefonou para o seminário dando conta de que o pai estava muito doente, com grandes hemorragias do estômago.
Foi-me concedida autorização para ir a casa. Saí logo. Repetia-se a lancinante sensação que anos antes sentira, na viagem, de emergência, dias antes da Mãe falecer, em 1954.
O pressentimento de que algo de terrível se abeirava, transformou aquela viagem, desde o Porto a Varziela, no percurso mais longo e penoso da minha vida.
Quando cheguei, o pai estava de cama, muito debilitado. Já tinha recebido transfusões de vários familiares, da tia Esperança, da tia Aurora e do tio Zé Maria…Foi preciso dar-lhe mais. Imediatamente me dispus … como foi bom tê-lo feito...
Como as férias do Natal se avizinhavam, dias depois, aproveitei uma boleia do Alberto Cunha ao Porto (a viagem custava caro) e fui ao seminário buscar o resto das coisas, roupa e livros, que deixara ao partir. Eram umas 19 horas e era noite quando fui a correr ao meu quarto, enquanto o Berto Cunha me aguardava no largo da Sé…
Cometi o erro de nada dizer a ninguém. Foi entrar e sair. Alguém me viu, porém., pois que, no dia seguinte, era chamado ao sr. abade, para tomar conhecimento da carta do dr. Ângelo Oliveira, com a ordem de regresso imediato ao seminário, sob pena de expulsão e acompanhada de um sermão. “Pela falta de sensatez demonstrada”, segundo o austero professor de metafísica…(Havia de ser hoje.…Devolver-lhe-ia o sermão pela sua imperdoável falta de humanismo e bom senso…no juizo unilateral que a meu respeito fez sem me ouvir… muito grave.)
Foi fácil de fixar, porque foi no ano das últimas grandes cheias do rio Douro. Cheguei ao seminário, banhado em lágrimas. O reitor, cónego Miguel Sampaio deu a entender que não concordava, mas não foi capaz de desautorizar o seu vice. Fiquei em clausura, até ao regresso dos colegas, das férias do Natal. Ajudei no socorro aos desalojados da cheia no enorme edifício junto à Sé, pertença da diocese e disponibilizado para o efeito…O certo é que foi umas semanas após que tomei a decisão de abandonar o seminário. Em Março de 1960, nos primeiros dias do 2º período do 1º ano teologia.
Creio que foi uma das mais difíceis decisões que tomei na minha vida. Vim a casa dá-la ao pai e à tia Ilda. Apareci de surpresa. Necessidade de descanço, foi a razão inicial apresentada… e aceite sem questionar. Uma certa aprensão terá ficado em ambos, porém. No 3º dia seguinte, de manhã, abeirei-me do pai. Porque se sentia melhorzinho estava a trabalhar na oficina e sózinho.
- Pai. Quero dar-lhe notícia da decisão que tomei..
- Que é que aconteceu? perguntou, apreensivo.
- Pai, prefiro ser um bom pai como o senhor, do que um mau padre. Não aguentava mais continuar no seminário. Já apresentei a desistência ao reitor e ele arranjou-me a ir, de graça, para o colégio de Ermesinde preparar o exame do 5º e do 7º anos do liceu, já este ano. Os estudos do seminário só dão equivalência à parte de letras do 5º ano de liceu.
Vim depois a constatar que o desgosto que sentiu foi enorme. Por isso e pela debilidade crescente, em 9 de Maio de 1960, não resistiu a uma das frequentes hemorragias… Tinha apenas 54 anos.
Novo ciclo escuro se desvendou . O Rogério com uns 9 anos apenas; a minha vontade era de ingressar num curso superior. A tia Ilda desorientada no que fazer…
Em vão, bati à porta dos antigos benfeitores do seminario e de uma tia-avó – materna, africana, com fortuna, para seguir para a universidade de Salamanca tirar o curso de história ou de filosofia. Lá, os estudos do seminário tinham equivalência oficial ao 2º ano!…
Três anos depois estaria licenciado e apto a leccionar num dos colégios particulares que abundavam. No liceu, aquela licenciatura, da universidade de Salamanca, não era habilitação suficiente…Este disparate colossal, da autoria da “dupla reinante” – Salazar/Cerejeira - só acabou com o 25 de Abril de 74.
Registo, também, que, houve manifesto desinteresse por parte do reitor do seminário, ( cónego Miguel Sampaio) quanto ao meu caso. Outros colegas (do lote dos mais bonitos…) beneficiaram dessa facilidade, a coberto do seminário…o meu caso serviu para salvar a honra!…( não era dos bonitos…)
O serviço militar obrigatório foi, como se irá ver a seguir, quem veio remover, naturalmente, as dúvidas sobre o rumo a tomar. O curso de oficiais milicianos, em Mafra e o cumprimento de uma comissão de serviço militar, na Guiné, barraram-me a vida entre 1963 e 1966, mas resolveram, de momento, os problemas. Foi possível pôr o Rogério num colégio interno no Porto e a tia Ilda ficou, amparada, a cuidar da casa e do afilhado.
CAPÍTULO QUINTO
SEMINÁRIO DA SÉ
& 1 – Só…caiado de Branco…
A “ordem de reclusão” no seminário, tão desabridamente vibrada ao Quim Luís pelo vice-reitor, dr. Ângelo, em plenas férias do Natal, sem cuidar de saber sobre o estado de saúde do pai, que sabia bem doente, muito contribuiu para a difícil decisão de desistir.
Tudo aconteceu quando a permanência no 1º ano de teologia já estava a tornar-se demasiado penosa para prosseguir. Nada constituia fonte de atracção:
As relações de convivência continuavam degradadas, senão, piores;
Perfilavam-se nitidamente, os indícios da disputa que mais tarde tenderia a instalar-se, entre os futuros sacerdotes, na busca dos “melhores” lugares na corporação eclesial da diocese;
As melhores freguesias, (diga-se mais ricas) eram já conhecidas dentro do seminário, a 4 ou 5 anos do fim do curso; o professorado, especialmente nos vários colégios da diocese; os cargos no paço do bispo, tudo era motivo de conversa. Mais insistente e viva, à medida que se subia nos cursos.
Uma muito especial forma de estar e de conduta se apoderava dos seminaristas mais ávidos, como subtil estratégia de alcançar aqueles objectivos…o calculismo, a rivalidade e a hipocrisia grassavam, como ervas daninhas, subvertendo o que deveria ser a serena inter-ajuda na busca do mesmo ideal…
A matéria das disciplinas teológicas também não atraía:
A exegese bíblica, dada pelo monocórdico dr. Godinho, era despejada em monótona catadupa, com os olhos revirados, presos ao tecto, num penoso esforço de concentração, como o exigia aquela minuciosa, estéril e insípida análise, confronto do sentido das palavras usadas para a mesma situação bíblica, por forma que só os que conseguiam apanhar o apontamento manuscrito, ficavam com a base de estudo e preparação;
A história da Igreja dada pelo um pouco irreverente dr. Xavier Coutinho revelava percursos nebulosos de papados, cismas e doutrinas que não eram propriamente os esperados alicerces da Igreja que se propunha abraçar;
A patrística tinha como professor o vaidoso e amaneirado dr. Pires Ribeiro, sempre a puxar para cima a melena que lhe escorria sobre os perenes óculos escuros; chegava tarde e mal preparado do colégio de Ermesinde onde era director;
A história da arte era dada pelo austero e enigmático dr. Pinho Brandão, escondido atrás dos seus óculos, de grossas lentes e aros pretos de breu; nada mais se ouviu daquela boca seca que não fosse a fraseologia estereotipada acerca dos estilos, nos diversos domínios da arte; ( excepto quando, inesperadamente, se dirigiu ao Quim Luís, nestes termos:
“o seminarista Mendes Gomes deve retirar imediatamente os cotovelos de cima da carteira, porque tal atitude é imprópria de um futuro sacerdote…)
O hebraico era dado pelo simpático e distinto dr. Lopes Rodrigues, mas a densa e complicada morfologia tornavam-no intragável; apenas o Armando Coelho Ferreira da Silva conseguia penetrar e progredir naquela selva desconexa…
A teologia dogmática tinha à frente o próprio reitor. Apesar do esforço visível, não conseguia sair da letra do livro;
Para culminar, do tempo passado a caminho da capela e dos ensaios do coro, pouco sobrava para a preparação das aulas exigentes, sujeitas a chamadas e pontos escritos.
Por tudo, o desânimo trouxe ao Quim Luís o descontrole e a sensação de que jamais conseguiria recuperar e sentir-se integrado naquele mundo.
Veio o mini-retiro mensal; aquele que se fazia durante um dia, desde o final do recreio do almoço até ao final da missa na manhã do dia seguinte.
O conferencista, nesse mês, era pároco de uma freguesia da diocese. Vinha do terreno, dar da sua experiência. Pela primeira vez, se abordou o tema da solidão que invade o sacerdote na sua meia idade, prevenindo, a jeito de advertência, para o período pós-entusiasmo da juventude… mesmo a calhar. Parecia adivinhar a crise que se desenvolvia no espírito do Quim Luís. As suas palavras foram absorvidas, uma a uma, como bálsamo.
No final da última conferência, a decisão estava tomada. Faltava só consultar o director espiritual. Bastou levantar-se e procurá-lo na saleta existente ao fundo da capela. Ele estava lá e disponível.
- Não é para me confessar, sr. padre. Queria apenas ouvi-lo sobre o que acabo de escutar.
- diz lá, adiantou, mandando-o sentar.
A confirmação seguiu-se tal e qual tinha ouvido.
A reserva adiantada pelo padre Agostinho de que Deus também lá estaria, na ocasião do desânimo, com o seu permanente amparo não foi suficiente para demover o Quim Luís.
Tornou-se-lhe claro que deveria acabar ali e sair.
&-2
DESPEDIDA
Foi o que fez, logo a seguir ao pequeno almoço. Já não foi às aulas.
Foi bater à porta do Reitor.
A pesada porta de madeira entreabriu-se. O cónego Miguel Sampaio apareceu na sua inconfundível bonomia e impecável aprumo, esboçando um sorriso franco, mas apreensivo.
Tomou o seu lugar na cadeira depois de o convidar a entrar.
O gabinete era majestoso como a figura do seu habitante. Estantes abundantes, de madeira negra, revestiam todas as paredes livres e abarrotavam de livros de espiritualidade. Ricos cortinados de damasco pendiam elegantes das galerias que encimavam as duas portas. O chão era revestido de rubra alcatifa macia.
A secretária era de madeira preta e luzente, apoiada em pernas de torneado bem retorcido
A luz do sol entrava filtrada pelas cortinas brancas que tapavam a janela, do lado esquerdo e que dava para os claustros; ao bater na alcatifa e nos cortinados tornava o ambiente solene, como só os eclesiásticos sabem combinar.
- Então que te traz por aqui, Mendes Gomes? Perguntou o reitor já sentado, majestaticamente, na sua cadeira episcopal.
De facto, era a primeira vez que ali batia. As vezes que se tinham falado, foram-no nos corredores, em encontros furtivos, de meros olá!..
- Venho comunicar ao Sr. Reitor a minha desistência, respondeu pronta e serenamente o Quim Luís.
Fitaram-se nos olhos por uns breves instantes, como que procurando sintonizar, entre si, os pensamentos.
Muitas vezes já tinham sido proferidas, ali, idênticas comunicações. Aquela foi das que deixou uma certa surpresa a bailar no rosto sereno e altivo daquele superior.
- Mas, é mesmo para valer?…insistiu de novo o reitor.
- É, sim, senhor. Foi preparada e acompanhada pelo meu. director espiritual. Prefiro ser um bom católico do que vir a ser um mau padre.
- Está certo. Então, antes de saires, tens de ir comunicar aos teus benfeitores - lembrou.
O padre Miguel Sampaio era conhecido do coronel Serafim de Morais e da esposa Srª D. Helena. Por isso, o Quim Luís esteve, sempre debaixo de uma especial apreciação.
- E, que pensas fazer, a seguir? Continuou.
- Eu queria continuar a estudar e entrar na universidade. Para isso tenho de fazer o 5º e o 7º ano de liceu, ainda este ano.
- Bom. Vou ver se consigo do sr. dr. Pinto Ribeiro, que te deixe ir de graça, para o colégio de Ermesinde prepar esses exames todos.
Aquelas palavras caíram-lhe fundo no seu coração. Bendisse Deus. Afinal, nem tudo lhe corria mal, como parecia, nos últimos tempos.
Era mesmo o que precisava.
O reitor conhecia bem a situação familiar do Quim Luís. Mas, talvez que aquela sua pronta disponibilidade fosse fruto da injustiça que teve de consentir, quando da infeliz “ordem de prisão” que o seu vice lhe tinha dado, no último Natal… Pensou-o, depois, de si para si…
Não havendo nada mais a conversar, ambos se levantaram. O reitor veio acompanhar o Quim Luís à porta, poisando-lhe, em gesto cordial, a mão branca sobre o ombro.
Levantou a pesada aldraba de ferro que prendia a porta grossa no sulco fundo da parede velha de granito e despediram-se, afectuosamente…
Agora, havia que dar a notícia a alguns colegas e professores. Foi a sua tarefa, depois do almoço.
O 1º foi o Cardoso de Pinho. Tinha uma especial amizade e admiração por aquele colega que vinha desde o 1º ano.
Se havia algum colega do curso que iria dar que falar, no futuro, era ele, Disso estava certo. Muito inteligente e muito simples; óptimo colega: muitas vezes se escolheram para companheiros nos habituais passeios das 4.as feiras, a 2 ou 3, através dos arredores do Porto.
Apesar disso, a notícia apanhou-o de surpresa. Não queria acreditar.
- É verdade. Já dei conhecimento ao reitor. Agora, é preparar as malas e seguir.
- Se assim é, tenho muita pena, mas respeito a tua vontade – exclamou ao mesmo tempo que se levantava da cadeira de trabalho. Tu sabes bem o que queres, acrescentou. Olha, conta sempre comigo para tudo, ouviste?
Um forte abraço comovido selou aqueles longos anos de vida em comunhão estreita, desde os tenros 12 anos de Ermesinde.
A seguir, foi a vez do Carmo Reis, outro companheiro especial, com quem partilhava confidências nos momentos mais duros. A reacção foi idêntica.
Saltando de quarto em quarto ao longo dos soturnos corredores onde se instalavam as duas centenas de seminaristas teólogos, foi levando a nova da sua desistência inesperada.
Havia muito que tal não acontecia no seu curso, apesar da flagrante desunião e pobreza de autenticidade que o caracterizava…
Por isso, a sua saída veio a confirmar-se como a 1ª pedrada no charco, já que outras se lhe seguiram: o Cunha Rodrigues; o Cunha Dias; O Carmo Reis; o Silva Miranda, o Simão e tantos mais, como era de prever, mesmo já com ordenação final, no após 25 de Abril!…
Tudo se saldou e bem num vasto desmoronamento daquele mundo secretamente artificial e falso, apesar da cândida brancura das sobrepelizes que ufanamente engalanavam os longos cortejos de seminaristas, no pio vaivém dominical, entre os claustros da velha Sé e o hermético seminário….
Percorrendo os professores, um a um, nenhum lhe suscitou a necessária vontade de despedida…
Por isso, o resto do dia passou-se na recomendada ida aos benfeitores, à Rua Camões, no seio da cidade.
A última noite que o corpo dormiu, não o espírito, ficou bem gravada por uma longa insónia que durou até ao alvorecer…
Deu para reviver todo o longo passado e alinhar todo o futuro que desejava, à luz de um assinalado desconhecimento da realidade cá de fora…
Por volta das 10 horas da manhã do dia 27 de Março de 1961, dava o 1º passo fora das altas portadas do seminário, com uma pesada mala de mão, rumo ao colégio de Ermesinde.
Um novo capítulo se iniciava na jovem vida do Quim Luís, frente a um vasto horizonte carregado de incertezas.
A ideia obssessiva de um dia vir a ser padre estava de todo afastada da sua vida.
Poder vir a constituir um lar, com uma mulher, sua; sem recalcamentos; mais os filhos que esta lhe daria, foi a luz que, de imediato, se acendeu, com luz própria e sem o freio das sombras ofuscantes… sonhos e sonhos começaram a fervilhar em catadupa… à mistura com o fantasma da tropa e guerra colonial…em Angola, onde já andava o primo Zeca e outros rapazes de Varziela, conhecidos…
Caminhos totalmente novos se abriam, em vez da via estreita, opressora e escorregadia que há tanto tempo vinha trilhando, dividido e confuso…
CAPÍTULO SEXTO
UM MUNDO NOVO
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Regresso ao Colégio de Ermesinde
Em Julho próximo iria fazer 20 anos.
Para trás, ficava a sensação de um longo e difícil percurso. Predominantemente, amargo. Só as lembranças da infância lhe são risonhas.
Libertação e incerteza são os sentimentos que lhe tomam o espírito, ao deixar a portaria pesada e sombria que esconde, lá ao fundo, o vetusto seminário da sé, naquela manhã de Março de 1961, a caminho do colégio de Ermesinde.
O plano é ambicioso. Ingressar o mais depressa possível na Universidade. Estranhamente, os longos estudos do seminário apenas têm equivalência na faculdade escolástica de Braga ou em Salamanca. Não, nas oficiais. As suas licenciaturas, porém, não têm o reconhecimento, para efeitos de carreira pública.
Braga exige um esforço financeiro totalmente incomportável e também não o atrai a ideia que tem acerca daquela faculdade.
Salamanca interessa, mas apresenta o obstáculo da licença militar indispensável para um mancebo de vinte anos.
O reitor do seminário não deu qualquer abertura ao hábil e subtil jeito que, sabia-se, oferecera a tantos outros:
- Participar a desistência à tropa, só depois de verificado o ingresso do “seminarista” na universidade de Salamanca. Fora o caso do Costeira, filho do dono da papelaria que abastecia o seminário; do Meireles; do Joaquim Teixeira da Refontoura; do Luís Soares e de tantos mais…
Mas, justiça se faça: abrira-lhe a possibilidade de se estabelecer gratuitamente no colégio de Ermesinde, onde fora o reitor na década de cinquenta.
Há que fazer o 5º e o 7º ano de letras, como o Vieira Pinto e o Bernardino Teixeira de Carvalho, já na próxima época liceal de Julho.
No colégio de Ermesinde, a recepção foi surpreendente. Estava tudo a postos. O padre Valente, sub-reitor, acolheu-o cordialmente e entregou-o ao padre Januário. Este levou-o ao seu quarto, airoso e bem iluminado, no último piso, esconso, do edifício novo. Um belo espaço moderno e bem pensado para um estudante. Beliche, secretária com estante, armário e casa de banho própria, tudo como convinha a quem só tem uma tarefa: estudar, como lhe fez questão de sublinhar aquele jovem e promissor presbítero, seu conhecido, também a dar os primeiros passos, após a ordenação, no seminário da Sé.
Todo o piso era ocupado pelos alunos internos, mais velhos, do 7º ano. Era o primeiro contacto com novos colegas, com horizontes bem diversos daqueles em que sempre vivera. Valores diferentes. Reacções bem diversas para as situações análogas do seu passado. Tudo constituia novidade e se traduzia em constantes revelações, surpreendentes. Uma coisa lhe parecia certa, ao cabo de poucos dias.
É que havia outras formas de viver e encarar as coisas, além da dimensão estreita e preconceituosa dos muros do seminário.
Aqueles dois jovens primos , filhos de gente ligada à vida diplomática, em terras da Venezuela, eram um exemplo de simplicidade, equilíbrio e total sentido de responsabilidade. Sem a ajuda de sermões ou as doses maciças de intimidação da espiritualidade escolástica…
O Zé Baldaia, irmão do ex-colega Joaquim Baldaia, todo virado para o culto da língua inglesa, que falava impecavelmente; o Zé Marinho, irmão do padre Marinho que queria seguir a força aérea; desinibidos e sem complexos de superioridade. Um pouco maliciosos, quando não regateavam, ao Quim Luís e ao Vieira Pinto, insidiosos convites para as suas já habituais rusgas de aventura, pelas ruelas do Porto.
- Agora já podeis olhar pr’as mulheres à vontade…
Estas palavras soavam-lhe estranhas, num primeiro momento, mas logo tomavam o lugar próprio, sem problemas.
E era verdade. Só que, mulheres eram um capítulo que iria ficar fechado, à espera da sua hora.
Foi o que muito respeitosamente disse, no seu primeiro encontro, a sós, e com bom acolhimento, com a sua apaixonada Rosita de Pedra Maria. Primeiro, o curso e depois se veria.
A vontade de avançar pela nova senda, acabada de abrir, sobrepunha-se a tudo. Chegar à universidade.
O curso a eleger ainda lhe aparece incerto, se bem que o apelo ia mais para o de Direito. Saber como funcionam as regras da sociedade atraía-o; resolver os casos da vida que, volta e meia, surgem exercia um certo fascínio, se bem que, no seu íntimo, não se sentia especialmente vocacionado para esse mundo. O das letras, sim. Literatura, linguística, história. Livros. Ver-se, um dia, numa grande biblioteca, uma sala cheia de livros, ao dispor, em estantes a revestir todas as paredes, uma secretária e uma boa fonte de música, tudo virado para um espaço, calmo, arborizado e verde, onde houvesse pássaros a rodopiar livres, no aconchego de um lar harmonioso, era o seu sonho.
Ser professor de liceu seria óptimo. Gostava de pensar na carreira do ensino e nas férias que se repetiam com frequência, suavizando, como suponha, a prisão e a monotonia que o trabalho acarreta à vida.
Cedo se apercebeu, porém, que teria de ter calma, confiança e saber esperar, quando, desesperadamente, teve de aguardar, em vão, pelo despacho que lhe indeferiu o adiamento de serviço militar.
Uma coisa era certa.
Pela primeira vez, sentia que a sua situação não passara despercebida e estava a ser ajudado naquele difícil momento.
Por ajuda do reitor da sé, voltara ao colégio de Ermesinde, onde 10 anos antes, tomou o caminho longo, de um sonho, que se foi desfazendo, a pouco e pouco.
Naquele espaço esplêndido e calmo, com vistas amplas, sobre os campos vastos da quinta da Formiga, para os lados da serra de Valongo, tinha todas as condições para avançar.
Toda a matéria de ciências respeitante ao 5º ano liceal, teria de ser recuperada dos escaninhos da memória, a par da mais recente e melhor assimilada relativa ao 7º ano, Literatura, Latim, História, Filosofia.
Apesar do curto espaço de tempo, não lhe parecia impossível tão audacioso empreendimento.
O destino, porém, sobrepôs-se-lhe, implacável e em contornos, difíceis de compreender:
Em 9 de Maio, o falecimento do pai Joaquim abalara-o, inesperado, e deixou-o completamente só…
Os horizontes da vida tornaram-se enegrecidos.
Mas, só aparentemente, porque mantinha-se preso à sua fé em Deus, providente.
O 7º ano ficou, automaticamente, em suspenso, por mais um ano. Em contrapartida, pensar no curso de direito tornou-se uma meta acessível, só para o ano seguinte.
Também, aprender o alemão indispensável àquele curso, seria tarefa aliciante e tornava-o a escolha mais provável.
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Primeiro trabalho
A passagem no 5º ano, com dispensa das orais, foi a confirmação e permitiu-lhe seguir optimista para as férias grandes, em Pedra Maria.
Agora, com novo estatuto.
Nesse ano, abriu, pela 1ª vez a Adega Cooperativa do Vinho Verde em Felgueiras, sob a direcção do conhecido coronel do Rabelo… Figura austera de militar reformado e o senhor da abastada casa fidalga do Rabelo, em Varziela.
Logo no dia seguinte, tinha o seu convite para lá trabalhar, durante as férias, nas tarefas do escritório.
Era uma boa notícia, acolhida e aceite como providencial.
À boa maneira da época, não se falou em ordenado. Mas, concerteza, seria compensador. Assim o pensou, dada a elevada consideração que lhe merecia aquela veneranda figura.
Desde a meninice, habituara-se a vê-lo cirandar, solitário, nos habituais passeios despreocupados, pelos bucólicos caminhos rurais de Varziela, com um largo guarda-sol preto, ou a cavaquear, de vez em quando, na oficina de alfaiate do pai Joaquim.
Aquele primeiro emprego foi levado muito a sério. Das 9 às 18 horas, de 2ª a 6ª, a registar e a creditar quantidades e as características vínicas, das uvas entregues por cada agricultor cooperante, durante a vindima do ano.
Mas, a possível escassez, de dinheiro em caixa, à partida, e, sobretudo, o enraizado mau hábito de os velhos senhores da região, instalados na ociosa fidalguia, pagarem mal ao trabalhador, explicam a insignificante receita que mereceu receber, estarrecido, das mãos semíticas do típico “fidalgo” , no final da época. À razão, pasme-se…. de 2$40/hora!
Um desapontamento… e a primeira lição, mestra. Ainda mais se sentiu impelido a querer subir a escada libertadora da universidade…
Também é certo, nunca mais, os caminhos daquelas duas vidas, em tudo antagónicas, se cruzaram, no espaço e no tempo. Paz à sua alma e até à eternidade…
& 3
Prefeito no Colégio Universal
Uma actividade poderia exercer, no próximo ano, ao mesmo tempo que prepararia o acesso à universidade, aprendendo a tal língua viva, por que sentia um certo apelo, foi a hipótese que lhe assomou ao espírito.
Se o pensou, melhor o fez. Passava pelo seu professor de hebraico, o tal Dr. Lopes Rodrigues, para si, uma das poucas figuras simpáticas que compunham o elenco de professores do seminário da Sé. Ele era um dos três directores do colégio Universal, à Avª da Boavista, bem no centro do Porto e que era mais um dos vários colégios da diocese.
Exclusivamente, entregue ao ensino liceal, bem pago, dos privilegiados que tinham a possibilidade de não querer frequentar um dos muitos liceus públicos existentes, na cidade ou porque não o existiam nas suas terras.
Embora o convívio pessoal com ele não tivesse passado de umas poucas perguntas ou chamadas na espinhosa aula de hebraico, que vinha frequentando no ano em que desistira, aquela veneranda e equilibrada personalidade, da primeira linha da igreja portucalense, recebeu-o afavelmente no seu gabinete do colégio da Boavista.
Ainda tinha presente a sua desistência no ano lectivo anterior. Em presença das condições expostas, a resposta afirmativa veio logo tranquilizar a sua forte expectativa. Faltava apenas o acordo, quase certo, dos seus dois pares.
No próximo ano, ingressaria como prefeito interno do colégio, com um horário de trabalho adequado, sem qualquer remuneração e com o direito a frequentar as aulas que quisesse, o alemão incluído, claro.
Quem desce a estreita, mas harmónica avenida da Boavista, rumo à Rotunda com o mesmo nome, onde as casas baixas, de dois ou três andares, revestidas a azulejo, uma das relíquias dos fins do século anterior, se sucedem ininterruptamente, ninguém faz ideia do que
está para trás das portadas do banal prédio com o nº e que ostenta, ainda, na frontaria um grande dístico de letras pretas a dizer “Grande Colégio Universal”.
O edifício correspondente àquelas paredes de três andares, com janelas de várias mansardas rendilhadas no telhado, era, de facto, ocupado pelos serviços da secretaria, onde imperava, desde os primórdios, o simpático, o senhor Rodrigues, irmão do reitor da Igreja da Lapa, o famoso maestro Luís Rodrigues, e os gabinetes residenciais dos três directores.
Mas, para lá dele, havia os espaçosos campos de futebol, andebol e de basquete e uma zona grande de recreio.
Modernos edifícios de cinco ou seis pisos, em betão armado, albergavam todas as salas de aula, salões de estudo e camaratas bem iluminadas.
Lateralmente, havia a cozinha e o grande refeitório, de um lado e um grande telheiro do outro, para os tempos de chuva. Tudo, à escala de uma população de alunos, internos e externos, na casa dos milhares.
A camarata dos alunos na casa dos 14/15 anos, - os do 2º ao 4º aos – ficou a seu cargo. Além disso, teria de “fazer” salões de estudo de alguns cursos, durante um calendário semanal determinado, inferior ao calendário normal atribuido à meia dúzia de outros prefeitos, esses, profissionais.
Cumpria-lhe assegurar as condições disciplinares para o necessário estudo e o acompanhamento dos alunos, nas eventuais dificuldades escolares.
Era a contrapartida da sua estadia, na dupla qualidade de prefeito-estudante.
A figura do prefeito constituiu um elemento sempre presente nos longos nove anos de seminário. Desde o longínquo colégio de Ermesinde, de Gaia e dois primeiros anos do seminário de Vilar, em pleno, até ao prefeito, circunscrito à manutenção disciplinar dos longos e soturnos corredores por onde se espalhavam todos os quartos residenciais, nos restantes anos.
Digamos que essa e a de professor era a profissão mais profusamente exemplificada na vida prática que se vivia no percurso seminarístico… Com todas as qualidades e defeitos. Sentia-se, pois, razoavelmente habilitado a exercê-la naquele contexto transitório, como instrumento de alcance do objectivo da altura.
E, assim aconteceu, de Outubro a Março seguinte.
A madura e enigmática professora de alemão era uma dos muitos judeus refugiados da alemanha nazi, que já tinha um domínio muito bom do português.
O hábito e a facilidade que tinha no latim e no grego, recheado de declinações e desinências verbais mais complexas que as do alemão, deu-lhe uma capacidade de aprendizagem tal que, ao cabo de cerca de um mês, a professora o considerou apto a transitar para a turma do 7º ano.
Traduzir, retroverter e vocabulário estavam assegurados. Não, a conversação.
Mas havia que recuperar as demais disciplinas referentes à alínea do cuso de direito.
Isso exigia tempo de estudo, no seu quarto, com mais disponibilidade.
O gorducho padre Alberto, que só ali conhecera, era o director encarregado da gestão e disciplina interna, com especial incidência, no relacionamento com os prefeitos.
Era originário de uma das freguesias rurais do concelho de Vila da Feira e fora, desde a ordenação, destacado para aquele colégio.
O exercício obssessivo dessa actividade absorvia-o, com visível sobreposição da sua especial condição de sacerdote.
O que ele fazia e como o fazia, qualquer leigo o poderia fazer, satisfazendo a visível sede de sucesso e de promoção pessoal. Os seus critérios de conduta, eram os de um vulgar empresário, dominado pelo lucro e pelo subir. O seu hoby era coleccionar livros antigos. De preferência, primeiras edições. Gostava de ostentar a sua abundante biblioteca guardada em ricos armários, de madeira exótica que lhe enchiam o gabinete. Dizia-se também que, na sua casa de lavrador abastado, numa aldeia da Feira, além de livros, fazia o culto de uma boa adega. Aí, a preferência ia para a invejável garrafeira das melhores colheitas de vinho do Porto. Tudo seria aceitável, se a origem destas extravagâncias não fosse o indivíduo que lhe estava por baixo, gerado nas abundâncias granjeadas no colégio, onde se confirmou como um requintado patrão, ditador, garante e cultivador da poupança, à custa da clientela escolar.
A pouco e pouco, a especial condição que fora prometida, no início da actividade, como prefeito-estudante, sem qualquer outra remuneração, para além da cama e mesa e frequência das aulas, foi sendo, por ele, esvasiada. A carga horária de trabalho, com as sucessivas alterações que, unilateralmente, introduzia a seu bel-prazer, aproximava-se da dos prefeitos melhor remunerados, o Sr. Conde, um veterano prefeito, dos lados da Régua, e o Sr. Baptista, mais novo, oriundo das bandas de Vila da Feira.
Para lá da vil exploração de que estava a ser vítima, os seus colegas testemunhavam-lhe isso mesmo, o tempo que lhe restava para estudar era muito escasso.
Deixar o colégio, tão depressa quanto possível, foi o seu desígnio.
Quando se viu habilitado a prosseguir, sozinho, a preparação do alemão, não teve qualquer pejo em dar o grito do ipiranga.
Só o professor da primária e também prefeito, o Horácio Nunes de Gouveia, um amigo de toda a confiança, originário de Tabuaço-Lamego, mais velho uns quinze ou vinte anos, o soube com a conveniente antecedência e lhe deu total apoio.
Procurou fazê-lo, numa manhã, em que o Dr. Lopes Rodrigues lá se encontrasse.
Já com a mala feita no quarto, dirigiu-se ao gabinete daquele director e expôs o que estava a acontecer. Este não estranhou minimamente.
- Muito bem. Vai com Deus… e força…
A primeira coisa que fez mal chegou a casa, foi dirigir uma carta ao padre Alberto.
Longa carta, assinada e bem identificada para que pudesse ripostar como entendesse…Revolta. Indignação. Censura. Factos concretos e um veemente apelo às mais elementares exigências do sacerdócio que ele abraçara.
Era plenamente justo e legítimo fazê-lo
Ficou para sempre sem resposta. Mas a lição deve ter-lhe ficado gravada para sempre…Oxalá que com algum proveito…
&.4
Quinta da Vera Cruz - Pegões
A resposta da irmã Delfina que vivia, desde o dia seguinte ao casamento, desafogada, com o marido, Juca, e o seu primeiro filho de cinco anitos, como encarregados na quinta de flores, em pleno Alentejo, nas terras de Pegões, ao pé de Vendas Novas, veio, logo, afirmativa.
Poderia avançar para lá, de imediato e de braços abertos e ali se preparar para a época de exames do sétimo ano.
Largos hectares de terreno retirados aos inóspitos montados de chaparros alentejanos, transformados num viçoso jardim, onde se cultivava flores de toda a espécie e plantas decorativas; eram um oásis maravilhoso erguido pelo tio do Juca, o Sr. Bento Pinto, um ricaço emigrante retornado das terras do Brasil, para onde fora no início do século à procura da fortuna, com exemplar sucesso.
As suas vistas largas fizeram dele um exemplar pioneiro na cultura das flores que seguiam para o mercado da Ribeira e grandes hotéis de Lisboa e mercado de Setúbal.
Grandes estufas, em construção firme e definitiva. Vastas leiras de cultura de flores, multivariadas, desde os cravos aos viçosos gladíolos, rosas e orquídeas, eram meticulosamente tratadas, de sol a sol, por uma numerosa equipa de trabalhadoras da terra, verão e inverno, num amanho que ia desde a sementeira ou plantio dos bolbos e sementes que vinham da Holanda e de outras paragens, segundo a mestria do patrão, autodidata brasileiro.
A água jorrava abundante de grossos canos galvanizados para volumosos tanques, saída de um furo arteziano profundo.
Quinta de Vera Cruz, assim se chamava aquele surpreendente espaço de viço, em terras secas que só parecia capazes de dar bolota e chaparos de cortiça.
Devidamente cercada de uma alta sebe verde, com mais de um km de comprimento ao longo da estrada nacional, entrava-se nela por uma rua térrea, fechada por portões de ferro ligados as duas casinhotas que serviam de expositores de flores e plantas, para quem passava na estrada.
Por ela, chegava-se às duas casas amplas e amarelas,de sabor arabesco, de R/chão e 1º andar, em tudo gémeas, encimadas por um terraço que as cobria a toda a largura, guarnecido por um murete, até à cintura de quem a ele acedia por uma escada de betão em socalcos, desde o nível das lojas.
Uma era dos patrões e a outra era ocupada pelos feitores, na altura, o Juca e a Delfina.
As lojas serviam de arrecadação e de oficina para o amanho delicado e final das perfumadas flores e verduras, antes de seguirem numa carrinha, de caixa fechada, para Lisboa ou Setúbal, na madrugada dos dias aprazados.
Completamente mobiladas e bem recheadas à maneira do Brasil, proporcionavam um magnífico bem estar, onde apetecia viver.
Só a solidão e a monotonia poderiam atacar a felicidade que ali se encontravam.
Melhores condições de estudo não poderia encontrar. O carinho da Delfina, logo traduzido na oferta de roupa e de um rico anel e de um fio de ouro, comprados ao ourives que por ali passava, de vez em quando, na sua motorizada; a traquinice do sobrinho Carlitos, tratado por todos como um príncipe, a companhia generosa e familiar do cunhado Juca para quem o tio servia de exemplo, de conduta e auto-estima, são lembrados com uma saudade que até chega a parecer que tudo foi um sonho.
No seu quarto, amplo e bem mobilado, passou horas a fio de estudo sem qualquer obstáculo; quantas vezes começava o dia subindo ao terraço, e nele permanecia a estudar literatura, história ou filosofia, desde o nascer do sol até que o calor o fizesse descer até à frescura do quarto.
As refeições abundantes, carinhosamente preparadas pela Delfina, numa ampla cozinha, cheia de luz, os banhos na água fresca nos grandes tanques de regadio, com o pequenito Carlitos; as idas ao lugarejo mais próximo, a uns sete Km, em Canha, onde havia algum comércio e um café, e onde passava o comboio, davam a sensação de uma vida comunitária de um emigrante bem sucedida.
Foi com muita tristeza que veio a receber, mais tarde, a notícia de que o Juca se despediu, por desavenças com o severo e intransigente tio Bento Pinto.
Quando chegou a altura dos exames, tudo decorreu no liceu mais próximo, em Setúbal.
Durante as provas escritas, ficou alojado em casa de uma família conhecida da Delfina e do Juca, uns logistas de flores no mercado de Setúbal, a uns 40 ou 50 km.
Tudo correu bem. O saldo foi a melhor média geral na pauta daquele ano. Quinze valores e meio. Com dispensa das provas orais. Apenas a filosofia ficou por fazer, por não se sentir seguro.
Fá-la-ia em Setembro seguinte, se não tivesse sido surprendido com a chamada, inadiável, para o seviço militar.
Estranhamente, para ingressar no curso de oficiais milicianos em Mafra, teve de socorrer-se das habilitações do seminário, cujo certificado teve de requerer.
CAPÍTULO SÉTIMO
A VIDA MILITAR
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No Convento de Mafra
Num dos primeiros dias de Agosto de 1962, munido da guia de marcha militar, tomou a carreira mais madrugadora do Cabanelas, às 6 da manhã, em Pedra Maria, pa ra ir apresentar-se, nesse dia, na longínqua vila de Mafra, sua conhecida, só das páginas escolares da história portuguesa.
Naquela manhã, uma vez mais, acompanhado pelas badaladas da torre de Pedra Maria, agora, em jeito de adeus, um dos seus filhos partia para a tenebrosa e imposta aventura militar.
O cortejo dos que tinham a mesma sorte foi engrossando, ao longo do caminho, longo, primeiro na tão familiar estação de São Bento. Depois, sempre que o ronceiro comboio correio parava em tudo quanto era sítio, até às paragens verdejantes da linha do Oeste, a partir da simpática estação de Alfarelos, com bela azuleijaria azul a revestir-lhe as paredes com cenas de vindimas e pomares da região.
O nervosismo que toldava todos ficava mascarado pela irrequietude e pelas irreverentes gargalhadas que se desprendiam, permissivas e sem controle, dominando as carruagens do comboio, como se já fossem as, ainda só, imaginadas casernas que os esperavam.
Encontrou alguns dos seus colegas de seminário, desistidos anos antes e nunca mais vistos: O Vítor, um óptimo hoquista, de Espinho; o Luís Barros, o José Ramos Canito, de Vila do Conde. Outros mais haveriam de aparecer já nas quentes paradas do religioso convento, convertido em quartel e escola de guerra.
O famigerado Tristão, por exemplo, lá apareceu, em fatídica surpresa, qual sombra sinistra e teimosa, escondido na larga farda cinzenta, onde sobrava muita fazenda. Só a comprida pála do barrete lhe acompanhava, até à ponta, em sintonia perfeita, o seu característico nariz rubicundo.
Tão furtivamente como apareceu, assim desandou, ao cabo de umas breves semanas da recruta, dura de roer…
Soube, através de outro ex-seminarista, o pachorrento, mas d`olho vivo, Bernardino Teixeira de Carvalho, que ele tinha dado baixa ao hospital e que, por artes mágicas, se livrou, definitivamente, da tropa, escassas semanas depois…Que inveja!…
…Bênçãos que caem e sempre hão-de cair, apenas, sobre certos telhados, sabe-se lá porquê… Talvez o diabo saiba…
Pode dizer-se que uma grossa turma de ex- seminaristas portucalenses lá estava transferida, agora, espalhada e bem tresmalhada, pelas muitas companhias do regimento, de velha “mauser” ao ombro, e fato zuarte, em vez do terço e da cândida sobrepeliz branca…
A pouco e pouco, já de noite, a longa fila dos noviços soldados-cadetes desfilava por um dos muitos infindáveis corredores do convento colossal, para ir desnudar-se, pela derradeira vez, à vista de todos os olhos surpresos, só para que dúvidas não restassem sobre a masculinidade genital, perante os clínicos anfitriões…
Era a primeira cena, simiesca, das muitas que haveriam de suceder, durante os anos seguintes, perante a máxima e confortante hilariedade, em que todos eram participantes.
Olhos surpresos? sim. Se é certo que quem vê caras não vê corações, também se confirmou, ali e doravante, que quem vê grandes e másculas corpulências não pode garantir-lhes correspondentes intumescências…Dir-se-ia até que a lei da natureza, sobre a masculinidade, se rege pela razão inversa dos tamanhos…numa linha de equilibradas compensações.
Ali se patenteava, aos olhos de todos, com toda a verdade, pelo menos, naqueles tempos, as grandes surpresas e os desencantos de tantas noites de núpcias…
O Sampaio, um castiço tripeiro, de cabelo alourado e espetado, numa cara sardenta e afilada, com olhos pequeninos e fundos, um inexcedível palrador e barraqueiro, desde a estação de S. Bento, bêbado de cerveja, que nem um cacho, ali estava a tentar pele 4ª ou 5ª vez, enfiar, perna a perna, nas largas calças da farda acabada de receber, com algumas idas ao chão, pelo meio, sem esboçar um sorriso.
Por acaso, foi parar ao mesmo pelotão da 2ª Companhia de Infantaria, comandada pelo mais garboso e convencido capitão, Óscar, de bivaque de altas proas na cabeça e de elegantes polainas pretas de couro preto, sempre a luzir, e à mesma caserna monacal.
Tal como o Mendonça, a quem a longa escola da boémia de Coimbra rapara todo os temores que nos enlaçam sempre, nestes primeiros contactos, em novos ambientes.
Totalmente ambientado, desde logo, se manifestou pronto a enfrentar e derreter, em gozo geral, os frequentes assomos da maluqueira militarice profissional.Parecia que estava ali para se divertir, à grande, com a requintada habilidade de um bobo na côrte.
Também quis a sorte que ele fosse parar ao mesmo pelotão, companhia e caserna.
A prová-lo, relembra um dos muitos episódios, que teve a sorte de presenciar. Seguia o Mendonça, a seu lado, magricelas, dentro do seu fato zuarte cinzento, esbordante no tamanho, por um dos muitos corredores que percorrem o interior do convento-quartel, do tamanho de altas e largas avenidas, com o braço engessado ao peito. Uns metros após terem passado por aquele superior hierárquico, imediato, o zelozo capitão, comandante de companhia, parou, estacado e dirigiu-se ao subordinado rastejante:
- o nosso cadete não cumpriu o dever de saudação ao seu comandante!…
A resposta brotou, pronta, do Mendonça, já em sentido:
- “ Saiba Vossa Senhoria, que não foi feita a bem merecida continência, por impossibilidade física, (só os olhos baixaram para o braço desditoso) mas volvi, respeitosamente, ao flanco…”
Desarmado e sem palavras, o comandante retomou, impertigado, a sua caminhada bem timbrada sobre o lajedo de mármore gasto pelo uso secular das multidões profanas que o convento continuava a albergar.
Só quando o vulto esguio do satisfeito superior se desvaneceu à distância, por entre outros militares, transeuntes, estoiraram, sem réplica, as gargalhadas, a muito custo retidas por ambos.
O seio hermético do mundo militar começava a revelar-se em catadupa, nas duras semanas que se seguiram, infindáveis.
Era um autêntico internato, movido a sonoros toques de cornetim. Cada um tinha o seu significado e, aos recém-soldados cadetes era-lhes vedado alegar desconhecimento.
Às seis da manhã, de verão e de inverno, o toque da alvorada obrigava-os a descerem lestres dos beliches de três, para o escutarem, em sentido, junto aos ferros das camas, ainda em traje de dormir.
As luzes acendiam-se, à 1ª nota do cornetim, e dentro de 20 minutos toda a caserna deveria estar arrumada, camas feitas, com a higiene pessoal e as sagradas botas pretas a reluzir, para que na 1ª inspecção do formar da companhia, o olhar de lince do capitão Óscar, não desfechasse um doloroso corte de dispensa, no final do dia.
Hoje, é inimaginável como tudo se conseguia.
O castiço Mendonça era sempre o último a chegar à parada, com os três pelotões e respectivos comandantes instrutores, à frente, alferes de carreira, de cada uma das três companhias, já bem perfiladas, de capacete e espingarda ao ombro, em posição de descanso.
Vinham depois os três imponentes capitâes postar-se à frente da sua companhia, recebendo a devida, continência, à voz de “ Ombro, arma”, erguida por cada um dos alferes.
Logo a seguir, era a vez de os capitães renderem continência da sua unidade ao comandante, ainda mais imponente, do Batalhão que o toque de cornetim, anunciava uns instantes antes.
Fazia-se a chamada por companhia; o comandante de batalhão fazia as advertências patriótico-militares, da ordem, e toda a mística estudada nos anais das ciências militares ia sendo transmitida aos futuros comandantes de pelotão nos teatros de guerra colonial que os aguardavam.
Vinha a seguir o pequeno almoço, nos amplos refeitórios do convento, depois da ordem de dispersar.
O próximo toque obrigava à formatura das companhias, perante os seus comandantes e, a partir daí, era a partida em marcha cadenciada pelo alferes, para a mata de castanheiros frondosos, a uns dois km. dali, no seio da vastidão da cerca mítica do convento de Mafra.
Ensarilhadas as armas, segundo a norma tradicional, começavam, em cada manhã, os exercícios de ginástica, desenvolvida numa corrida em círculo.
Ali, surgiu a 1ª experiência do esforço físico exigido, sem limites, pela imaginação e comando supremo do alferes do pelotão. As suas ordens eram indiscutíveis, até à exaustão.
O cansaço das primeiras semanas fez ver quão doces eram uns escassos minutos de intervalo, entre cada sessão. Nunca as folhas caídas dos castanheiros, à mistura com ouriços espinhosos, foram tão apetecidos colchões, secos ou molhados pela chuva, para um saboroso restauro de forças.
Quando chegava a hora do almoço, era o regresso, até aos imensos refeitórios, de mesas de mármore branco, em salas imponentes.
O feijão, o macarrão ou o arroz, acompanhado de gordurentos pedaços de carne de cabra, nunca foram tão saborosos…regados com um pequeno púcaro de vinho tinto carrascão, a granel, ou da água da caneca.
Ordem unida, instrução militar, e o esventrar das mil peças que formam a expedita e obsoleta espingarda Mauser, da bazooca e do morteiro, era o temas da 5 horas de aulas que preenchiam as tardes, sempre, algures, debaixo dos frondosos castanheiros, na mata de Mafra.
A religiosa manutenção da sua Mauser, os crosses semanais, de comprimento crescente, ao longo da estrada da Ericeira, até aos oito km, mais umas sessões de acção psico-pedagógica militar, ocupavam todo o período de recruta daqueles soldados-cadetes. Tratados abaixo de cão, pelas cadeias da hierarquia cinzentona, desde os simples cabos, sargentos ao distante e sisudo comandante do regimento, jamais seriam capazes de imaginar-se, volvidas umas breves semanas, como futuros oficiais milicianos.
O certo, porém, é que terminada a recruta, intensa na preparação física e mentalização militar, com uma semana de campo, nos montes escalvados das cercanias da Malveira, veio a chamada especialidade de atirarador de infantaria, que iria ser exercitada no fantasma da guerra de África. A preparação infindável, terminou nos rigorosos frios de inverno ventoso e chuvento de Mafra lamacenta. Quem por lá passou, bem o pode testemunhar. Mafra, nunca mais. Vê-la, nem de longe.
As guias de marcha para as férias de Natal, na casa de cada um, foram distribuidas em folgosa e frenética algazarra de caserna, companhia a companhia, depois da meticulosa entrega do material distribuido no início.
Nunca se roubou tanto, como nesses dias finais. Capacetes, bivaques, bornais, cinturões,
tudo corria perigo ameaçador, numa desconfiança sem excepções, a começar no colega mais próximo.
Com recurso a lojas especializadas, abastecidas sabe-se lá como, que prosperavam nas ruelas de Mafra, tudo acabava por dar certo, na hora final
CAPÍTULO OITAVO
OFICIAL E CAVALHEIRO
& 1
Passagem por Tomar
Após breves dias, não de férias, como era costume, naquele ambiente de Pedra Maria, mas de descanso e espera pela designação da Unidade Militar onde iria ser colocado, se o resultado do curso em Mafra (C.O.M.) tivesse sido positivo, a carta com insígnias militares chegou. Surpresa. Aprovado ou não? Quando e para onde iria. Ia vê-lo, de seguida, mal o carteiro, chegasse à sua beira, depois do toque de corneta habitual, lá ao fundo da estrada.
Regimento de Infantaria nº 15, em Tomar, como Aspirante a oficial.
Óptimo. Uma sensação de segurança o invadiu, à mistura com a satisfação natural do resultado.
Durante os próximos anos, haveria rendimentos certos, para si e para sustentar o irmão mais pequeno. Era preciso puxar por este, já que, andava arredio da escola primária. Onze anos e apenas na 3ª classe!…
A guerra de África, essa, até podia livrar-se de lá cair…quem sabe.
A guia de marcha, em 1ª classe de comboio até Tomar, para um dos dias primeiros de Janeiro, próximo, ali estava.
Cama e mesa e um ordenado limpo de 1.500$00 ao fim do mês… uma independência que nunca tinha sentido, até aí.
O futuro estava a começar…Mais cedo do que pensara. O curso superior tão desejado, ver-se-ia como, depois da tropa.
A notícia espalhou-se depressa por toda a família e lugar. Com alegria.
A meia dúzia de ex-colegas seminaristas das bandas de Felgueiras estava em férias de Natal. Já não era seu colega, mas a ligação era muito forte. Não sabia girar ali sem eles. Havia que lhes dar conhecimento.
Fariam muito gosto em saber.
Uma merenda em casa do Lemos, de Moure, ficou logo agendada como despedida.
O Sebastião Hernâni, os 2 irmãos Simões e o Lemos.
O vinho verde da adega dos pais do Lemos era uma maravilha. Estava ao dispor, como sempre. O presunto e o salpicão com broa, também…
Daquela vez, porém, era diferente.
Além da alegria geral acompanhada das habituais cantilenas mais atrevidas, na escala seminarística…(a da caserna, essa, eles, não conheciam nem faziam ideia) só se lembra de ser tirado,para casa, ao colo, a partir do Morris Mini do Hernâni…
O resto ficou para eles contarem. Era a primeira bebedeira da sua vida, a valer…
Chegou o dia da marcha. Vestido com farda cinzenta de cadete, de fino recorte, pôs os galões de aspirante nos ombros, que comprara, pelo sim, pelo não, em Mafra…. Uma fita dourada oblíqua sobre o fundo preto. Nem queria acreditar que já era um oficial como os seus instrutores de Mafra. Que iria fazer o mesmo que estes faziam, com os soldados recrutas. Vaidade e um sentimento de receio o invadia.
A mesma camioneta das 5 e meia da manhã para o comboio, em Paredes, até ao Porto. Daí até Santarém e depois no ramal de Abrantes.
QUARTEL DE TOMAR
Pela tarde desse dia, chegou pela 1ª vez a Tomar. Outros colegas conhecidos e desconhecidos de Mafra seguiam e desceram em Tomar. Uma camioneta militar aguardava-os, para transporte das malas.
Era o 1º quartel em que entrava, por direito próprio e com um estatuto superior.
A sentinela da porta de armas pôs-se e permaneceu em sentido enquanto os novos oficiais entravam.
Os aposentos dos oficiais e os corredores com um certo fausto abriam-se-lhes.
A sala de oficiais, a biblioteca e o refeitório, tudo ficou ao dispor.
O sentimento de dignidade que o envolvia recompensava todo o esforço que fizera nos 4 longos e duros meses de Mafra.
Sentia-se bem. Sem esperar, atingira, enfim, um ambiente condigno como desejara nos tempos de seminário. Aqui, só ao cabo de mais uns 4 anos viria a encontrá-lo, se encontrasse…
Além disso, o mundo militar, embora diferente e despido de moralidades, era
mais transparente e… são. Pão pão, queijo, queijo…As beatices e hipocrisias do seminário surgiam-lhe, agora, mais ridículas que nunca…
No entanto, este continuava a exercer uma influência perturbadora e permanente sobre ele. Como desejava não ser reconhecido como ex-seminarista.
E conseguiu-o, durante muito tempo, perante os colegas de pelotão em Mafra.
Só o Mendonça o sabia, porque era natural de Airães uma das muitas freguesias de Felgueiras. O seu pai era um conceituado médico da região…Os seus últimos anos de Coimbra foram de total quebra de relações com o rigoroso e preconceituoso pai, a censura parda das suas travessuras académicas e coimbrãs. Para sobreviver, teve de ir vender alfinetes e carrinhos de linha, nas feiras em redor de Coimbra, durante as férias.
Depressa reconheceu que a sua irreverência era só aparente. No fundo era um rapaz como outro qualquer. Com uma vantagem. Um óptimo colega, fixe e felgueirense.
Com uma habilidade excepcional para lidar com os duros militares…sem os enfrentar, mas dando-lhe sempre a volta, com êxito. Apesar de ser o protóptipo do que um militar não devia ser.
No dia seguinte à chegada, seguiu-se a cerimónia da recepção aos novos oficiais, pelo corpo de oficiais superiores, general à frente.
Sentia-se um senhor.
Os breves dias seguintes foram de organização e distribuição de tarefas, pelas várias companhias que iriam formar-se com os recrutas que haveriam de chegar.
Segunda companhia. Comandante do terceiro pelotão. Instrução de recruta. Ordem unida, preparação física, armamento e ética militar. Tudo constava de um programa perfeitamente definido e apoiado.
Dar instrução metia um certo medo. A primeira manhã começou com a preparação física, depois da apresentação própria ao pelotão. No fundo, estaria a repetir o que lhe fizeram em Mafra, numa escala de exigência muito maior.
Instrução física foi a 1ª aula que teve de dar naquela manhã gelada, como são as manhãs de Janeiro, em Tomar.
Com o pelotão, em passo de corrida, em círculo, iniciava-se a sequência de exercícios que constavam do programa estabelecido e que tinha de ser cumprido.
Primeiro, exercícios de pernas, depois de tronco e a seguir de braços.
A falta de experiência, porém, provocou o grande fiasco, de que nunca mais se haveria de esquecer.
Ao cabo de 20 minutos, estava esgotado todo o programa…
Repetir, nem pensar.
Tomado do embaraço que lhe parecia espelhado na cara, teve de dar ordem de destroçar ao pelotão e correr para a casa de banho, no bar de oficiais, quase em pânico. Afinal, sentia a responsabilidade a pesar-lhe e, ainda estava no começo…
Apetecia-lhe desaparecer.
Num esforço supremo de auto-controle, conseguido, não sabe como, pensou de si para si, :
“ se os outros conseguem, também hei-de conseguir…” levantou-se e veio ter com os camaradas que já tinham chegado à sala de oficiais, com a aula dada.
A semana passou-se a correr. Veio o 1º fim de semana. Deu para conhecer a cidade, pacata, de interior:
O centro, onde se encontrava todo o comércio e cafés; o rio Nabão, ainda com águas cristalinas; o largo e frondoso açude, onde laborava, em pleno, um moínho, aproveitando o escorrer das águas, em cataratas de espuma, para o leito fundo do estreito rio que, a seguir, se despedia da cidade, fluindo bucólico, rumo ao gordo Mondego; a igreja do convento de Cristo, lá no alto, a tal jóia do manuelino, com a sua rosácea enorme e a janela floreada, tudo ficou visto naquele fim de semana pelo grupo de novos oficiais, que se passeou à vista das gentes que os olhavam com visível veneração. As moças espreitavam, tímidas, atrás das cortinas.
Em Tomar, sem o quartel militar, morrer-se-ia de tédio…
Ao fim de duas semanas, com os passeios nocturnos, depois do jantar, já se começavam a sentir em casa. Estavam traçadas as perspectivas.
Com o combóio, à porta, Abrantes e Coimbra ficavam ao pé.
O voto de obediência forçada a que estavam sujeitos, porém, assim o não quis.
No início da 3ª semana a notícia espalhou-se com grata surpresa. Uma dezena dos novos aspirantes iriam partir para a Madeira e Açores. Faltava saber quem e para onde.
Começava a saborear os imprevistos e a reparar nas possibilidades que a vida militar é capaz de abrir. Nada que se comparasse à carreira anterior, a clerical, embora um tanto semelhante. Por isso, não lhe fora difícil a adaptação, ao contrário dos seus camaradas.
No dia seguinte, teriam de tomar o paquete Funchal, em Lisboa. Para a Madeira, uns; para os Açores, outros.
O B.I.19, no Funchal seria o seu próximo destino, soube-o em pleno jantar. Da boca do comandante da unidade.
Que sorte. Os Açores estavam a braços com o drama da erupção súbita do vulcão dos Capelinhos. Muito trabalho aguardava os camaradas destacados para lá.
Ilha da Madeira?! Nunca lhe passara pela cabeça aquela grata eventualidade. Duma penada, antes de ir para a guerra do ultramar, deixaria a terra firme e sulcaria as águas do oceano rumo a uma realidade desconhecida, embora nacional. Sabia apenas que era muito bonita. Mas, como se viveria lá, ou como seria a cidade do Funchal, não fazia a mais pequena ideia.
&.- 2
ILHA DA MADEIRA
Depois da viagem nocturna de comboio até Lisboa, Santa Apolónia, os felizardos tinham o paquete Funchal, na Rocha de Conde Óbidos, à espera. A saída seria às 12h.
Lisboa nunca lhe pareceu tão bonita. Parecia adivinhar o contentamento que o tomava, a si e seus camaradas, todos na casa dos 22/23 anos, coberta de um radioso dia de sol.
O Tejo imenso e azul à esquerda e o casario esbranquiçado da cidade mourisca, à direita, em escadinha, até aos cumes altaneiros do Castelo de São Jorge. O Terreiro do Paço, imponente, voltado para o além …- …Tejo, num abraço fraterno. O Cristo Rei lá em cima, a tocar as nuvens brancas do céu azulíneo. Tudo parecia associar-se à alegria que parecia envolver o mundo inteiro.
Largados do táxi que os levou até à beirinha do esbelto barco, todo de branco, ali ancorado, subiram, leves, a escada, de mala na mão, até ao portaló, onde os aguardavam, risonhos e garbosos, os oficiais da marinha mercante.
Mais parecia um sonho. Um verdadeiro palácio se franqueava, no seu ventre. Salas imponentes, de ricos riposteiros e muitos sofás harmoniosamente distribuidos pelo chão ricamente alcatifado, à volta de mesas de madeira luzente, com vasos de plantas viçosas; vários bares, recheados de uma profusão de garrafas, sobre as prateleiras de madeira lustrosa como o mel, copos em vidro refulgente. …
Longos corredores desaguavam em escadarias que davam para o imenso labirinto de fidalgas suites sobrepostas, nos diversos pisos que enchiam aquele enorme vaso, poisado nas águas mansas do Tejo, muito maior do que parecia, visto de fora.
Não tardou muito que um rugido cavo se fizesse ouvir, vindo lá das profundezas do bojo, seguido de um grosso e forte silvo de corneta, atirado para os ares.
O barco começou a baloiçar levemente e o cais a afastar-se dele, saudoso. Mais uns minutos e as gentes, buliçosas, já pareciam distantes e minúsculas, a afastar-se, mais e mais…
Lisboa, surgia deitada sobre as encostas suaves, ao longo das sete colinas, enquanto o paquete deslizava à tona das águas frescas do Tejo, como se fora uma larga avenida azul, à vista das margens ridentes de casario, à direita e altas escarpas amareladas de barro nú, à esquerda, em cortejo lento.
Mais um pouco e o oceano imenso aparecia à frente, sedutor, convidando-os para uma aventura, no segredo da suas ondas mansas, tecidas pela brisa branda, que vinha dos longes, da cortina de céu pendente do infinito.
Dentro, uma população de pessoas desconhecidas para conhecer.
O barco estava ao serviço das carreiras habituais de transporte marítimo, em trabalho e em recreio, para quem o preferia à rapidez e às alturas dos voos em aeronaves…
O almoço aguardava-os num faustoso refeitório, com largas janelas pintadas pelo azul natural do céu exterior, sempre renovado. Muitas mesas redondas, largas, cobertas de toalhas de brancura alvinitente. Ricos serviços de loiça e talheres prometiam uma cozinha deliciosa, nas breves horas que se iriam passar.
E foi verdade.
O almoço mais parecia um banquete de réis e princesas. Empregados vestidos a rigor, de elegantes fatos brancos, bem brunidos, giravam graciosos, por entre as mesas, deixando os pratos a fumegar diante dos olhos regalados, enquanto outros iam enchendo os copos finos de dourado vinho branco ou de fogoso tinto, puro.
O navio sulcava já o largo oceano e um ligeiro baloiçar fazia desaparecer das mesas, ora nesta, ora naquela, alguns dos comensais mais desafortunados.
Foi o caso do camarada Teixeira Lima, antigo colega, bexigoso, de Arouca e do pequeno Ribeiro Gonçalves, alentejano ratinho, das raias de Campo Maior. Ali seguiam com ele, na mesa dos que iam para o Funchal.
De repente, levantaram-se e desapareceram porta fora… antes que fosse tarde, disseram-no depois.
Felizardos os que aguentaram. Deles foi o reino dos … céus!
Ao jantar, já as coisas correram bem. Com todos à mesa, foi a desforra.
A tarde foi passada na amurada ampla, como largo terreiro, onde toda a gente ia aparecendo, curiosa e repetia os mesmos gestos de plenitude, perante o surpreendente deslumbramento da vastidão das águas, sob a abóboda azul. Predominavam os nórdicos, lácteos, de meia idade, sedentos de sol e, de vez em quando, flausinas pintalgadas, de olhar indiferente, aparentemente, distante e castigador. Estratégias…
O barco seguia no seu ritmo certo, de manso alazão, rasgando a mole ingente de águas profundas e um largo manto revolto de espuma ficava-lhe atrás, perdurando em rendilhados brancos, cada vez mais ténues, até se perderem, desfeitos, na ondulação esverdeada.
Algumas gaivotas acompanhavam-no, teimosas, talvez à procura dos peixes batidos ou estonteados pelo rodar potente da hélice…
Durante a tarde, cada um entregou-se, naturalmente, ao que mais preferia disfrutar. À noite, no jantar, já havia histórias desmedidas de aventura amorosa, na boca de alguns camaradas…difíceis de encaixar em tão curto pedaço de tempo.
Ao Quim Luís, nada disso interessava, para já. Sorver a frescura da brisa carregada de iodo que se desprendia daquele caldeirão refervente, em salpicos de espuma, olhar para os longes do mar infinito, imaginar o que iriam ser os próximos tempos nas imaginárias paragens da ilha bela e desconhecida, era tudo o que lhe perpassava por detrás dos olhos, a partir da amurada alta da nave baloiçante.
Só a meio do dia seguinte estariam defronte da ilha. Se tudo corresse bem.
Faltava pouco, pensando que a maior parte do tempo seria passado a dormir numa das suites de 1ª classe, reservada para os oficiais…
Antes, porém, de se irem deitar, ainda haveria o serão festivo e dançante, ao ritmo da orquestra especial de bordo, no amplo salão, iluminado por faustosos candelabros e lustres faiscantes de luz irizada.
Toda a gente que ali seguia irradiava satisfação, nos rostos, em troca gratuita de sorrisos, como se se conhecessem há muito tempo…
Foram poucos os que não deram o seu contributo de dança, tão descontraída, quanto possível, naqueles tempos. Sem saberem, estavam a despedir-se dos ventos ingénuos do romantismo…
Os Beatles endiabrados já tinham lançado os primeiros lagidos de revolução no seu imprevisto de sons e de ritmo.
As primeiras horas do 2º dia de viagem já eram passadas, quando o nobre salão ficou deserto e o barco, em silencioso baloiçar, conseguiu adormecer a miríade de hóspedes aconchegados no seu ventre...
Era um enxame de destinos desconhecidos e separados que seguia ali. Uma teia entrelaçada de sonhos. Sonhos a nascer, sonhos a crescer e sonhos a cumprir-se…
Antes de ir deitar-se, não resistiu à tentação de subir à proa do barco. Nunca vira coisa assim. Sublime e esmagadora solidão. Debruçado e cotovelos na grade húmida, apoiou a cara nas mãos em concha e caíu em êxtase, irresistível.
Aquela visão não lhe parecia deste mundo. Um espelho imenso resplandescente reflectia a chuva densa e transparente de um luar banhado de leite que caía de uma enorme bola, inesgotável, recortada no firmamento longínquo, profundo e escuro, salpicado de luzinhas trementes.
Apenas ouvia o borbulhar, lá em baixo, da água cortada pela quilha do barco que seguia afoito, logo abraçado por abundantes madeixas de espuma e a frescura da brisa a entrar pelas narinas.
Só a baforada de fumo negro que se desprendia da gorda chaminé, saliente da crista do navio e as pálidas janelas iluminadas da torre de comando, davam sinal de vida.
Para trás, ficava um imenso ermo coberto pelo mesmo manto diáfano e fosforescente.
Ficaria ali a noite inteira, inebriado, não fosse um súbito arrepio de frio que lhe percorreu a espinha da cabeça aos pés.
Em passos lentos, deixou o deslumbramento e dirigiu-se para o seu quarto nº 444. Fácil de fixar, ao meio do corredor, do lado esquerdo ( a bombordo, como se dizia na língua dos mares).
Acendeu a luz do quarto e ficou dentro de uma verdadeira suite, de hotel de 5 estrelas.
Estava saciado e certo de que o seu caminho passava por aquelas horas de encantamento.
A Madeira não lhe aconteceria, também, por mero acaso. Amanhã, já estaria a pisar de novo, terra.
Terra estreita, cercada de água por todos os lados, assim se aprendia na 4ª classe. Madeira, Porto Santo e Desertas, formam aquele arquipélago onde a gente se sente e é português.
Com todas as vastas possessões ultramarinas, espalhadas pelo mundo inteiro, recordou as horas passadas, com os colegas, vaidosos, diante do mapa, na escola primária.
No dia seguinte, ia sentir ao vivo essa experiência mítica. Depois, ainda viria certamente, a mesma sensação por terras de África. Oxalá, não. Naquelas circunstâncias. Não. Não queria pensar nisso. Cada dia, no seu dia…Era o lema de vida que elegera.
O roncar soturno que vinha da casa das máquinas até ao travesseiro fresco onde poisou a cabeça e o embalar suave e ritmado,do barco, para cima e para baixo, ajudou-o a desprender-se, feliz, daquele dia tão intenso de vivências.
&.3
Porto Santo ao longe…
Pouco depois de amanhecer, já corria que, mais um pouco e a ilha do Porto Santo se iria ver. A manhã estava transparente em todos os sentidos.
O bombordo era o lado preferido de todos os madrugadores. Com os olhos postos ao longe, já se sentia necessidade de ver terra firme para quebrar o primeiro e natural acesso de monotonia.
Um vulto mais escuro começou a divisar-se, longe, para a frente do barco, a estibordo, a sair, lentamente, da superfície imensa do mar.
Mais um pouco e um grande lagarto se estendia matreiro e preguiçoso, de areias refulgentes sob o dorso, mais o filhote soerguido, ali, ao pé.
Lentamente, foram ficando para trás, sem se esconderem de novo, curiosos. Cada vez mais pequenos.
Agora, era um grupo de vultos ponteagudos que iam avançando para o ar e crescendo em tamanho para os lados mais baixos, esverdeados, a descer em grandes rugas pedregosas, até à tona das águas, rendilhadas de brancura.
Com a ajuda de binóculos, tão na moda, pudemos antecipar a visão do que pouco depois se alcançava a olho nú. Encostas serranas, bravias e muito alcantiladas, vestidas de verde, a rigor, pareciam tapar qualquer hipótese de ser animado. Um ermo, como era quando a frota do Gonçalves Zarco lá chegou, séculos atrás.
Os primeiros barcos a motor, quais formigas brancas, atrevidas, surgiram no horizonte das águas, a dar-nos as boas-vindas e ficaram a rodopiar à volta, sem esforço e destemidos, até ao termo.
Um pouco mais adiante ia abrir-se o deslumbramento inesquecível.
Uma mancha salpicada de casas brancas e telhados vermelhos, disseminadas, sem regra, pelas encostas ao sabor da mais pequena reentrância natural da encosta, estendia-se cada vez mais densa, desafiando o alcantilado das serras; aqui e ali era o cocuruto de uma igreja que parecia desafiar as alturas da encosta, vigilante das bem contadas ovelhas do seu redil; veredas estreitas serpenteavam por entre aquele casario, orladas de mil flores refulgentes de cor; uma maviosa sinfonia de beleza perfumava e fascinava o nosso olhar boquiaberto.
Apetecia saltar sobre as ondas mansas e correr para aquele pedaço de terra escondido atrás do mar imenso e sem fim.
Não demorou muito e o barco, já habituado, entrava docemente num recanto pacato, que fazia de salão de visitas, duma cidade viva e gaiata, a estender-nos os braços acolhedores. Insensivelmente, dei comigo a apertar-me as carnes, procurando provar que tudo aquilo não era um sonho divinal.
O ar, fresco e rico entrava por nós dentro, inebriando-nos dos perfumes da terra, nunca antes saboreados.
O imenso quadro polícromo que se desdobrava diante de nós não podia ser mais harmonioso.
O fortim secular, altivo e muito bem colocado a meio da encosta foi o primeiro a arrrebatar os meus olhos. Fez-me imaginar as repetidas escaramuças com os visitantes predadores daquele éden, vindos das brumas das águas.
A torre da Sé erguia-se afável do seio do casario por ela abençoado.
As ruas cercadas de frondosas ramagens sulcavam toda aquela metrópole, misto de sabor ocidental e africano, buliçosa nas gentes e nos carros automóveis e, ainda, puxados a bois…
Uma vontade enorme de sair nos invadia e arrebatava. Tivemos de esperar desensofridos as formalidades da ordem.
De novo, um carro militar nos aguardava atento e nos trouxe, depressa, para o B.I.19, bem dentro da cidade.
Depois foi o primeiro contacto com as pessoas já habituadas à surpresa dos recém-chegados.
Em cada momento que passava, inflamava-se e acescentava o nosso contentamento, geral e irresistível.
&.-4
O Quartel do B.I.19
O carro militar que nos transportava, saíu da rua que contorna o porto e entrou no seio da cidade. A abundância de árvores e jardins, com sabor verdadeiramente tropical e a predominância abundante, de turistas nórdicos, refastelados pelos bancos públicos e nas amenas esplanadas, os grandes e festivos paquetes cor de rosa, de tamanho duplo do nosso Funchal, tornados verdadeiros hóteis flutuantes a bordo, encostados ao cais, foram as primeiras notas de que tínhamos chegado a uma terra, diferente, cheia de encanto, quase irreal.
Subimos por uma rua estreita, à esquerda e parou-se ao meio de muro elevado, bem rentinho àquela.
Um militar avançou da guarita e começou a mover a espingarda, que segurava diante de si, em jestos de braços e pernas, decididos e respeitosos. Uns 3 ou 4 vieram, de dentro, postar-se a seu lado, perfilados, também com a arma no ombro, altivos. O carro entrou pelo portão, para uma parada de aspecto sombrio e pardacento.
A primeira sensação foi de pobreza e acabrunhamento, perante as diversas entradas que davam para aquela parada, tosca, de terreiro de pedras negras e irregular.
A porta larga que dava para uma cozinha térrea, com cobertura a verem-se os caibros do telhado, enegrecido e gordurento pelo fumo que saía das bocas do fogão gigante e das panelas enormes, os tanques rudes de cimento, junto à parede, para lavagem de todas as loiças e talheres de alumíneo do batalhão, os cozinheiros e seus ajudantes, destacados, por missão ad hoc, com os barretes brancos sujos, nas cabeças e tamancos de madeira engordurada.
Um quadro sombrio que, na metrópole, nos faria remontar à idade média…
A adaptação pareceu-me impossível, mas estava muito enganado.
Outra porta dava para a oficina dos carros da tropa, em modelos antiquados, com muitos milhares de km a mais que os previstos na origem. Ferramentas ultrapassadas, com muito recurso a cordas e muito madeirame encardidos pelo óleo queimado. Outro quadro de oficina muito recuada nos tempos, já muito ultrapassados no continente.
E o lugar para instrução? Aquela parada seria necessáriamente pequena para um batalhão. Outra surpresa. Entrava-se por um túnel interior, coberto pelas instalações dos serviços administrativos, militares, salas de oficiais e sargentos, alguns gabinetes; descia-se para um primeiro terreiro interior, ao jeito do claustro conventual, que fora, outrora, cercado de uma beirada de telhado protector nas alturas de chuva, rara; desse terreiro, passava-se, sucessivamente, para mais dois, com a mesma configuração.
Era neles que toda a instrução militar dos vários pelotões se tinha de desenrolar, com muita improvisação.
Alguns soldados de aspecto um tanto desalinhado cirandavam por ali. Olharam-nos com um ar nublado de inesperada timidez.
Fomos levados para a sala de oficiais, depois de percorrermos um corredor e subirmos umas escadas em madeira já muito gasta e empenada.
Um pequeno bar, despretensioso, mas com uma óptima esplanada com vista sobre a encosta verde da cidade, servido por um magala mais aprumado. Umas mesas e cadeiras espalhadas. Revistas e jornais com atraso de alguns dias, ao dispor. O transporte do continente ainda era feito apenas pelas carreiras marítimas regulares.
O aeroporto era, ainda, um sonho ou um projecto em concurso. Lembro que as terras de Santa Catarina ou do Paúl da Serra eram as duas hipóteses em confronto.
Os camaradas mais antigos começaram a chegar e a meter conversa connosco. A maioria era madeirense e formada por ex-seminaristas do Funchal. Eram uns senhores, para o círculo apertado da cidade. Tinham gozado das bênçãos da venerada herarquia clerical; disfrutavam, agora, das não menores que a farda militar, ali, lhes oferecia.
Nós beneficiámos, logo, daquela honra acumulada. A nossa chegada até teve honras de notícia, com os nomes e categorias, nos jornais do dia seguinte.
Fomos chamados ao gabinete do Comandante do Batalhão, um coronel, já de idade madura, ali, habilmente, acoutado pelas hostes continentais, para cumprimentos de boas-vindas.
Foi agradável e cerimoniosa a recepção.
O alojamento tinha de ser custeado por nós, num dos quartos que as gentes do Funchal estavam habituadas a dispensar aos oficiais de passagem. O custo era reduzido, mas a nossa mesada era um suplemento que lhes sabia bem.
Eu, o Gomes e o Gonçalves fomos parar a casa de uma solteirona, solitária, com mais de 50 anos, de olhar matreiro… Só dormir e roupa lavada. Andava por lá um cinquentão, vigilante…
As portas estavam à nossa conta.
O almoço era por conta da tropa. O jantar era pago, com preços firmados, na hora, pelo antigo cozinheiro, de voz rouca, de um navio mercante. O que pagávamos constituía o bom engodo ara o manter ao seviço na cozinha.
Ainda hoje me lembro dos saborosos filetes de espada preta e de bifes de atum, como nunca mais provei.
Os primeiros dias foram para conhecer os bares, cafés, ruas e costumes da cidade, em uniforme militar, como convinha.
O café Apolo, com uma boa esplanada, ali juntinho à velha Sé, não podia ser mais acolhedor e melhor situado. Visita diária obrigatória para a nata do Funchal.
O Suny-Bar, na formosa avenida do mar.
A rua de Fernão Ornelas, a mais recheada de montras e de comércio, exótico, fervilhante.
O mercado dos lavradores, mercado municipal, pegado àquela artéria central, onde vinham desaguar as suculentas hortas do campo, em fruta tropical, flores e tudo o mais.
O terreiro, ladeado de uma protecção simples, em tubos de ferro forjado, saído da avenida do mar avançava uma centena de metros pelas águas do porto dentro. Era o festivo ponto de encontro de toda a gente, especialmente, no final da tarde e noite dentro. Ponto de mira para as longínquas desertas, erguidas sobre as águas azuis do oceano e, sobretudo, para a vista total da cidade que se estendia mansamente, pelas encostas íngremes da serra, exposta num abraço largo, de beleza surpreendente.
Para as pessoas do Funchal, um passeio descontraído por estes recantos, à mistura com os turistas sempre renovados, sobretudo, pelos regulares paquetes nórdicos, era uma necessidade diária e embriagante.
O liceu, as escolas particulares e uma superior de música refrescavam, de juventude, de costumes ainda bem controlados, toda a vida da cidade.
Os carros turísticos de bois, engalanados como os seus boieiros e ajudantas, com as cores garridas das vestes típicas, iam semeando de aromas odorosos, bem tolerados, as lajes escuras das artérias principais.
Os jardins recheados de árvores tropicais e abundantes flores exóticas.
O de Santa Catarina, de vegetação luxuriante e labiríntica, lá ao cimo da avenida do Infante, sobranceiro ao porto e à cidade, a dar saída para a Câmara de Lobos, o centro piscatório mais próximo; o da Senhora da Esperança, de vegetação densa e cheio de chafarizes a irradiar frescura, mesmo no coração do Funchal.
As duas ribeiras íngremes a escorrer da serra, cobertas por um manto de verdura e flores constantes, cortando as ruas da cidade, até ao mar.
As bordadeiras coloridas, a laborar em bancos pequenos, em plena rua, à vista curiosa de quem passava.
As esquinas da Sé e da fortaleza central eram embelezadas pelas vendedoras de formosas orquídeas, tecidas pela mão da natureza, em veludo natural, desenhadas em linhas de traço impecável.
O Funchal era uma festa rija e permanente.
O trato das gentes era doce e afável, mas envolvido numa subtil resignação, oculta e insular. Tal como a musicalidade da sua voz e o falar entoado e castiço. Difícil de entender, nos primeiros tempos.
&.-5
O BATALHÃO DE INFANTARIA
Era ali que ia iniciar-se, verdadeiramente, a primeira fase preparatória da missão que nos esperaria em África. Pelo menos à maioria anónima dos aspirantes. Sim, porque havia por ali nomes sonantes de filhos-família, como Spínolas, Vale Guimarães, Sommer de Andrade e outros mais. Apenas estavam a marcar a presença. Eram o contributo das ocultas famílias poderosas…
A sua missão no ultramar não passaria das águas azuis da Madeira ou Açores…
O capitão Câmara de Freitas, estou a vê-lo, um austero militar de carreira, com um bigode retorcido de republicano, bem estendido, entre a boca tapada e um nariz aguçado, em rosto moreno, de olhar fundo, mas doce, já maduro, a recompor-se, na sua terra, da primeira missão de guerra no ultramar. Era o comandante da minha companhia de recrutas madeirenses.
Havia outra companhia, chefiada por um capitão madeirense, este, miliciano. O capitão Pestana.
Aqueles vinham preparar-se, ali, para o esforço de guerra que estava a ser pedido ao país.
Depois da recruta, receberiam a especialidade e iam juntar-se aos que se encontravam nas frentes da guerra.
O meu pelotão era, mais uma vez,o segundo da companhia.
Na primeira semana, ficaram assentes todas as regras de conduta. A maior responsbilidade e uma total confiança na nossa capacidade de chefia.
Esta forma de nos considerar vinha ao encontro da maioria de todos nós e isso fazia-nos assumir as nossas responsabilidades de forma inteira.
O plano de instrução da companhia era discutido e acompanhado com o comandante, semana a semana.
O dia começava com uma hora de instrução física. Havia que puxar por aqueles corpos em estado bruto, cheios de força descontrolada, oriunda da enxada, nas vertentes alcantiladas, sabiamente aproveitadas para a recolha do sustento da família.
Ordem unida, intensa, com as velhas espingardas mauser sobradas da última grande guerra de 14/18.
Ética militar e cívica e noções de primeiros socorros.
Estas eram as que mais se assemelhavam à minha maneira deser, detal modo que o matreiro e raiano Gonçalves, avesso às teorias, me pedia para juntar o seu pelotão ao meu.
Durante uma hora extravasava, sem esforço, a minha tendência natural e desenvolvida no seminário, para as prédicas de sabor moralista.
Não era por acaso que, de cima da amurada da sala de oficiais, os mais antigos, se entretinham a assistir, como quem não quer a coisa…e eu, também, disfarçadamente, não resistia a picar-lhes as consciências distraídas…
Um mundo novo e surpreendente se abriu, mais cedo do que pensava, para quem pensava que, com o serviço militar obrigatório, iria interromper a sua carreira .
Cumpria-se o ditado popular de que Deus escreve direito por linhas tortas…
As marchas pelas ruas da cidade, nas deslocações do pelotão para a carreira militar, lá no alto de São Martinho, ou para a indispensável instrução nocturna, na verdejante serra do Monte, eram a gostosa evasão e o complemento necessário para o esforço físico dispendido.
Mente sã em corpo são, era agora a realidade da minha vida. No seminário, apenas se cuidava da sanidade da mente… muito pouco da do corpo.
Os resultados não demoravam a aparecer no desenvolvimento harmonioso e visível dos recrutas sequiosos e dedicados.
&.-6
A Boémia do Funchal
Não se sabia que tempo iríamos ficar no Funchal.
Com o passar dos dias, às vezes,( tão bem me sentia) dava comigo a sonhar que, com um golpe de sorte, como o que tivéramos em estar ali, até poderíamos nem ir ao ultramar.
Para a arraia miúda, eram meros devaneios que, depressa se esfumavam…
A realidade, porém, era que, gratuitamente, ali tínhamos ido parar e estávamos na Madeira. Sabíamos bem que aquele recanto, escondido pelas ondas do mar, apenas, estava ao alcance dos mais endinheirados. Bastava olhar em redor.
A amenidade do clima estava à vista. Saídos de Tomar, coberta pelo gelo de Janeiro, mal chegámos ao Funchal, podíamos deliciar-nos com saborosos banhos de mar,na piscina, no Lido, ali ao pé, ou então nas águas do Porto Moniz, como se estivéssemos a sorver o iodo de São Pedro de Muel ou as cálidas águas do Algarve, em Agosto.
As roupas de inverno voltaram, de novo, para a mala. Só a camisa e uns calções, se quiséssemos.
A farda, porém, dava jeito… para vaguear pelas ruelas asseadas do Funchal.
Os três aspirantes da companhia do capitão Câmara tornaram-se uma parelha inseparável.
O Vale Guimarães e afins, esses, tinham um bruto WolksWagen às ordens e voavam noutras núvens…
Às 5 e meia da tarde, acabava o dia de instrução e clausura na masmorra do B.I.19.
Um duche rápido na casa da Mariquinhas da Ribeira e em dois passos, estávamos, estrategicamente, na esplanada do Apolo, a beber um sumo de maracujá, à espera do remansoso desfile, sempre variado.
Com os tempos, a farda permitia-nos entrar nos gordos paquetes que encostavam bem recheados ao porto.
É preciso um grande esforço para reviver tudo aquilo, sem pensar que tudo não passa de um sonho de maravilha…
Mas assim aconteceu.
Cada recanto, por mais recôndito, escondia uma surpresa florida. Os ronceiros mas frequentes horários ( assim se chamava aos autocarros da cidade) com a bonita modalidade de preços, nunca pensada no continente, a descida custava metade da subida( da metade quando se descia), tornou-nos acessível palmilhar todos os arredores.
Do coração do Funchal à Senhora do Monte, ao Pico dos Barcelos, lá em cima, quase sempre envoltos em núvens leves ou à praia buliçosa da Câmara de Lobos…
Para ir ao campo distante, não demorou muito e tínhamos feito amizade com rapaziada autóctone. Uma carrinha Morris-mini, então na berra, do Fernando do Campanário, foi a nave dos nossos passeios:
As alturas do Cabo Girão, os alvores do Paúl da Serra, os furados ( túneis) escuros de São Vicente para o Porto Moniz, o Curral das Freiras, a frescura da Serra d`Água, Santana florida, e sei lá, tudo foi batido em exploração estonteante. Acompanhada de saborosas espetadas regadas a vinho, do puro, da Madeira…
Saciada a curiosidade de conhecer aqueles 800 km de terra, feita, verdadeiro jardim e bosque paradisíaco, erguido no meio do mar azul e omnipresente, como o sol, dedicámos a maior parte do nossos tempo aos regalos da cidade.
Sem dar conta, estávamos assimilados pelas gentes afáveis e saudavelmente resignadas com a sua sorte. O continente éra-lhes um mito de que muito gostavam de ouvir falar. O barbeiro, madurão e todo careca, ali ao pé da Gonçalves Zarco contava-me deleitado as excursões ao Bom Jesus do Monte em Braga, ao majestoso Gerês e ao Buçaco, a Fátima, ganhas, naqueles 6 m2, à custa da tesoura e da navalha …
A maioria, porém, contentava-se em sonhar com uma certa inveja de nós…
A pressão do cerco do mar era uma realidade geral.
O tripeiro Gomes e o raiano Gonçalves eram já uns vividos boémios, aquele das ruelas da ribeira do Porto, este do Bairro Alto e da Madragoa, em Lisboa…
Tinham sido interrompidos nos seus empregos pelo serviço militar. O Gomes estudava matemáticas na universidade do Porto, nas horas vagas do trabalho adequado; o Gonçalves era funcionário efectivo na Previdência. Estava cansado de estudar.
Eu estava a dar os primeiros passos, de liberdade condicional. Não, não estive no presídio penal.
Acabava, sim, de me evadir do cárcere, nas masmorras do seminário de Vilar e da Sé, no Porto, diabolicamente, farisaicos…
Uma vontade telúrica de enterrar aquele pesadelo e tapá-lo, bem fundo, com um curso superior, se possível, em Direito. Não sei porquê.
Ânsia de libertação, talvez…
Para isso, sentia uma necessidade natural de conhecer as intrincadas regras da sociedade política e administrativa.
Por esse motivo, fui sempre capaz de dizer não aos repetidos aliciamentos que aquela leal parelha me disparava, volta e meia.
&.- 7
Golpe traiçoeiro de Cupido
A esplanada do Café Apolo, à tardinha, frente à entrada da Sé, voltada sobre a rua que desce até ao mar, abrigada do sol da tarde e perfumada pelas frondosas copas de árvores tropicais, com aromáticos sumos de maracujá a refrescar aas mesas, podia muito bem ser um dos mais bonitos recantos do paraíso.
Ali, a força sedutora das bonitas e devotas raparigas do Funchal atingia o seu máximo, quer ao sairem do átrio da catedral, mesmo em frente, quer ao descerem aquela rampinha edénica.
Naquela tarde, tudo aconteceu, súbito. Era a força do destino ou fosse lá o que fosse, como que a cumprir-se, diante de mim.
Uns olhos vivos e doces, iluminando o rosto moreno e bem formoso, de uma das duas moças da mesa, além, cravaram-se em mim, inflamados por um sorriso tão intenso quanto discreto.
Senti-me tomado por uma autêntica visão. Como se estivesse a encontrar alguém que há tanto procurava…
Fiquei totalmente aprisionado. Levantaram-se e caminharam as duas para os lados da Fernão Ornelas.
Leve como uma andorinha, alta, esguia e graciosa como uma garça, de cabelos pretos a escorrer, compridos e sedosos, sobre os ombros, ao longo de um pescoço bem dimensionado para a estatura de um corpo elegante, desapareceu na esquina da Sé, dirigindo-me, natural, um último sorriso faiscante e aturado, de simpatia.
O meu coração batia no peito, desenfreado, como nunca.
Num instante, o pensamento percorreu, vertiginoso, todos os escaninhos da minha alma.
Tudo, em mim, gritava que aquela poderia ser a tal estrela…a que faltava ao sonho inebriante que eu estava a viver na Ilha da Madeira, sem contar.
Aturdido, levantei-me e fui no seu encalço.
O tempo que demorei foi o bastante para que ambas viessem, já, no seu Fiat 600, cor de café com leite, lentamente, da Fernão Ornelas para a Avenida que vai dar à do Infante.
E, agora, quem será ela?…Como a encontrar?…
Tirei a matrícula.
O Funchal era pequeno e os automóveis não eram muitos.
No dia seguinte, a divisão policial do trânsito estava a dar-me a morada do dono. Rua Engº Oudinot… Tudo batia certo.
O telefone fez o resto.
Tão certa como eu, já estava à espera do meu telefonema. A voz bem feminina condizia com o olhar e toda a minha visão de sonho…
Não havia tempo a perder.
- Naquele dia, às 5 da tarde, ao fim da Fernão Ornelas sobre a ribeira, frente ao mercado.
& 8
O Encontro Fatal
Puz o fato de ver a Deus, o único, cinzento, feito com todo o esmero pelo tio Zé Maria, logo a seguir à saída do seminário, óculos escuros e uma rica gravata encarnada, discreta, sobre camisa azul, impecável. Tomei a Fernão Ornelas, junto à Sé e fui andando, ansioso, até ao ponto combinado.
Muita gente ia e vinha nos passeios, dos dois lados ou estava parada, diante das montras abundantes das lojas de comércio, com as últimas novidades, vindas do continente ou das Ilhas Canárias, ali ao pé; as vendedoras de flores e as bordadeiras do costume, aqui e ali, enfeitavam, viçosas, o ambiente, sempre festivo.
Um belo dia de sol e ameno fazia jus de envolver aquele momento das duas vidas que se iriam encontrar.
O mesmo rosto gracioso de ontem ali vinha, saliente, no meio do cortejo de pessoas que passavam a ponte da ribeira, tapada por uma colcha ridente de verdura e sempre florida.
Uma figura de vestido preto, a envolver um corpo perfeito, de linhas harmoniosas, em passos leves sobre sapatos de salto alto, encaminha-se, lenta mas decidida, para mim, como se já nos conhecêssemos, há muito.
O sorriso era terno e transparente. Todo voltado para mim, numa entrega total, sem artifícios.
Os nossos olhos, discretamente, percorrem-se um ao outro, como que a tomar posse do que, havia muito, lhes pertencia, sem se conhecerem.
Agora, tinha-a, ali, ao meu pé. Era a confirmação de tudo o que no dia anterior se desvendara, em encontro súbito.
Rosto oval vestido de pele sedosa e ligeiramente morena; cabelo, naturalmente escuro dava-lhe laivos de indiana; olhos muito bem emoldurados por sobrancelhas negras, bem desenhadas, espreitavam, vivos, ao meio de uma cortina de leves sobrancelhas, levantadas em arco de amendoa; o sorriso reluzia em flor desabrochada, a exalar um perfume de simpatia abundante; o tronco era robusto e bem dimensionado, sem perder o charme feminino; um ventre totalmente maternal e atraente; umas pernas altas e bem torneadas; a voz, doce e quente como os seus braços.
Era uma flor tão bela como as orquídeas da Madeira que se me oferecia, como eu a ela, sem reservas e confiante, como prenda da minha vida, vivida até ali, em corrida esforçada e triunfal.
Tomámos o cortejo anónimo da Fenão Ornelas e viemos, em êxtase, sem falar, até ao centro do Funchal.
Fomos sentar-nos na mesma esplanada do café Apolo.
Todo o mundo em redor se apagou. Só nós é que contávamos, absorvidos, em fascínio de sonho.
As perguntas saíam de vez em quando, mas eram desnecessárias. O olhar falava por nós.
O tempo voou… A noite veio mais depressa do que queríamos.
- Luís, tenho de ir para casa.
- É pena, respondi…
De novo, pela Fernão Ornelas, agora vestida de noite, luminosa. Nunca fora tão curta, nos seus 500 metros bem medidos…
- Amanhã, aqui, à mesma hora.
Um sorriso quente e largo de lua cheia e um aperto de mão bem apertado selou aquele primeiro compromisso.
& 9
Voando nas Núvens
Um novo mundo começou a desvendar-se, surpreendente, como nunca.
Chegara a hora de amar e de ser amado por uma mulher, numa descoberta constante, nos momentos, tão furtivos, que sobravam da vida do quartel.
Pela primeira vez, sentia-me a entrar na dimensão da vida que o seminário me negava.
Em vez do enlevo da consagração ao amor místico de Jesus, era a realidade concreta de duas pessoas que se iam comungando a mesma vida, até à união total…
União que tornava cada vez mais difícil a separação e reclamava a presença física um do outro.
Por isso, todo o tempo a partir das 5 horas da tarde de cada dia, durante a semana e os fins de semana eram, sôfregamente, partilhados.
Não houve recanto, rua ou passeio de jardim do Funchal que não tivesse sido palmilhado por nós, num diálogo inesgotável, mesmo quando os lábios se calavam.
Pela primeira vez, era a realidade feminina que eu imaginava e sonhava, distante, que se me abria, momento a momento, como doce complemento do meu ser.
Parecia termos encontrado em cada um, toda a riqueza do mundo que nos faltava.
A sintonia do pensar e do querer era total.
O primeiro mês tinha-me transfigurado.
O Gonçalves deu conta disso e confessou-mo:
- Eh, Gomes, estás completamente mudado, para melhor.
Os meus receios e complexos desapareceram, por encanto. Eu era completamente eu, em toda a parte. Toda a vivacidade, abafada em mim, despontou natural, reateando-se com o que eu era desde a minha infância.
Ao fim de um mês, veio a apresentação à família.
Uma família bem cotada na cidade, dona da melhor oficina de automóveis da ilha, no Funchal. Os pais e mais três irmãos. Uma irmã, mais velha. Vários tios e primos.
A formação, porém, era simples, tal como a da …, quase a roçar o primário.
Esta foi a primeira névoa a ensombrar o idílio…
Ela tinha apenas a 4ª classe, por não querer estudar mais.
Podia muito bem acontecer que aquela falha fosse compensada por tudo o resto.
As semanas sucederam-se, em constante observação.
& 10
A Descida à Realidade
As nuvens fragrantes do primeiro entusiasmo, natural, foram-se dissipando, lentamente, deixando ver mais claro os recortes reais de cada um.
Para lá do encanto pessoal que os olhos liam, silêncios e saltos escuros, foram quebrando, dissonantes, a melodia que envolvia o nosso viver.
A dúvida e insatisfação começaram em luta com as expectativas já criadas; a percepção de que um forte instinto de libertação do cerco insular ampliava, em muito, todo o fascínio demonstrado, foram minando, no dia a dia, as bases do sonho já construído.
De súbito, veio a ordem de regresso ao continente.
Para Évora, RI16, em dia certo daquele mês de Abril.
Ali, formar-se-ia um batalhão para o Ultramar.
Apesar das mil promessas, a separação tornou-se inevitável.
A nossa tenra relação passou a assentar na correspondência escrita e um telefonema, de vez em quando..
CAPÍTULO NONO
DE ÉVORA PARA A GUINÉ,
& 1
SORTE OU DESTINO?
As últimas semanas de Évora redobraram em esforço e penar quando se soube o destino que nos calhara.
Das três hipóteses, a Guiné era, à partida e em abstracto, a mais receada por toda a gente. Pior clima, risco muito maior, segundo se dizia. Além disso, a Guiné só tinha uma cidade que merecesse sê-lo.
O resto era mata e campos de arroz.
O fascínio de Angola e Moçambique compensava, um pouco, o que de mau pudesse esperar-se. Tantos continuavam a escolher aquelas paragens para viver. Depois, os testemunhos, directos e de portas travessas, abonavam uma passagem por lá, apesar dos riscos.
A grandeza de África, nos rios e matas, nas montanhas e na riqueza natural, a vida selvagem, a variedade da população nativa emprestavam um apelo forte àquela sorte.
E as muitas cidades, erguidas à boa maneira africana, como réplicas de cidades da metrópole lusíada!…
Na Guiné, só a beleza natural e étnica prometiam lenitivo para a tormenta certa.
& 2
R. I. 16 - ÉVORA
De novo, uns dias de descanso em terras de Pedra Maria, à espera do embarque.
Em dia certo de Agosto, teríamos de regressar ao quartel de Évora. A partida para o barco, no cais de Alcântara, far-se-ia de lá, em comboio especial.
Unidos pela sorte comum, estávamos condenados a ser bons camaradas e, de preferência, melhores amigos.
Era a guerra, imaginada em pesadelos, que nos esperava nas matas tenebrosas da Guiné.
A experiência viva da instrução militar, nos montes e caminhos perdidos no vasto Alentejo não deixava espaço para grandes esperanças, numa luta de guerrilha traiçoeira.
- Seja o que Deus quiser, pensava eu e poucos mais.
A maioria dos soldados eram alentejanos, para quem Deus nada dizia. Para eles, era a sorte e esta, o destino de cada um. E qual seria?…
A cerveja, essa, haveria de ajudar a passar o tempo. O resto se veria.
Uma coisa parecia certa e não querida. Aquele batalhão tinha à frente de cada uma das três companhias de infantaria um dos três mais temíveis oficiais, nunca antes saídos da Academia Militar. Chamavam-lhe os Três Mosqueteiros.
O tenente Varão, o mais bravo, era comandante da minha companhia, a 728.
Na semana de Évora que antecedeu a incorporação dos recrutas no R.I.16, a dúzia de aspirantes milicianos, os designados comandantes de pelotão do batalhão que iria formar-se com destino para o ultramar, foi um joguete nas mãos daqueles figurões.
Na preparação física, o tenente Pinto pôde demonstrar, à saciedade, todo o capital acumulado de recordes, em flexões de braços e pernas, abdominais, saltos, corridas e demais proezas e de toda a panóplia muscular, religiosamente esquartejada nas longas horas académicas.
Para além da ufana exibição de resultados através das linhas do seu físico escultural…
Na preparação ético-militar, era o tenente Varão quem dava cartas.
De porte garboso, longos braços e pernas, bamboleantes, gerindo muito bem a sua estatura, excepcionalmente elevada, bastante acima da nossa média, cultivava, sem esforço, uma eloquência fácil, onde procurava realçar uma escrupulosa propriedade de termos, em discurso que procurava ser demonstrativo da grande cultura geral que lhe atribuiam.
Rosto, oval e afilado por um nariz comprido e adunco; olhos mortiços, embora aquilinos; boca em forma de y, sugerindo a de um tenro golfinho; cabelo claro, curto e hirsuto, mas obrigado a formar madeixa ao lado; tez pálida e tristonha, onde o sorriso nunca se abria; apenas se esboçava.
Parecia querer incarnar, em si, o protótipo do verdadeiro militar, na decisão, na autoconfiança, na disciplina e na valentia. Pronto a subir até ao generalato.
Iríamos ser um chicote impacável, nas suas mãos, em terras de África.
O outro, o tenente Cavaleiro parecia ser o mais normal e aproximado do padrão miliciano. Mais dialogante e menos castrense. ( Só este viria a chegar a general…)
Toda a experiência de instrutores, desenvolvida nos vários quartéis, como simples aspirantes, ia ser posta à prova em proveito próprio.
Tratava-se de preparar o pelotão que ia ser levado até às matas da guerra.
A seriedade e densidade da aprendizagem que, pelos seus 4 aspirantes teria de ser incutida aos soldados da companhia, teve no comandante Varão, um incansável e obssessivo mentor.
A distância entre ele e os seus aspirantes e sargentos estava fora de dúvidas.
Relacionamento, só em serviço e de serviço…e muito respeitinho pelos elos da hierarquia…
Os montes secos e tórridos do Alentejo, de Maio a Agosto, ajudaram a causticar a modelação pretendida.
A única saída residiu no espírito de corpo que se desenvolveu, apesar de tudo, entre os 4 oficiais milicianos e respectivos sargentos da 728.
O Mário Sasso, um moçambicano ( da Beira) radicado há uns bons anos, em Lisboa, na boémia e no fado alfacinha, era o comandante do 1º pelotão.
Tinha feito um bom curso em Mafra e, por feitio, tinha de ser o melhor em tudo. Brioso, procurava ter uma conduta semelhante à figura. Quis ingressar nos comandos, mas o coração não lhe aguentaria o esforço.
Versátil e sensível, tocava viola e acordeão e cantava o fado castiço, ajudado por uma voz rouca, mas afinada. Era o mais citadino dos 4.
O Arlindo Santos, bairradino de origem, aparentado ao famoso José Cid, então na berra, era de feitio fleumático, calado e observador. Bom conversador, quando se dispunha a isso, embora limitado e concentrado numa temática, balizada pelo sensacional e fantástico.
Quem quisesse saber as últimas, verdadeiras ou fantasistas, era procurá-lo…
Eu tinha o 3º pelotão à minha conta. 90% de alentejanos, lentos, mas dóceis. Melancólicos, por natureza.
Só o furriel Brás, tripeiro de gema conseguia quebrar aquele bloco desvitalizado com a viola inseparável e o reportório vasto de desgarradas nortenhas;
o 2º sargento Gaspar, mais velho uma dezena e meia de anos do que todos, já ia na 3ª comissão de ultramar…Modos de vida. Era casado e com filhos na metrópole.
Corpo e espírito de orangotango, haveria de dar os seus problemas, em teatro de guerra. Na véspera das operações, não havia doença que não tivesse. Para o fim, o pelotão já lhe perdoava e até preferia que ele ficasse no quartel. Um peso morto. Mas refilão, de sobra…Ah! Ainda conseguia fazer flic-flac, à rectaguarda…e contar anedotas. No final, já as repetia. Dizem que voltou para Angola, noutra missão e acabou chefe de posto…Uma Autoridade Administrativa.
O cabo Augusto era empregado de mesa no hotel Ritz. Bom cozinheiro de caldeiradas…Pacato e sempre pronto a avançar, muito dialogante. Os soldados gostavam dele.
O cabo Madaíl, aveirense castiço, muito frontal, parecia ser destemido. À última da hora, os cuidados do pai, muito bem relacionado nas terras e salinas da ria, conseguiu comprar-lhe a sua substituição. Não foi promovido a furriel…
Daí o ter surgido o 2º sargento, Leonel, um coimbrão, pacato, repetente, em mais uma comissão. Vidas. Também era casado e com descendentes.
No 4º pelotão, estava o Aspirante Gonçalves. Alentejano das raias de Espanha, em Campo Maior. De porte pequeno, ratinho, de olhos azuis, caracoletas alouradas, mas voz barítona. Era bravo e vivaço. Sempre, um leal amigo…Já nos conhecíamos das românticas “guerras” da Madeira…
Falar-lhe da “Passarinho” foi sempre o seu ponto fraco…Então, com uma cerveja a mais, era um livro aberto…
Ainda hoje, aquela felizarda é a sua feliz cara-metade…
De Maio a Agosto, sob os calores secos de Évora, não houve monte que não fosse visitado, noites e dias, pelas tropas peregrinas e desafortunadas, enquanto os serenos alentejanos de Évora se regalavam, ao anoitecer, com a bica aromática ou imperial na esplanada mítica da acolhedora praça do Giraldes…
Só aos fins de semana, poucos, foi possível partilhar aquela calma, quase a roçar uma tristeza lânguida.
A rica Sé e o seu tesouro quase milenar, o resto das colunas de sabor grego do templo de Diana, a capela dos ossos, de gosto irreverente, dedicada a São Francisco, o verde jardim, viçoso e labiríntico de D. Manuel I, as ruelas brancas e estreitinhas, autênticos pedaços das urbes mouriscas, as formosas e arabescas chaminés no cimo das casas, onde parecia ninguém habitar, pelo calor constante, foi o repasto turístico da maioria, ali deslocada, originária das terras buliçosas do norte.
O quartel era quase moderno nas suas enormes casernas, que as camas de 2 e 3 andares multiplicavam, sabiamente, o reduzido espaço para tanta gente;
As salas de oficiais, sargentos e praças eram verdadeiros bares, cá de fora;
A cozinha monacal, de grandes panelões a fumegar e um refeitório amplo, com as terrinas metálicas sobre mesas, compridas, de mármore;
A cadeia castrense para serenar os ânimos mais exaltados;
Uma enorme parada calcetada a granito, servia de altar quotidiano à indispensável mística militar, são as reminiscências que ficaram a perdurar na lembrança dos candidatos forçados à guerra de África…
& 3
DESPEDIDA DO RIO TEJO
De Évora, pela madrugada calada de uma noite tórrida de Agosto, saíu o comboio especial, com todo o cortejo militar que perfazia o numeroso batalhão, dado pronto para a luta.
Uma das companhias, a 728, iria para a Guiné, outra para Angola e a 3ª para Moçambique. O sorteio.
Uma noite de viagem ronceira, desde Évora a Lisboa, cais de Alcântara. Só 130 Km, de linha secundária e sem qualquer prioridade.
A longa paragem de Casa Branca ficou na memória: esgotaram as bifanas de porco no pequeno bar da estação, mas não a cerveja… O resto da viagem, até de manhã, correu às mil maravilhas.
O imponente paquete TIMOR, amarelado, mais alto e corpulento do que a enorme estação fluvial, ali estava, calmo, à nossa espera, poisado nas águas paradas do Tejo.
Várias escadas, longas, ligavam o cais ao bojo barrigudo mas elegante, do paquiderme, de proa arrebitada e pendão festivo, à solta.
Não demorou muito e toda a gente estava a bordo, distribuida pelos muitos pisos, docilmente transformados em quartel.
Um tremendo urro disparou nos ares e as máquinas medonhas aceleraram, lá no fundo.
A água do Tejo começou a ferver em ondas de espuma, em turbilhão, à popa, empurrando o gigante para mais uma oferenda, de sacrifício, no altar da ditosa pátria…
As varandas viradas ao cais abarrotavam de tropa. Mantos de lenços esvoçantes e lágrimas a escorrer refrescavam a dor dos que ficavam e dos que partiam…
Na sua lentidão insensível, o barco foi-se afastando, mais e mais até que o punhado de multidão do cais se tornou, apenas, numa seara escura, salpicada de folhas brancas ondulantes.
Do meio do Tejo, era a vez de Lisboa, sempre afável e carinhosa, se despedir de nós, reconhecida, com votos sentidos de feliz e rápido regresso…
A ponte audaz que iria ligar as duas margens, em cabos de aço suspensa, apenas tinha construidas as duas largas sapatas a emergir da tona das águas esverdeadas.
Quando regressássemos, se regressássemos…, haveria de estar pronta…para nos receber. Era o que constava.
Mais um pouco e o enigmático oceano recebia, sereno, a quilha altiva da nau castrense, pronta para a peleja.
A vida de quartel iniciou o seu ritual. A comida abundante ressumava festiva nos pratos mais fidalgos, no meio da vozearia frenética dos combatentes.
Cada companhia no seu lugar e cada pelotão bem entregue ao seu alferes e aos 3 sargentos, todos de galões, vaidosos, a estrear…nos ombros.
O programa de bordo já estava montado. Havia que manter a tropa, ocupada quanto possível. Era preciso que não houvesse tempo para pensar, para ninguém. O caminho era, sempre, para frente.
Campeonatos de pingue-pongue atingiram o rubro entre oficiais, sargentos e praças; remedos de teatro ad hoc surgiram espantosos de frescura e elevação; concursos de canto e outras habilidades se montaram sobre a parte mais larga do navio, à vista dos altos comandos, satisfeitos.
A travessia do equador fez-se sentir, quente e foi festejada como convinha, a bordo, com alvoroço, muita cerveja e champanhe...
Os dias foram passando e uma sensação estranha começou a perpassar traduzida em nervosismo, disfarçado, muito a custo.
O céu tornou-se diferente e estranho para todos. As águas começaram a tornar-se cinzentas e espessas e o horizonte pardacento e negro.
Já eram as águas do vasto estuário do Geba que nos iria levar a Bissau, dentro de algumas horas, à medida que as margens longínquas se iam aproximando.
Agora era um frondoso arvoredo, baixo e densamente entrelaçado que orlava uma e outra das margens do Geba caudaloso. Uma manta de floresta, salpicada de leques de palmeiras bamboleantes, seguia-se para o fundo, infinito e plano. Tinha-se a sensação de estarmos a devassar terras proibidas.
A cada momento, podíamos ser atingidos de qualquer das margens. O alcance de uma simples metralhadora abrangia-nos à vontade, desarmados.
Depressa, se soube que uma ou várias curvetas de aço cinzento da marinha já nos vinha a escoltar, desde há muitas milhas, sobre o Atlântico. Ficámos mais serenos.
Além disso, aquela zona felizmente, éra-nos fiel, supostamente. Era terra dos bijagós.
Uma vez mais, os longínquos conhecimentos de geografia da 4ª classe, indelevelmente registados, entravam a funcionar.
As muitas raças que havia na nossa Guiné, os balantas, mandingas, fulas, papéis e os seus costumes despertavam enorme curiosidade a todos.
Um tiro soou. Um calafrio nos correu toda a espinha. Foi um crocodilo que apareceu ao longe, atrevido, possivelmente, atraído pelos restos que saíam da cozinha do vapor. Mergulhou e nunca mais se viu. A forte carapaça era o suficiente para nada lhe acontecer, se a bala o atingisse em oblíquo.
A temperatura é sufocante e húmida. A camisa de caqui amarelo cola-se à pele, apesar de ter tomado um duche há momentos.
Uma ponta de terra, destacada da outra mais distante, na margem esquerda do Geba, começa a destacar-se e a alargar, elevando-se um pouco sobre as águas. De vez em quando, há clareiras, por entre a imensa manta de arvoredo verde acinzentado. Umas casotas de palha, espalhadas debaixo de uma família de embondeiros abrigam corpos nús de homens, mulheres e crianças irrequietas que andam e correm até à borda do rio.
Muitas canoas compridas, feitas num pedaço de tronco grosso, deslizam ao lado da margem, tangidas por um vulto negro à sua popa, pelas mãos, agarradas à ponta de uma vara que ele faz girar em arcos de oitava, mil vezes repetida e se traduzem em força propulsora da embarcação.
É uma ilhota em frente à cidade de Bissau que não tarda a aparecer,
do lado direito.
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Bissau à Vista
Agora, é uma mancha de casaredo entremeado de árvores, terra avermelhada, muitas palhotas espalhadas à sombra de embondeiros gigantes, aos montes, um movimentado porto de pesca e descarga, com muitas barcaças enegrecidas, cheias de gente e carregadores, a crista de uma igreja mais elevada, alguns carros militares, girando rente às águas.
Grandes armazéns toscos, quanto baste, para arrecadar as mercadorias que chegam e partem;
Um sinaleiro, de porte senhoril, preto, em cima de um tamborete improvisado, colorido, esforça-se por impor um pouco de ordem no trânsito variado de carros, bicicletas, que escorre pela artéria que vem de cima para o rio.
O Timor avança lento, ao meio do rio largo pelo caminho mais fundo e seguro. Não vai atracar à margem. Não há lugar para o seu tamanho.
Não chove mas o céu está pardacento, embora se adivinhe o sol a tentar rompê-lo. É mesmo assim.
As chuvas vêm rigorosamente na sua época. Diziam que, no dia 15 de Maio começava a época das chuvas e foi verdade, rigorosamente comprovada, nos dois anos lá passados.
A tropa destinada à Guiné deixou o barco rapidamente. Os unimogues militares transportaram toda a bagagem para o quartel de destino.
Um desfile de todas as companhias desembarcadas, foi imediatamente organizado, pela Avenida Central, que cortava Bissau em duas partes, desde o palácio do Governador até ao pé do cais.
Era a habitual apresentação às gentes da Guiné de mais um reforço, chegado em sua defesa.
Com júbilo multicolor, multidões de homens, mulheres e crianças, em trajes garridos de festa, preenchiam as alas da avenida, batendo palmas e acenando, agradecidos, à passagem, em marcha de desfile.
Éramos um rio de caqui amarelo e bóinas castanhas com duas fitinhas, atrás, a escorrer, trepidantes e de olhares desatinados, perante aquele mundo desconhecido que se abria.
Os cheiros fortes das árvores e das flores, pujantes e exóticas, eram diferentes e novos.
Eram quase enjoativos, sem deixarem de ser perfumados. Mais tarde, em cavaqueira à mesa de oficiais, o último comandante de batalhão, de Catió, famoso e “chanfrado” da cabeça, dizia deles, com gozo nosso, que as árvores da Guiné lhe cheiravam a espermatozóides…
Os gestos, as feições da população negra e todas as expressões obedeciam a um código que nos era inacessível.
Só com o correr dos meses, nos fomos inserindo nele, lentamente e sem dar conta.
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QUARTEL DE SANTA LUZIA
Santa Luzia foi o nosso primeiro quartel. Afastado uma meia dúzia de km do centro de Bissau, em lugar cimeiro, bem encostado às “bolanhas” ( extensos campos de arroz ), por precaução e defesa, ali estava o complexo Quartel – General.
O gorducho e pequeno brigadeiro Schultz e o seu estado maior, à frente das tropas.
Com todo o vasto sistema de apoio logístico-administrativo, distribuido por vários pavilhões de construção tão recente quanto a idade da guerra, era o coração de toda a complexa máquina bélica na Guiné.
Apenas convivíamos com eles, às refeições, no grande refeitório de oficiais.
Vestiam como nós, mas nos ombros refulgiam as estrelas douradas do generalato, sobre fundo vermelho.
Eram os velhos senhores e donos da guerra que ali estavam, numa grande mesa, voltados para a frente, dominando toda as mesas da sala ampla.
De lá, seguiam para os seus gabinetes por caminhos próprios, fechados ao comum das gentes, no edifício central mais engalanado.
Dentro do espaçoso recinto cercado de uma forte amurada protegida por fortins de sentinelas, colocados em sítios estratégicos, ocupando muitos hectares, distribuia-se todo o sistema de aquartelamento, das tropas residentes e em trânsito, como nós, mais todos os serviços e espaços lúdicos. Piscina e campos de jogos.
Não fosse o permanente ribombar sinistro de morteiros ou de artilharia, do inimigo e dos nossos, nos longes do outro lado do Geba tortuoso, dia e noite, e sentir-nos-íamos em casa, como em qualquer quartel da metrópole, ( assim se dizia do nosso pedaço de terra luso-ibérico, além-mar.)
Durante dois meses e meio, a minha companhia ali ficou aquartelada.
Servia de segurança ao quartel general e dali partia, em acções nocturnas, montando emboscadas, para as imediações alagadas ou de densa vegetação, nos arredores de Bissau.
Era fundamental tomar-se contacto com os barulhos da mata africana.
Das enormes e variadas aves noctívagas e dos permanentes batuques, soturnos, das tabancas, em toques de festa, de luto ou de simples intercomunicação de mensagens, entre aldeias.
Noites longas e escuras de cacimbo húmido ou luminosas de luar fulgente, quase da cor do dia, deram para sonhar, para temer e rezar.
Com o pelotão disposto em linha, as 3 secções de doze homens, espaçadas, sob o comando do respectivo sargento, ao longo de um caminho, ali se permanecia, deitado, reprimindo a tosse e, quase, o respirar, em constante guerra aos ruídos que poderiam ser fatais.
Se um falso alarme provocava o disparo de um soldado mais timorato, logo outro local teria de ser procurado, uns km mais adiante, para cumprir a emboscada gorada.
Ao fim de umas semanas, já toda a gente sabia distinguir o piar provocador do passaredo medonho, tropical ou os ruídos normais das aldeias mais próximas.
O medo, a pouco e pouco, foi-se ocultando e a tensão, de todos nós, abrandando, até porque não havia notícia de ter ocorrido qualquer contacto com o inimigo naquelas zonas, consideradas fiéis.
Lembro aquela noite luarenta, muito perto de Mansoa, em que momentos após toda a gente ter sido instalada, um sururú crescente, percorreu o pelotão agitado e acabou às gargalhadas e gritos incontroláveis.
O pelotão tinha sido posto em cima de um carreiro de formigas pretas. Aquelas que constroem altas torres de barro, duras que nem cimento, óptimos abrigos para a metralha, mas que tiram pedaços de carne, em cada mordedura das suas poderosas tenazes…
Não demorou muito e todos estávamos despidos a sacudir, como se podia, as vorazes infiltrações mais atrevidas e dolorosas...
O espírito de corpo, que deveria ligar todo o pelotão, já estava consolidado ao fim de umas semanas de intenso treino nas matas, aparentemente, bonançosas dos arredores de Bissau.
Só aparentemente, porque era sabido que os “turras” ( assim se chamava ao inimigo) tinham ali os seus familiares e éra-lhes fácil a clandestina infiltração, para colherem as informações fundamentais e preciosas à guerra que suportavam e alimentavam por toda a Guiné.
Por isso, não era muito recomendável vaguear-se pelas muitas e populosas tabancas ( as aldeias dos negros) que rodeavam a cidade, de vez em quando lá desaparecia um dos nossos, e, nos cafés ou lojas comerciais de Bissau, toda a probidade era pouca. Um turra poderia estar ao lado, de orelhas afiladas…pronto a seguir, à velocidade da luz, para o mato com a preciosa notícia de uma operação, em tal zona…
Era certo que uma terrível emboscada abortaria, com sangue, a operação programada…
A cidade de Bissau visitava-se em pouco tempo. Várias ruas transversais à já referida Avenida Central, a que corta Bissau ao meio, continham as lojas, os cafés e as moradias dos residentes, a maioria, feita de cabo-verdianos, mais desenvolvidos que os nativos da Guiné.
Um banco, um liceu, uma catedral, um hotel, um grande centro comercial da CUF e muitas esplanadas de cafés eram tudo o que conseguia proporcionar aos militares uma óptima estadia, quer em suculentas férias do mato, quer em sortuda comissão militar para aqueles que ali permaneciam durante os dois anos e meio de serviço.
O resto era dado pela pujante vida das tabancas negras, onde havia sempre bom churrasco, muito marisco, baratíssimo e muita cerveja.
A expectativa constante em saber para onde iríamos ser destacados não era propícia à exploração daquele mundo de diversão, diferente e enigmático.
O tempo era pouco para ouvir os mais velhos que vinham do mato, em descanso ou férias forçadas, com passagem pelo moderno hospital militar, a uns 8km de Bissau.
Não era difícil reconhecê-los. Os ares quentes daquelas paragens equatoriais já lhes tinham tisnado os rostos, de ar cansado e sofredor. Nem eles próprios já o reconheciam.
O triângulo de Bafatá, Mansabá e Bissorá, ao norte; Catió, Bedanda e Bissalanca Ur, ao sul; Guilege e Medina do Boé, a Leste, eram, sem dúvida, os pontos mais escaldantes no teatro de guerra.
Para oeste, ficava o mar da nossa liberdade, se a sorte o permitisse...passados 2 anos e tal.
Mansoa, a 30 km de Bissau, o arquipélago dos bijagós pela sua localização natural ou pela predominância da raça, leal, ali residente eram os poucos sítios apetecidos. Para além de Bissau, claro.
Se bem que, era corrente e aceite que, na Guiné, não havia espaços calmos e seguros.
A tropa só dominava nos espaços reduzidos dos centros administrativos restantes da secular colonização.
4 ou 5 km fora da cerca e tudo poderia acontecer. Minas, emboscadas ou raptos.
No geral, a ideia corrente era que se estava num impasse teimoso, com tendência para o agravamento de ambas as partes.
Constava que a nossa vantagem aérea estava a ser ameaçada. Os turras já estavam a ser abastecidos por helicópteros, em pleno campo de luta…e os apoios vindos da Rússia, em material e dos homens, ali preparados, eram crescentes, de dia para dia.
Estávamos na época seca e, por isso, a mais turbulenta.
Os helicópteros poisavam, constantemente, no redondel do hospital.
Não era aconselhável ir para aqueles lados…Muito menos, entrar nas enfermarias.
Era impossível disfarçar-se a preocupação, por mais forte que fosse o espírito.
Nas noites, não havia lugar para sonhos, só pesadelos.
Já que tinha de ser que fosse o mais depressa possível. A imaginação e as cores cinzentas das matas distantes esmagavam-nos nas horas longas de cada dia que passava.
Nos primeiros dias de Outubro, veio, por fim, a notícia. Fatal. A companhia 728 ia para Ilha do Como, zona de Catió, render a Companhia 556, que ficara a defender, ali, a soberania, depois da mais brava refrega que o Chefe-Mor, o brigadeiro Schulz, resolveu desencadear durante 3 meses. Com todos os meios militares disponíveis, desde a marinha à força aérea e à artilharia.
No fim, a montanha parira um rato…Para não vir para Bissau, de mãos a abanar, decidiu deixar, melhor, imolar uma das últimas companhias a chegar à refrega.
Foi deixada entregue a si própria, instalada na bordinha sudoeste da ilha do Como, rica em produtos hortícolas e arrozais. Nela fora proclamada a Républica Independente pelo PAIGC.
Corremos para o mapa a espiolhar o enredo daquelas terras, bem ao sul, às portas da vizinha Guiné Conakri e da Serra Leoa.
A cota máxima do relevo não passava dos 6, 7 metros. Um terço das terras ficava debaixo de água em cada maré cheia.
O rio Corubal e Cacine eram uma verdadeira teia de braços tortuosos, com zonas que mais pareciam mar alto, a perder de vista. As matas frondosas e entrelaçadas cobriam o resto que ficava dos arrozais. O seu seio escondia as numerosas tabancas e aquartelamentos, umas e outras, muito primários, quase ambulantes.
O horizonte não podia ser mais pardacento. Só a esperança nos valia e deixava espaço para respirar.
- Seja o que Deus quiser…voltou a ser a expressão mais corrente em todas as bocas. Agora, já um pouco mais conscientes do seu significado.
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Marcha para a Ilha do Como
Em dia certo de Outubro, a Companhia 728 fez as malas e teve de avançar para o sul da Guiné.
Seria ali que tudo iria ser jogado. O nervosismo inicial, de quando se conheceu o destino, foi abrandando e o desejo geral era de que, quanto mais depressa, melhor.
A secção de espólio, comandada pelo alferes Barros dos Santos, com o 1º sargento Santos e o sargento Gaspar, já tinha feito a recepção do material, no próprio quartel, na ilha do Como. As suas impressões não eram tão más como isso.
A companhia que íamos render já tivera o grande trabalho de construir, de raiz, as instalações mínimas que havia e, segundo disseram, limitava-se a marcar presença no terreno.
Nunca fora atacada, depois de terminar a grande operação que a deixou lá.
À parte as privações derivadas do isolamento total e a dependência do abastecimento de água potável e mantimentos, feito a partir de Catió, a maior dificuldade estava em manter o pessoal activo e disciplinado, enquanto o tempo passava lentamente.
Por isso, o moral que reinava era positivo e, até, dominado por uma certa curiosidade pelo desconhecido.
De novo, o Geba foi a nossa rampa de lançamento. Toda a Companhia foi transportada em unimogues até ao cais buliçoso de Bissau.
Uma grande barcaça de aço acinzentado, da marinha de guerra, com uma secção de fuzileiros, parecia uma grande banheira, de linhas nada aerodinâmicas, ali estava espalmada sobre as águas baças do gigantesco rio tropical.
Apenas uma pequena torre de comando, com duas metralhadoras pesadas, colocadas em sítio dominante e um vasto terreiro, de chapa singela, totalmente vago, assente sobre as águas.
Depressa engoliu toda a Companhia, algum material de apoio e ainda sobrou espaço para o grupo de gente nativa, de homens, mulheres e crianças interessados na boleia até Catió e, mais, o cão vadio, que ia ser a mascote da companhia com o posto de sete vinte e oito.
O pessoal, já armado de G-3 individual, mais 3 bazookas e 3 morteiros, tinha o encargo da autodefesa, durante a viagem.
Esta ia ser feita em dois troços, sempre em águas de rio.
O primeiro, no estuário, quase oceânico, do Geba, até Bolama, a 2ª cidade da Guiné e sede das forças de Marinha. O segundo, até Catió, pelo rio Corubal. Dois dias. No 2º, havia que contar com as marés do Corubal que lhe triplicavam a gorda superfície caudalosa..
A zona atravessada era pacífica, segundo se dizia. Por isso, um certo espírito de turismo dominou toda a expedição…
O deslumbramento do arvoredo farto que pendia sobre ambas as margens, o esvoaçar constante dos gigantescos jagudis, multicolores, de bico rubicundo, o bando de gaivotas a rodopiar à nossa volta para se deleitarem com os restos, uma granada de mão ofensiva que, de vez em quando, se desprendia de mão anónima, sobre o seio das águas turvas do rio, logo tapadas por uma manta prateada de peixes atingidos pelo estampido mortal, para gáudio das gaivotas persistentes; um tiro, furtivo, de algum soldado mais atrevido, sobre a carapaça do bando de crocodilos pachorrentos, que emergiam das águas salobras, tudo ia tornando aquela viagem numa aventura saborosa, bem ao jeito da nossa idade juvenil.
A bravura castrense do nosso capitão já dava sinais de amolecimento. Já se tinha abeirado da ralé, surpreendente, ajudando à festa, com um bem timbrado desfiar de fados de Coimbra e do hino da sua terra natal
- Oh Castelo Branco, Castelo Branco…
O vigoroso Sasso, com a voz rouca, crestada pelo cigarro, em fornalha permanente, acompanhava-se à viola, nos fados alfacinhas; as desgarradas brejeiras do furriel Brás, embrulhadas, também, na sua viola inseparável; o corpulento sargento Gaspar exibia, pela centésima vez, as suas habilidades circenses, em mais um flic-flac; o espírito, até aí, oprimido dos soldados começava a despontar, natural e as distâncias artificiais da parada do quartel dissipavam-se, lentamente, sem detrimento do entranhado respeito pelos superiores.
Sentia-se que um espírito de grande família, amiga, estava a despertar, decidida, sobretudo, a defender a vida de todos e de cada um dos seus elementos, onde quer que fosse, nos próximos dois anos.
Entretanto, o cheirinho da bifalhada que vinha da cozinha dos marujos, das batadas fritas e ovos estrelados, obrigava-nos a recorrer à ração de combate, de 1ª categoria, com que foramos prendados. A cerveja fazia o resto.
Pela tardinha, a LDM, escoltada à distância pela temida corveta da marinha, aportava à calma cidade de Bolama.
Uma recepção festiva dos camaradas marinheiros e um jantar “caseiro” melhorado deram-nos uma noite inesquecível nas casernas prontamente partilhadas.
Um mergulho na piscina, no dia seguinte, deu-nos alento para mais uma etapa, a última daquela façanha que, em vão, se afigurara temível.
Agora o rio Corubal ficava mais estreito e sinuoso. A zona que atravessava era território dominado pelos turras. Ficavam por ali perto, dentro das matas impenetráveis, grandes acampamentos, até então, inexpugnáveis. Fula Kunda Ur, Bedanda…Cantanhêz…Dar Es Salam…
Eram as casas mansas dos turras,( aquartelamentos simples) donde partiam com as operações estudadas, contra nós, logo abandonadas, assim que sentiam uma pressão insustentável.
Por isso, todo o cuidado era pouco. Uma emboscada, numa curva do rio, na zona mais estreita, era bem possível.
Daí até à Ilha do Como não demorou muito, aproveitando-se a maré-cheia.
Deu para descarregar tudo e seguir a pé até ao aquartelamento, a partir do cais tosco construído pela nossa tropa.
Estávamos na época seca. Não houve problema em percorrer os 800 metros de terra batida, assente em toros de palmeira estendidos, transversalmente, de modo a dar para os rodados de um unimogue pequeno.
O terreno era baixo e todo ele roubado à bolanha.
Subindo para o interior da ilha fomos dar logo com o quartel que iria ser o nosso castelo, nos próximos meses.
Era do tamanho da cerca de dois campos de futebol, em forma de quadrilátero.
As paredes eram feitas de troncos de palmeira cravados na terra e justapostos, com a altura de uns 2 metros e picos.
À sua volta, em reforço, uma barreira em bidões de chapa, cheios de terra, encastelados.
Na paliçada de toros de palmeira, havia seteiras para se divisar ao longe e fazer fogo, em caso de ataque.
Ao meio de cada lado, perpendicular à estrada, duas portas de armas largas, para passagem de viaturas. Por uma entrada oblíqua, para evitar o devassamento interior.
Um fortim reforçado e sobreelevado, em cada um dos cantos e ao meio de cada um dos lados. Ali permaneciam as sentinelas, dia e noite, cumprindo a vigilância, de uma importância e responsabilidade total…
Dois grandes embondeiros, ao centro do quartel, davam sombra e abrigo sobre uma parte substancial de toda a parada. Ali debaixo, ficava a cozinha tosca, a mesa corrida dos oficiais e sargentos, a enfermaria, a casa das transmissões e a secretaria do 1º sargento. Em frente, era o bar feito das tábuas dos barris vazios.
As casernas dos três pelotões estavam distribuidas pelo espaço interior, de modo a evitar a concentração de pessoas.
Em lugares estratégicos, ficavam as armas pesadas. Morteiros, metralhadoras. Um forte gerador de corrente funcionava a tempo inteiro, dia e noite, para manter, sobretudo, acesos todos os altos postes avançados de iluminação exterior ao quartel, uns 40 ou 50 metros e todos os serviços de transmissões.
A palmeira, o bidão e a tábua dos barris eram a matéria prima vital.
O estado de conservação era mau e desconfortável. Antes da época das chuvas, todos os melhoramentos tinham de ser realizados.
A companhia que saía, esvaída, já não tinha élan vital. Estava acomodada àquele desconforto total e ninguém conseguiria exigir à tropa cansada qualquer esforço que pudesse significar permanência.
Se não chegássemos naquela altura, eles teriam debandado…pela floresta, com o desespero.
O aspecto geral era verdadeiramente dantesco. Na tropa, já não se reconhecia a cor original dos farrapos que ainda restavam a tapar o corpo. Cabelos e barbas compridas, troncos nus, calções esfarrapados, ninguém se atrevia a identificar as tão cultuadas classes da tropa originária: soldados, sargentos e oficiais.
Una centena e meia de homens e ano e meio de encarceramento, dentro do arame farpado.
À distância de uns 500 metros, descampados, começava a mata cerrada que ia dar ao território dos turras, a parte restante, (melhor, a totalidade) da ilha...
Os outros lados eram campos de arroz abandonados, orlados por braços de afluentes do Corubal.
Ao lado nascente, a companhia 556 tinha conseguido implantar uma pista tosca para a festa da avioneta, do correio e dos mantimentos frescos, durante a época seca. A época da chuva encarregava-se de a desfazer.
Foi para ela que os olhos se voltaram quando nos vimos sózinhos. Havia que capinar todo o terreno ainda coberto de ervas rasteiras para que a Dornier pudesse visitar-nos, pelo menos de 15 em 15 dias.
Os primeiros dias foram intensos, sob a batuta astuta do capitão, para fixar o plano de vida e definir tarefas.
A distribuição dos pelotões no espaço do quartel, ficou a mesma que a companhia 556 tinha fixado e bem. O critério era o do maior perigo. Dois pelotões do lado da mata, o do Sasso e o meu; do lado do cais, ficou o 3º, do Gonçalves.
Todos os dias a companhia formava e era apresentada, em sentido, ao capitão.
Este nem parecia o mesmo durão de Évora…
Lia-se-lhe no rosto uma certa preocupação e nervosismo. Criar todas as condições de segurança e amenizar o grande esforço que nos esperava era a grande prioridade.
Não falava de ideais, como antes e nunca se lhe ouviu mais uma palavra que fosse a justificar a nossa presença ali.
Autodefesa e a melhor subsistência possível eram a únicas razões básicas que se desprendiam da sua boca, nas prédicas de formatura, à mesa ou nos muitos momentos de laser.
Ninguém deveria afastar-se do quartel, muito menos sózinho; o serviço de sentinela, dia e noite, seria o mais exigente, como todos reconheciam.
Guerra ao sono dos sentinelas, apesar do café que era distribuido, de tempos a tempos, por todas as guaritas. Dela dependia a segurança de todos, especialmente, durante as noites de cacimbo, banhadas de breu ou de jorros luminosos de luar.
Havia que exigir a maior limpeza e o asseio possíveis; ocupação permanente para os soldados e uma cuidada rotação das tarefas definidas.
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O BAPTISMO DE FOGO
Ao fim de um mês, podia dizer-se que a Companhia tinha encontrado a própria rotina.
Cada pelotão com a sua tarefa da semana e cada secção com a sua tarefa do dia.
A escala da guarda ao quartel estava montada e a dos oficiais e sargentos-de-dia, também; a da secção de segurança à lancha que ia buscar água a Catió; a da capinagem do campo de aviação e a da limpeza ao quartel.
Um grupo de combate montaria emboscadas, de dia ou de noite, na mata, não muito longe do acampamento, para criar insegurança e afastar tentações aos nossos vizinhos.
Faltava, porém, a dura e temida experiência do contacto directo com o inimigo, em teatro de guerra. Um dia, teria de acontecer. E aconteceu mais depressa do que se desejava.
Uma grande operação iria ser desencadeada no Cantanhez, com companhias de intervenção, pertencentes aos vários batalhões, ali ao pé, mais uma de fuzileiros e a força aérea.
À 728 ainda inexperiente, competiria apenas manter a segurança na retirada, na zona de Cufar, a uns 12 km de Catió.
Partida, de lancha, pela noitinha, até Catió, dali seguiu, de madrugada, estrada fora, a pé, rumo a Cufar.
Lentamente e em total silêncio, foi uma noite inteira de caminho, até ao cruzamento de Cufar, que teríamos de defender.
Durante a noite, apenas se ouvia, muito ao longe e de forma dispersa, o ribombar de morteiros ou artilharia, que tanto podia ser nosso como deles, à mistura com o piar lúgubre e o esvoaçar constante da bicharada da noite, em nosso redor.
Todos tínhamos consciência de que, de um momento para o outro, poderíamos estar a ser alvejados por uma chuva de tiroteio ou por metralha pesada de bazooka ou morteiro.
Daquela vez, não seria, por certo, devido a falta de cuidado de ninguém, desde o capitão ao soldado mais insignificante.
Todos éramos importantes e responsáveis, por todos e cada um.
Foram doze km de tensão, palmilhados a tactear o terreno, pé ante pé, de respiração contrita.
Pelo amanhecer, envolvidos na bruma húmida de nevoeiro, estávamos a instalar as secções, ao longo da berma, virada a norte.
À medida que o tempo passava, sem nada acontecer, foi-se instalando uma certa descompressão geral. Um certo à-vontade se apoderou dos mais irrequietos.
Às vezes, já se via, aqui e ali, um soldado levantado; uma conversa cochichada, mais descontraída, apesar da repressão constante dos comandantes das secções.
Não fosse o tiroteio, ao longe e disperso, mais intenso e insistente que durante a noite, o deslumbramento da floresta pujante de vida e esmagadora, nas plantas e animais, nunca vistos, ali ao nosso pé, far-nos-ia sentir maravilhados.
O último troço de estrada térrea palmilhado, até à curva, estava coberto por autêntico rebanho denso de curiosos macacos-cão, especados, em plateia, a ver a nossa vida, intrusa.
De repente, debandaram em fuga, saltando para o cimo das árvores e nela desapareceram, à boa moda de Tarzan e da companheira, Jane, para melhor…
A nossa inexperiência não deixou perceber a razão da debandada.
Era o aviso infalível do que lhe sucedeu, imediatamente, tal como o relâmpago arrasta o trovão…
Uma chuva intensa de tiroteio varreu, impetuosa, as nossas cabeças coladas ao chão mais fundo das bermas.
Várias granadas rugiram, atrás de nós, em estrondos infernais, cavando crateras no chão e espalhando metralha mortífera em redor.
O sítio escolhido não podia ter sido melhor. Foi a nossa sorte.
A reacção tardou, mas foi esmagadora. Os ânimos acenderam-se e já alguns dos nossos se levantavam, afoitos, a lançar granadas e bazookadas para o seio da mata cerrada, obrigando-os a calar e a debandar.
Uns quinze minutos medonhos que pareceram anos. Em turbilhão, tudo passou pela cabeça.
Pedra Maria nunca me apareceu tão linda…Os montes de Santa Quitéria, tão verdes…O sol manso da minha terra…
O desespero e a prece…
De quem é a ermida branca,
Erguida num rochedo de pedra,
No cimo do monte mais alto
Desta terra tão formosa?…
É da Senhora de Pedra Maria.
É Rainha de Varziela…
Quem é aquela Senhora, bela,
De manto de renda, dourado,
Alumia inteira a capela,
No monte mais elevado
Desta bem formosa terra?..
É a Senhora de Pedra Maria.
É Rainha de Varziela…
Quem é aquela Senhora,
Lá no alto do altar…
Mais brilhante que a aurora,
De tão doce e terno olhar?…
Com ele,
Enxugou as lágrimas meninas,
De nossos pais e avós…
É a Senhora de todo o mundo…
É a Rainha de Varziela…
Quem é aquela Senhora, adornada,
De coroa d’ouro na cabeça;
À direita do Seu Filho,
Numa cruz ensanguentada?…
É a Rainha do mundo inteiro,
Conquistado por Ela e Jesus;
Por amor de nós, O deixou morrer
Pregado naquela cruz…
Escolheu para trono real,
A ermida branca de Pedra Maria
Num monte verde de Varziela…
Os sinos da sua torre
Acompanham o labor da gente, ledos,
Nas fábricas, searas e nos vinhedos,
Nas terras verdes de Varziela,
Do nascer do sol ao sol poente.
Cantam de festa, no raiar das vidas,
Trinam, alegres, com as novenas,
Dançam d’ais, nas despedidas…
A cruz alta do campanário
É um luzeiro, sempre aceso,
Na aflição das horas negras…
As portas da sua ermida
São porto seguro de abrigo
Para as tormentas no mar profundo…
No manto de renda dourada,
Da Senhora de Pedra Maria
Cabem os filhos de Varziela
E toda a gente do mundo…
Bendita é a Rainha e Senhora
Que mora no rocheo de pedra,
No monte mais altaneiro
Das terras lindas de Varziela,
Senhora de Pedra Maria!…
um sentimento vivo de fortaleza… e, por fim, a serenidade da esperança.
Não para todos.
O bravo capitão, nunca o vi tão branco…calou-se, ensimesmado, durante todo o caminho, no regresso, até ao quartel.
Uma semana depois, desapareceu para Bissau e ninguém mais lhe pôs os olhos…
Constou que regressara à metrópole, sob custódia e nas masmorras do cárcere, sepultou, para sempre, o sonho do generalato…
Espevitados por aquele banho inesperado de fogo, dali em diante, ficámos em alerta constante para o mais leve rumor de uma nova intervenção.
Um misto de gozo sublime e de medo era a sensação que nos invadia. A exaltação total do nosso ser que a operação causara, fascinava e atraía-nos para a repetição…
Ao mesmo tempo, a consciência do risco de vida, extremo, trazía-nos estarrecidos perante um simples rumor ou hipótese de saída…
& 8
CAPITÃO MORATO,
O NOVO COMANDANTE
Pouco antes do meio dia, chegava a lancha costumeira da água de Catió.
Era uma tarefa desejada pela rapaziada, apesar da casca de noz em que seguiam, Corubal fora, através de margens densas de arvoredo.
Umas horas na vila de Catió davam para uma escapadela furtiva às tabancas…ver gente apetecida.
Um indivíduo estranho vinha com eles. Muito aprumado, no seu caqui amarelo, conservava ainda a cor branca da metrópole.
Viera, de propósito, de lá, para render, lesta, a baixa escandalosa do capitão acobardado.
Aos comandos militares, convinha abafar, depressa, aquele gesto de rebeldia …
- É o novo comandante!
A notícia espalhou-se inflamada. Toda a gente acudiu a ver o novo capitão.
É da arma de cavalaria. Não se sabe porquê.
Tem aspecto sereno e agradável. Por dentro deve estar apardalado com o espectáculo nada confortável que o esperou.
Naturalmente sorridente, depressa cativou a companhia.
Já não é maçarico na guerra. Cumpriu uma missão em Angola. Inspira confiança.
Foi guardar o saco de viagem com as suas coisitas, na tenda vaga do comando e seguiu-se logo o almoço.
A apreensão natural vai-se desfazendo com a abertura comedida que demonstra.
Uns dias depois, vê-se bem que o pessoal anda mais sereno. A sua linha de comando passa, sobretudo, pelo conforto e pela segurança.
Depressa se soube que era homem de certa influência nos comandos de Bissau, ao contrário do capitão anterior.
Por isso, as visitas da avioneta tornaram-se mais frequentes e a qualidade de vida melhorou.
O material necessário às novas casernas iniciadas sob a orientação de um homem da arte, o cabo corneteiro do meu pelotão, o 49, começou a chegar.
O pessoal entusiasmou-se e em menos de um mês estavam erguidas as três casernas, em cimento armado e tijolo.
Um quarto para os alferes e um quarto para os sargentos, mais um bar.
Até parecia um quartel verdadeiro.
A inauguração ficou na história. Uma festa de arromba. Uma vitela apareceu de Catió a regalar com o perfume dos seus ricos bifes, o rancho da rapaziada e ainda deu para uma vitelada à padeiro para a mesa dos oficiais e sargentos.
O vinho tinto do barril e a cerveja correram desprendidos.
O comandante bem recomendou cautela aos mais prudentes, não fosse o diabo tecê-las…
Foi o bastante, mas não impediu o impulso de alguns mais entusiasmados…mesmo dentro dos alferes.
O Sasso, por exemplo, percorreu todo o caminho da festança, com fados e desgarradas, e acabou numa crise de metafísica e pranto, aos meus pés.
- Eh! Gomes, não sabes como invejo a tua fé…Para mim, só vejo o nada e desespero à minha frente…
Nesse dia, até o Gonçalves cantou pela sua “passarinho”…de Campo Maior e, com o gáudio de todos, em especial, os do seu pelotão, até suplicou ajuda para saltar um simples rego de água, ao lado do bar…
- Nah! É o Geba, com jacarés…exclamava ele, cambaleante, mas convencido e de olhos a reluzir.
Para não falar do furriel Gomes e do Brás, dois castiços tripeiros de gema.
& 9
O Capitão Silva e o pacto com o Diabo
A presença do capitão Morato, na 728, foi passageira, infelizmente. Foi só enquanto encontravam o verdadeiro sucessor do capitão que disse não.
Levou bastante tempo. A tal ponto que a Companhia viu com desgosto sair aquele oficial, sereno e seguro, que, insensívelmente, levaria todos, até onde quisesse. Quem viria depois dele?
A cena voltou a repetir-se. A minúscula lancha da água, uma vez mais, foi portadora de um novo capitão, certo dia, de manhã.
Desta vez, porém, a Companhia apareceu a cumprimentá-lo e a dar as boas vindas, devidamente formada na parada do quartel.
O aspecto jovem do recém-chegado e o seu ar desafectado contribuiram, em muito, para a bonita recepção que aconteceu.
A Companhia compreendeu bem a ida embora do capitão Morato e recebeu, de braços abertos, o definitivo sucessor do valentão das paradas de Évora, do outro, o desaparecido…
Uma semana de sobreposição deu para se trocarem o testemunho, entre ambos.
Habituada à dureza e distância do desertor capitão, era difícil piorar, qualquer que fosse a mudança.
Mas, o capitão Silva, foi, de facto, bem acolhido, só pela sua maneira de ser. Desafectado, acessível, aprumado e responsável.
Não custou nada a ser encarado como o nosso definitivo comandante.
E foi-o…
O seu programa foi manter o que estava montado e enriquecer o nosso convívio e bem-estar.
Sobreviver era preciso…acima de tudo.
A solidão era, rigorosamente, total. Duzentos homens livres, mas, encarcerados numa ilha, dentro de arame farpado, dispensando bem a visita dos vizinhos…
Olhar a mata cerrada, 500m à frente, em cada manhã, era o nosso alívio. Cada noite, um longo pesadelo. Não se sabia o dia nem a hora… para um ataque, que sabíamos bem ter de aguentar sozinhos… Os reforços ficavam longe, em Bissau…
Catió nada poderia fazer, para além de flagelar com a sua artilharia pesada, fixa.
O que era muito pouco.
Os meses foram-se passando, na mesma rotina, alumiados apenas pela avioneta do correio que havia de chegar…
Podia faltar tudo. Menos o correio…
Tudo parava, quando se ouvia ao longe, no alto das nuvens, do céu, sempre pardacento, o sonoro roncar da Dornier…
Se o tempo estava bom, a companhia inteira corria em rebanho, ao aeroporto. Só de ver o camarada piloto, vindo de Bissau, terra considerada… livre, animava a rapaziada.
Os sacos do correio eram trazidos, em triunfo, pelo cortejo de olhos brilhantes, mas indecisos. Coitados dos que nada recebiam…
No centro da parada, era feita a chamada. Um silêncio total. A cada nome, mais um que se afastava, pressuroso.
Na hora seguinte, a companhia, do capitão ao corneteiro, ficava deleitada com as letritas que lhes segredavam os seus…
Longo silêncio, seguido de uma brisa de ar fresco nas almas bem saudosas.
Ali, é que se via a fortuna da amizade, que pode caber num simpes papelito, uma grama de papel, o aerograma!…
Dias depois, o tão esperado, aconteceu.
Uma salva de metralhadora, saída da fauces da mata sombria, foi o cornetim da alvorada.
Estremunhados, toda a companhia correu para os abrigos. Pelas fendas frágeis da paliçada tenra de palmeiras, as nossas G-3 desfecharam torrentes de metralha sobre a mata atrevida.
Fez-se silêncio…Nada vinha de lá. Só a desconfiança da rapaziada os manteve em alerta…
As nuvens do terror tinham calado…e o sol da bonança começou a raiar.
Os ânimos ficaram exaltados… Foi apenas um estremecimento, sadio, que deu para despertar e quebrar a monotonia da cadência dos dias que iam passando, serôdios.
De novo, a 728 caíu na paz desesperante do dia a dia, sem sobressaltos. Nada pior para os nervos dos combatentes do que essa modorra morna…
Finalmente, em surdina, correu a explicação.
Nos quadros da companhia, havia um elemento que era filho de um grande comerciante instalado em Bissau, desde os bons velhos tempos, da África-Brasil…
E lá continuava, rendendo ricos tributos para os dois lados…
A ideia fantasista de que enquanto, lá estivesse o nosso vague-mestre, nada nos aconteceria, serenou o ânimos da felizarda companhia . E, assim, foi.
Certo dia, um telex do alto comando de Bissau tudo mudou…
A 728, já ambientada no terreno, estava madura para a peleja.
Teve de avançar para Catió, em substituição da castigada 556, a companhia de intervenção, adstrita ao batalhão.
& 10
Os Treze Meses de Pesadelo
Catió, depois de Bissau, seria, na zona sul da Guiné, o centro populacional e administrativo mais importante.
Situada num exacto ponto de confluência das vias fluviais, marítimas e terrestres poderia ser considerada a capital da parte sul aonde acudiam, para distribuição, as mercadorias e toda a produção agrícola da região.
A presença administrativa, escolar e eclesiástica eram bem representadas, a seu modo.
Um Administrador e a sua mansão colonial era o regente máximo, polivalente, nas áreas administrativas e judiciais; um administrador apostólico regia a presença da igreja católica tradicional, numa igreja bem enquadrada e evidenciada no centro da vila, perto da administração civil; um centro de saúde, razoável, com enfermeiro permanente; uma meia dúzia de casas comerciais, onde sobressaía um grande armazém comecial, generalista e uns dois bares por conta de emigrantes da longínqua Ásia Menor, sirianos e libaneses, o Tombali e o ….
Uma avenida central, coberta de grandes mangueiras arrancava da praça da administração e do largo da igreja e avançava, por entre matas densas rumo às distantes terras de Bedanda, Guilege, depois de atravessar um campo de bolanhas e as tabancas onde reinava o soba real .
As tropas estavam aquarteladas nos edifícios do centro de saúde e na casa de um grande comerciante.
O comando do batalhão entregue a um tenente coronel, os serviços de disciplina e de administração militar; uma força fixa de artilharia e outra de cavalaria faziam a guarda permanente do batalhão e a flagelação à distância dos quartéis turras e da sua movimentação dentro das matas, além do apoio às diversas acções desenvolvidas em redor.
A companhia de infantaria, com os seus três pelotões era a guarda avançada, sempre pronta a sair, só ou enquadrada por outras forças da zona, em acções concertadas, sobre objectivos bem determinados.
À minha companhia competiria esse papel de intervenção permanente, durante os tempos mais próximos. O contacto real com o inimigo iria ser uma constante. Agora é que iam ser elas…
Seja o que Deus quiser…
& 11
O SETE E MEIO
Sete e meio era o nome dado à casa que albergava os alferes da companhia de intervenção e mais alguns dos felizardos, residentes com o comando do batalhão, como o Teixeira, que era responsável pelas transmissões e outros mais.
Era a casa do enfermeiro de antes da guerra. Como aconteceu a tantos outros, foi obrigado a cedê-la, de aquartelamento, aos militares.
Uma pequena moradia, em cimento armado e tijolo, como as que se encontravam em qualquer parte da metrópole, ali, era um palacete de luxo, aos olhos dos indígenas das rudes tabancas de palha.
Uma sala comum , quatro quartos e uma casa de banho, dava a sensação de estadia romanesca, para um aventureiro que viesse fazer uma caçada nas cerradas matas tropicais, ali ao pé.
Éra-nos fácil imaginar, com sadia cobiça, a deliciosa época da vida colonial, de antes da guerra, para os felizardos, a quem a sorte, em boa hora, escorraçara, com a pena de desterro, por feitos heterodoxos à moral reinante das gentes da metrópole.
Era o caso do Sr. Brandão, de Ganjola, a quinze km de Catió, um injustiçado lavrador das terras de Arouca. Ali vivia há dezenas de anos, por assassínio, cometido numa das romarias da Senhora da Mó. No meio dos folguedos e romarias, por vezes, acertavam-se contas atrasadas, duma qualquer hora de desavença, mesmo no fim da missa domingueira.
O Sr. Brandão, agora, era um velhote, rodeado de filhos e netos que foi gerando, ao sabor das madrugadas de batuque e da liberdade de escolha, sem custos, entre as mais viçosas bajudas da tabanca…
Uma negra, velha, mas de rosto e olhar, ainda iluminados por olhos meigos, como a sua voz, doce, era a predilecta, de sempre. Seu nome, - Sexta-Feira. Soava bem aos ouvidos dos falares balantas, fulas ou mandingas.
Era ela quem lhe tratava das tarefas caseiras. Dedicada. Sem nada cobrar, para além do breve e malicioso sorriso do velho Brandão, quando lhe despontava o desejo do seu corpo, negro, sem idade. Podia despontar a qualquer hora. Sexta-Feira ali estava, sempre dócil e submissa.
Uma loja farta de tudo o que chegava na carreira regular das barcaças de Bissau. Os lindos panos de cor garrida e os gordos cordões reluzentes, de fantasia, com que as negras tanto gostavam de se enfeitar.
O vinho tinto da metrópole era o regalo dos ociosos negros, de rostos engelhados e curtidos pelo álcool, pela tarde fora, a par da cachaça de coco.
O saboroso bacalhau, curado nas míticas secas da Figueira da Foz e Aveiro, tão apreciado e toda a sorte de ferragens eram tudo o que aguçava o desejo daquelas gentes, para a troca do arroz, milho, mandioca, galinhas e demais produtos que, em cortejo lento e constante, pelas picadas entre as frondosas matas, traziam em açafates, à cabeça.
O preço era feito, à medida da vontade gulosa do velho, matreiro e bem afortunado, Brandão.
Dizia-se que tinha metade das terras de Arouca…não fosse o diabo tecê-las.
Ali, vivia, pacatamente, como se não houvesse guerra, numa típica mansão colonial, de um piso sobreelevado, com um varandim a toda a volta, com as dependências necessárias à farta panóplia de utensílios, alfaias e mercadoria.
Ficava mesmo ao pé de um afluente do Geba, rico de peixe, onde, infalivelmente, chegavam, em cada dia, as marés vivas capazes de lhe movimentar, de graça, os prodigiosos moinhos com que moía os cereais abundantes.
Conhecia toda a gente, naquelas paragens, incluindo os turras, a quem pagava, com simpatia, os devidos tributos de guerra…quando não era o fornecimento das informações sobre os últimos planos de operações que, por artes obscuras, ali chegavam aos ouvidos bem afilados.
Aquele sítio era estratégico e crucial. Por isso, um pelotão reforçado com uma metralhadora pesada, destacado de Catió, disputava-lhe os largos aposentos, como guarda avançada e tampão às possíveis arremetidas que os turras poderiam desfechar sobre Catió.
Coube-me render o pelotão que ali estava, mal chegámos da ilha do Como. Apesar de constar que nunca tinha havido qualquer ataque, não deixou de nos causar calafrios…
A minha primeira medida foi reforçar a protecção com uma larga paliçada de bidões cheios de terra, a toda a volta. Soubemos depois, que o comandante de batalhão apreciou a medida com um largo elogio à hora do almoço, mal recebeu o meu telex cifrado.
Foi um mês regalado que ali passámos, em gostosa autonomia.
Quando chegou o dia do pré, atrevi-me a fazer o pagamento. Um desastre que me serviu de lição para toda a vida…no final, quase fiquei um tostão do meu soldo, magro!
As ricas banhocas que tomávamos no largo açude que o rio formava, na maré cheia de cada dia, depois de lançarmos umas granadas defensivas, sempre eficazes, para afugentar a gula dos crocodilos abundantes foram um dos nossos muitos lenitivos inesquecíveis…
Quando soou a hora de regressar à base, ninguém se importaria de ali ficar até final da comissão.
Apenas a morte de uma gazela bébé, que não soube criar, me toldou de tristeza.
De volta ao Sete e Meio, não tivemos tempo de nos refazermos daquela bonança padisíaca. Uma operação de envergadura estava programada para as matas densas do Cantanhês.
& 12
Operação Tempestade
Dizia-se que iria ser a maior operação, no sul, desde a da ilha do Como. Todas as companhias da região iriam entrar, além da força aérea vinda de Bissau e a da marinha, de Bolama, com um grupo de fuzileiros e o apoio fulminante das curvetas do Geba.
O dia da saída era uma incógnita; um silêncio estranho reinava em todo quartel.
Os rostos transpareciam visível preocupação e não havia a frequência habitual nos bares exteriores da vila.
Iria ser sempre assim, antes de se saber o destino de cada operação.
Depois, seguia-se a compensação eufórica traduzida de muitas maneiras: o ataque cerrado à cerveja, até esgotar; os casados, com filhos na metrópole, tinham acessos de verdadeira histeria, belicosa, uns, como o Fonseca transmontano, que ponha a caserna em estado de sítio, depressiva e desesperante, outros.
Contra o habitual, o capitão Silva apareceu à hora do rancho, aparentando um ar bem disposto, a meter conversa com a rapaziada da companhia, já estendida pelas grandes mesas de tábuas toscas corridas, debaixo do refeitório e cozinha, atrás do sete e meio.
A notícia não se fez esperar. No final da ceia, estava tudo desvendado. Era nessa noite pelas 2 horas da manhã que a companhia sairia.
Um silêncio fúnebre, nunca visto, caíu sobre a centena de rapazes, apagando a boa disposição que reinava.
Em escassos minutos, as casernas estavam cheias e começava-se os últimos preparativos. Munições a abarrotar. 3 carregadores de cada cartucheira e as granadas de mão que cada um quisesse levar; ainda não se tinha a verdadeira noção do poder de fogo que representava uma carga simples das cartucheiras.
O receio de se verem sem munições, defronte aos turras, era medonho. As bazookas e os morteiros; os rádios e o material de enfermagem de primeiros socorros eram a principal preocupação.
Nem foi precisa a habitual insistência e controlo dos chefes. Tudo era mais importante que as próprias rações de combate. Excepto o tabaco, para os fumadores…
A maioria não se deitou, até à hora de partir.
No sete e meio, a preocupação dos 3 alferes não era menor, apesar do disfarce dos trinados da viola a acompanhar a voz rouca do Sasso, nos fados da sua Lisboa amada, tão distante…
Eu deitei-me por cima da roupa, abrigado no mosquiteiro, e ainda passei pelas brasas, depois de me confortar no segredo da minha fé…
O pelotão negro do comandante João Bacar Jaló estaria à nossa espera na tabanca dos fulas, mais adiante.
Estes eram uma força de indígenas destemidos que iriam à nossa frente. Conheciam a selva melhor que ninguém.
No decurso da nossa comissão, haviam de revelar-se um precioso escudo. Tantas vidas nos pouparam, sob o comando daquele chefe nativo, com uma capacidade e qualidades de comando admiráveis e inatas.
O comandante de batalhão, tenente coronel Arsélio e vários oficiais vieram despedir-se da companhia, à porta de armas, virada a sul.
O capelão militar, um anafado salesiano, inseparável da sua apaixonada batina preta, bem disposto, também lá estava a amenizar a partida, com os habituais gracejos de quem fica, mas visivelmente preocupado…
Uns 50 metros à frente, e já nada se via do quartel que deixávamos, tal era o nevoeiro, carregado de cacimbo denso.
Íamos percorrer, no começo, o mesmo trajecto da estrada de Cufar, o mesmo onde tínhamos recebido o baptismo de fogo, tempos antes.
Lentamente, em fila indiana, espaçados, quanto possível, sem nunca perder de vista o camarada da frente, a caminhada nocturna começou.
Ao longe, ouvia-se o mesmo ribombar desconexo e o mesmo matraquear cavo de tambor, nas tabancas, em redor.
O ladrar dos cães, disperso, fazia-nos pensar que poderíamos estar, algures, no meio dos montes alentejanos, não fosse o lúgubre piar constante das aves nocturnas, já nosso conhecido… a esvoaçar, medonhas, por entre a folhagem negra das matas cerradas, sempre presentes.
As primeiras arremetidas do sono da madrugada venceram-me os passos, lançados já de forma automática e dei comigo a andar e sonhar, de pé, ao mesmo tempo…
Eram já muitos os quilómetros de caminho sem parar e a alvorada parecia dar os primeiros sinais. O firmamento negro clareava lentamente. Tudo corria normal e a descontracção foi-se apoderando de todos.
O amanhecer, dizia-se, era a altura mais propícia a emboscadas. Os turras sabiam-no bem. O sono e o relaxamento diminuíam os necessários cuidados de vigilância e o mais provável era que a nossa saída e trajecto fossem já do seu conhecimento.
Uma primeira chicotada, logo ao raiar do dia, tería um efeito desmoralizante sobre nós, os invasores dos seus domínios, enquanto eles se organizavam, em defesa, ou, simplesmente, poderiam desviar-nos da rota que levaria ao seu quartel.
Via-se agora umas cubatas de palha, sem ninguém lá dentro. Tinham debandado, há pouco. Galinhas e porcos a correr desorientadas com a nossa chegada.
Não havia dúvida de que já estávamos detectados. A reacção deles estaria, por certo, iminente.
Veio a ordem de incendiar as casotas. Era preciso enfraquecê-los, de todo o jeito. Um pouco mais e as labaredas devoravam-lhes o colmo seco deixando só e nuas as paredes circulares de adobe avermelhado, agora ressequido e negro pelas chamas e volutas de fumo espesso. Espectáculo dantesco, aquele…nunca visto.
Os toscos utensílios da vida rudimentar, umas mesas e panelas de alumíneo, ardiam ou ficavam calcinados e retorcidos.
Os ânimos exaltavam e a vontade, paradoxal, de encontrar resistência crescia dentro de cada um.
Já não era a razão do ideal que nos impelia, mas a vontade cega de sobreviver e regressar …tranquilos com a sensação duma razia inflingida.
Mas não foi assim.
Uma chuva de metralha aérea desabou umas centenas de metros mais à frente, durante uma hora e tal, pelos nossos bombardeiros, ronceiros, de um só motor.
Seguiram-se descargas de artilharia, veementes, sem resposta de ninguém. Os altos comandos sabiam bem o que estavam a fazer.
Nós tínhamos descido para a borda de um longo descampado de bolanhas em cultivo, por razão de segurança e passávamos a meros espectadores daquele espectáculo verdadeiramente empolgante.
Lá em cima, a fumarada do rescaldo, no seio da mata, subia para o ar, em ondas de cacimbo negro.
Por volta do meio dia, quando nos preparávamos para comer a primeira ração de combate, silvos agudos, vindos da altura do céu, cada vez mais perto começaram a descer sobre nós…partidos, não se sabia donde.
O pressentimento de que eram granadas de morteiro que ali vinham, terríveis, fez-nos precipitar nos regos mais fundos da bolanha, indiferentes à água encharcada ou às cobras mortíferas, que tínhamos visto serpentear por ali, esverdeadas e abundantes.
Uma sequência de estrondos fortes, seguidos de uma chuva de lama espessa em redor, salpicou-nos, desordenada, em toda a área onde nos encontrávamos. Alguns de nós, já mergulhados, só de cabeça fora de água.
Era impossível que não houvesse mortos ou feridos. E muitos, tal foi a intensidade e o acerto da pontaria.
Pareceu uma eternidade de silvos lancinantes e estampidos, ali ao pé. Só no fim se saberia… Fugir, nem pensar. Atacar, para onde?…
Apesar de tudo o cabo dos morteiros, corajoso, ainda fez subir algumas granadas, ao acaso, pela mata e umas bazookadas partiram loucas e à sorte, sobre o sítio do fumo.
A nossa artilharia não se fez esperar, retumbante, para nossa salvação, durante longas horas a seguir, sem deixar um metro por metralhar.
Fora a resposta implacável à nossa barbárie da manhã.
Felizmente, nem um só ferido!…Parecia impossível…com tanto rebentamento. Não queríamos acreditar…
A metralha da artilharia fora eficaz. A pouco e pouco, a calma voltou e pudemos retomar a bem merecida refeição do meio dia, interrompida…
Depois, foram umas longas horas de repouso, à espera de ordens.
Entretanto, o tiroteio distante não parara, segundo os altos planos, desconhecidos.
A tarde avançava lenta e os ânimos sairam exaltados daquele banho de fogo, sem consequências…
Havia que procurar um local seguro para pernoitar. O capitão Silva, sereno, fez chegar a todos os pelotões, a ordem de seguir. Avançámos para o interior da bolanha imensa, para bem longe das matas ameaçadoras. For a do alcance das metralhadoras.
A ordem de acampar chegou. Havia que distribuir os homens por forma a evitar o perigo do fogo que poderia vir da orla das matas, distantes.
Do lado oposto, ficava o rio largo, onde andavam as curvetas amigas da nossa marinha.
Uma escala de sentinela foi montada para acautelar a aproximação atrevida de um eventual golpe de mão dos turras.
A lua começou a erguer-se, em balão de fogo, sobre as copas frondosas de palmeiras ondulantes, ao longe, iluminando em esplendor a manta de neblina densa que nos envolvia majestosa, como só na África se vê…Era um espectáculo de beleza estonteante, a prendar-nos todo o susto da manhã.
Podíamos dormir descansados. As cobras de água tinham sido afugentadas com meia dúzia de granadas defensivas, o remédio certo para todos os males.
Quando pegávamos no primeiro sono, profundo, reparando o cansaço de uma noite por dormir, em caminhada longa, de muitas léguas, uma chuva de fogachos tracejantes varria, alta, as copas das matas medonhas, pensávamos nós, para nosso bem…
Vinha das curvetas do rio, por cima de nós. Lentamente, o fogo foi baixando, ameaçador. Não queríamos acreditar.
Por instinto, toda a gente saltou para o lado contrário dos muretes de lama que dividiam a bolanha, virados para a mata.
Em boa hora o fizémos. O fogo varria–nos, a todos, impiedoso.
As balas explosivas rebentavam surdas nos muretes à nossa frente, terrificados, encharcando-nos de lama. De vez em quando eu dava uma mirada sobre o meu corpo a ver se ainda estava inteiro…
Um soldado, mais incrédulo ou apenas dorminhoco do sono profundo, não quis fazer o mesmo e foi, irremediavelmente, despedaçado ao meio da cintura…
O capitão Silva agarrou-se ao rádio, vociferando, desta vez com justiça, todos os impropérios que ele sabia, a tentar avisar a marinha, assassina, de que éramos nós…a companhia 728 que ali estava. Em vão. A ordem era para desfazer todo o ser vivo que mexesse.
Um grande equívoco que poderia ter custado vidas sem conta. Para esquecer.
Ninguém mais pregou olho nessa noite, inesquecível, até ao romper da manhã, a mais longa de sempre.
Tínhamos recebido já o baptismo, em fogo brando. Aquilo era a verdadeira confirmação, em brasa,…de guerreiros.
Para compensação, no dia seguinte, fomos poupados, pelos altos comandos, a qualquer acção.
Dali regressámos, a pé, por bolanhas e bolanhas sem fim, na linha mais direita, até Catió, guiados pela bússola do capitão e o instinto felino do chefe João Bacar Jaló.
À porta de armas, virada a sul, lá estavam, à nossa espera, o comandante de Batalhão, mais o seu cortejo “das damas guerreiras, só de estufa”. O simpático capelão, de ar compungido, a perguntar a cada um, como tinha corrido.
- Ó Sor Padre. Até rezei, caralho!...exclamou-lhe, o ateu confesso, o furriel Cunha, o enviado do alferes Teixeira, “uma das tais damas de estufa” , responsável das transmissões.
- Diga palmeira, senhor - atalhou, o capelão, afável…meio a brincar, meio a sério.
- Até rezei, palmeira…palmeira? Palmeira, não..,Até rezei, Caralho! Assim é que foi…caralho. Acresecentou o furriel, repondo a verdade dos factos…
- Está bem, palmeira !… - retorquiu, compreensivo e puro, o capelão, dentro da sua batina preta.
Uma bela bifalhada da vitela que o comandante de batalhão, na sua peculiar bonomia, mandara abater, de propósito, acompanhada de uma cerveja de litro, fresquinha, foi a melhor prenda daquela noite de glória …depois de um saboroso duche da água dos bidões.
Durante quinze dias, podíamos ficar descansados, à espera da próxima…
Para onde seria?…Era a tremenda incógnita.
& 13
CATIÓ, NO DIA A DIA
Os dias que se seguiam a uma operação, até ao máximo de três semanas, eram, quase de repouso. Davam para saborear o fascínio africano de Catió.
A omnipresença dos militares, de caqui amarelado, a vaguearem, aparentemente, descontraídos, era a única nota dissonante naquelas paragens, envoltas em perfeita harmonia natural.
A força pujante da natureza vestia a vileca de Catió de um manto permanente de verdura imensa.
As árvores, verdadeiramente dinossáuricas, no arcaboiço dos troncos descomunais, no porte de altura imensa, a desafiar as nuvens, no entrelaçado dos ramos musculosos, onde saltavam e conviviam, em uníssono à-vontade, famílias de macacos e bandos de aves gigantes, coloridas; se escondiam, terríveis, os ofídeos esverdeados, de mordedura imperdoável;
O chão avermelhado, onde sobressaíam os rendilhados caprichosos feitos das nervuras de terra, esculpidas magistralmente, pelas enxurradas da última época de chuvas, cobria-se, por toda a parte, de uma manta de folhas e de mangas amarelecidas, caídas, aos montes, daquele dossel colossal;
Por ele, corriam, tresmalhados, à solta, bandos de pretitos encaracolados de olhos redondos, vivos e doces, atrás dos arcos, de rodas de bicicleta; cirandavam mães pretas, de pele luzidia ao sol, com os filhitos, gorduchos e tranquilos, bem refastelados às cavalitas, num pano de cores, preso à cintura e açafates a esbordar de frangos, vermelhuscos ou de frutos da tabanca;
Velhos negros, agarrados a um pau, da sua altura, de corpo nú e olhar mortiço, coberto por um simples pano a caír-lhes, em largas pregas, passeavam-se, por ali, cambaleantes, pelo último trago de cachaça de coco…
De vez em quando, outros negros, de idade madura, altos e esguios, óculos escuros, barretes altos, vermelhos ou brancos, com vestes largas e elegantes, a caírem, majestosas, até aos pés, nús e espalmados no chão, ou montados em velhas bicicletas inglesas, muito limpas, seguiam, vaidosos, debaixo de um largo guarda-sol, até ao largo da Administração, no cumprimento das muitas normas do seu apertado estatuto colonial, ou, simplesmente, se dirigiam ao grande armazém comercial, onde nada faltava, ou ao alfaiate que lhes preparava o último fato, feito de encomenda e por medida.
Na pequena igreja branca, simpática, de linhas modernas, bem situada na zona central, tal como a escola primária, agora entregue aos cuidados do capelão militar, via-se o habitual formigar de crianças, vivaças, de todas as idades, saltitantes e entregues aos mesmos jogos da minha catequese, distante.
A sineta não parava de dançar, em cada dia, puxada pelo atilho que descia desde o alto sobrelevado da frontaria da igreja, ora para a catequese, ora para a missa.
Nunca vi uma procissão dos ramos, tão rica, de grandes ramos de palmeiras, nas mãozitas negras da pequenada, tão viva e vibrante como naquela, das duas páscoas, lá vividas…
Nas esplanadas dos dois únicos bares da terra,- o Tombali e o do Zé Siriano – estendidas, por baixo do frondoso arvoredo tropical, não faltava a cerveja fresca, o marisco baratíssimo e abundante e tudo o mais que pode regalar o calor das tardes de verão tropical.
Muitas vezes, se acendia uma fogueira para assar um açafate de ostras perfumadas que uma preta nos vendia por 12$50.
Era o “five oclock’ ostra”, tão saboroso, com molho de manteiga e limão, o momento mais alto da rapaziada, a par das noitadas, luarentas, sem fim, a ver a dança escaldante das bajudas, no terreiro das tabancas, ao som frenético de tambores e assobios.
De vez em quando, um passeio, a pé, pelas tabancas em redor, sabia bem. Mas, cuidado. Sem, nunca esquecer a pistola Walter…
A figura do tecelão e do ferreiro são inesquecíveis…
Ao longo de 50 ou mais metros do caminho, ao sair da tabanca, sentado no chão, ali estava, impecavelmente improvisada, a oficina do tecelão.
Era um fula ou um mandinga, Via-se pelas vestes brancas, de muçulmano; magro e muito ágil; rosto, anguloso, expressivo nada bolachudo, como eram os balantas. Cor, de um preto afogueado…
As linhas, aos milhares e de todas as cores, iam rodar lá longe no tronco de pau bem polido, bem ordenadinhas e vinham ter ao pente largo da geringonça, muito simples, de madeira, postada diante das pernas do artista.
Só o essencial de um sofisticado tear ali se encontrava, bem funcional.
Os movimentos ritmados da mão direita, agarrada a um pau, faziam girar, em vaivém certinho, a bobine de linhas, bem abastecida, desde aquelas fiadas compridas que vinham de longe…
O tecido, por verdadeiro milagre, ia aparecendo, harmonioso e firme, na cor e no entrelaçado… ia, logo, enrolar-se ao rolo da recolha. Bonito, de cores vivas, muito bem combinadas!…
Vía-mo-los, depois, a gingar nos corpos das moças, pujantes e sensuais que, por ali, cirandavam, serenas e abundantes.
O ferreiro era outro artesão, característico.
A oficina estava toda ali, estendida no chão do caminho, à frente dele:
Ele, também, é um típico fula ou mandinga; rosto, nobre e bem desenhado; sorriem-lhe os olhos, tanto como a boca onde reluz uma dentadura, natural, de respeito.
As vestes são de panos brancos e largos, enlaçados nas pernas, como só eles sabem compor.
Uma fogueira de cavacos de que só eles conhecem o poder calórico.
Um fole de pele, tosco feito pelas próprias mãos, injecta ao fogo ondas de gás roubado aos ares, como se fosse o mais puro oxigénio industrial.
Os pedaços de alumínio recolhidos nas lixeiras, são ali moldados no que ele muito bem quiser.
Do ferro das catanas velhas sai tudo o que lhe der na ideia. Com precisão. Às primeiras marteladas de outra catana velha, que lhe faz de martelão certeiro. Também, ali, é verdade o refrão: “ Em casa de ferreiro…”
Toda a panóplia de bugigangas que se vêm à venda nos escaparates das lojas ou estendidas nos panos do mercado, e que nos regalam os olhos ocidentais, são feitos, ali ou, algures, noutra tabanca qualquer, do mesmo modo…
A sua simplicidade é encantadora. Parece não ter consciência do verdadeiro artista que é.
& 14
O HOMEM GRANDE
A seguir, vem a casa do homem grande. E era mesmo, em estatura e no porte, ao mesmo tempo, nobre e altivo, majestoso mas simples e cortês. Era um verdadeiro senhor, brotado da natureza; sem escolas ou figurinos.
Mal entrevia a nossa chegada, a partir da varanda fresca, típica, africana, onde quase sempre se encontrava expectante e disponível, da sua casa, implantada em lugar cimeiro, mais asseada que as outras, ali, vinha a receber-nos, prazenteiro, vestes brancas escorridas dos ombros, altos, cabeleira, robusta, totalmente branca e completa, só a cor preta desaparecera, logo vinha dar-nos as boas vindas.
Sabia quem éramos e, até, o nosso nome.
Ele era a autoridade máxima da tabanca, competente para resolver todos os diferendos surgidos no clã de que era o chefe eleito.
Era um homem íntegro, segundo os cânones da tribo, e também, segundo os nossos.
Comprovava-o a aceitação pronta e total de qualquer pretensão que lhe fosse apresentada pelas autoridades administrativas ou militares.
Tudo o que quiséssemos saber, sobre os complexos costumes e normas indígenas, ali estava sempre à vista e ao dispor, em ricas horas de amena cavaqueira.
& 15
O DIA FINAL DO ALFERES SASSO
As densas matas do Cantanhês, só de ouvir o seu nome, causavam calafrios aos mais corajosos…
Aí, se acoitava uma forte concentração de casas mansas, uns verdadeiros fortins inexpugnáveis, mesmo à força da intensa metralha de artilharia.
Podia dizer-se que ali se encontrava o quartel general, inimigo, da zona sul da Guiné.
De lá saíam expedições constantes de grupos a espalhar a insegurança por todos os nossos aquartelamentos, quer por emboscadas quer por ataques às unidades isoladas.
Além disso, controlavam uma população nativa muito numerosa que, voluntariamente ou não, trabalhava os campos, fonte principal do seu abastecimento.
Por todas estas razões tornou-se premente efectuar uma grande operação que desagregasse aquele bastião.
Foi o que se pretendeu com a operação “ Tornado ”.
Os três batalhões sitiados no sul, com as unidades de artilharia e cavalaria, mais um grupo de fuzileiros e uma LDM, ajudados pela força aérea, ficaram responsáveis por esse objectivo.
A companhia 728, aproveitando a maré-cheia, saíu, à noitinha, do cais de Catió a bordo de uma LDM; atravessou o estuário do Cacine e foi deixada, nas primeiras horas da madrugada, algures em terra firme, do território inimigo.
Todo o cuidado era pouco.
Tocou ao meu pelotão seguir à frente, logo depois do destemido grupo indígena do João Bacar Jaló.
Caminhou-se toda a noite; quando o dia começava a querer alvorecer, estávamos a atravessar a zona, crítica, de Dar es Salam; De repente, alguns tiros caíram sobre o pelotão que seguia na cauda da fila, comandado pelo alferes Sasso.
A resposta foi pronta e, depressa, tudo se calou. À frente, nada se tinha passado.
Só quando o dia nasceu e um helicóptero chegou, tivemos conhecimento de que o Mário Sasso tinha sido atingido com um tiro nas costas que lhe vasou o pulmão e coração. A esperança de sobreviver era pouca… e assim foi.
& 16
REGRESSO A BISSAU
À cadência de uma grande operação de 15 em 15 dias, o tempo foi passando penosamente. Os olhos estavam cada vez mais presos ao final da comissão. Acima de tudo, havia que defender a pele…queimar o tempo da melhor forma e regressar inteiro de cada saída.
Uma ida a Bissau, por umas breves semanas, de vez em quando, por desgaste nervoso, não era difícil de conseguir, junto do castiço médico tripeiro.
O alferes Arlindo, cujo pelotão, logo de início, fora distribuido pelos restantes pelotões, como melhor forma de gerir a companhia, como sub-comandante, por si e oficiosamente, estava sempre disponível para suprir as nossas preciosas ausências.
São inesquecíveis aqueles descolares trepidantes na pandeireta desengonçada do Dornier do correio, a vencer, raivosa, a minúscula pista de terra barrenta e abaulada, ver a geometria das ruelas esquadrinhadas de Catió a afastarem-se, lá em baixo, as bolanhas verdes e imensas recortadas pelos braços tentaculares duma rede serpenteada de rios mansos e uma manta espectacular de matas densas, pejadas de turras no seu seio e de aparência tão calma, e chegar ao casario mais denso de Bissau, meia hora depois.
Três semanas de liberdade no bulício pitoresco de Bissau, com o vigor dos vinte anos, nas esplanadas dos cafés, onde a cerveja e os amendoins eram deliciosos, entrar nos fartos armazéns da CUF, recheados de tudo, com dinheiro no bolso, percorrer as tabancas negras, com os galões de alferes nos ombros, saborear, ao vivo, as vibrantes mornas e coladeras nas bamboleantes caboverdianas, naturais, passear ao longo do Geba, ressumante de vida, entrar ou assistir às missas africanas da catedral, davam para esquecer todas as angústias acumuladas no interior da guerra sangrenta.
Em finais de Junho de 66, a tão ansiada noticia da rendição da companhia chegou. Ninguém queria acreditar. Mais cedo do que o esperado…porquê, nunca se soube…
Sem regatear confortos, toda a companhia coube numa velha embarcação de madeira da carreira regular, à mistura com indígenas, mulheres, crianças, galinhas e toda a bicharia doméstica… a servir de escudo protector. Eficaz.
O regresso a Bissau foi muito mais saudado por toda a gente que, dois meses, após, iria ser a viagem no faustoso Uíge, transatlântico…para Lisboa, depois de todas as desparasitações, intestinas, da praxe.
Aqui, foi mais a sensação do acordar de um terrível e estéril pesadelo…
Mal sabíamos nós que outro iria começar. A Pátria atenta e carinhosa que nos mandou p’ra guerra não foi a mesma que nos acolheu…ingrata, como, com justeza, clama o certeiro e bem merecido
HINO
AOS COMBATENTES DO ULTRAMAR
1
Corriam os anos sessenta.
Os clarins da guerra ressoaram, frementes,
Nos céus de Portugal, há muito,
Por artes do divino, do fado ou do destino,
Terra de paz, alegria e brandas gentes.
A cobiça de corsários, falsos,
Arautos das ideologias, vãs e malsãs,
Da igualdade e da fraternidade,
Servos do capital, cego e voraz,
Só do ouro, petróleo e diamante,
Da madeira, rica e do minério abundante,
Em filões,
Vestiu, de agna pele, e fez aliados,
Os eslavos cegos, os yanques e os saxões.
2
Avançar p`ràs terras da Índia, distantes,
E africanas, bem portuguesas.
Já e em força.
Foi o grito, presidente.
Imperativo, indiscutível, se tornou.
Defender as gentes e os haveres,
Muitos e imensos,
Até ao extremo,
Como glórias, lusas e sacras. Nossas.
Foi o lema, pronto e certo!
Queira ou se não queira,
A história do porvir, logo, aberto,
Bem claro, o demonstrou:
3
Aos sonhos do trabalho, da escola e da esperança,
Na flor d’aurora e no fulgor primeiro,
As gerações sucessivas, a gente jovem,
Pronta e digna, disse, adeus…
Vestiu farda e pegou armas, de guerreiro.
Fez-se aos mares, rasgou os ares,
Correu riscos…tantos… sofreu tormentos.
Só Deus o sabe…
Ofereceu tudo, a saúde e a vida, pela Paz!
Oh!Loucura e vã tristeza!… Para quê?!…
Tudo… em vão!
4
Com os ventos da discórdia,
em desvario e revolução
Não foi a mesma a pátria que os acolheu!
A que os mandou à guerra,
Cobarde e lesta, se despediu…
De tudo, aquela, hipócrita, se esqueceu.
Ou, bem pior, tudo… denegriu:
O sangue, o suor e as lágrimas,
Que Portugal, inteiro, verteu.
Ficou tudo letra morta…
5
Desfeitos os sonhos, a noite de bréu
Dos novos mundos, incertos,
Pós-revolução,
Toldou-lhes as vontades traídas
E, em pé de igualdade, abertos
Foram os caminhos da fortuna,
Da escola e do sucesso…
Como se nada fosse e nada houvesse,
Ou
Do zero, tudo começasse…
Oh!…Vil e imperdoável traição,
A desta pátria, secular…
Que tão ingrata se tornou
Para os guerreiros nobres do ultramar!?…
EPÍLOGO
ROMAGEM A VARZIELA
(24 de Julho de 1999)
A Tia Freirinha está cá a passar um mês de férias. Desta vez, em casa da Alexandrina. Há 12 anos que está na ilha da Madeira. Já fez 76 anos. A saúde não é muita. O coração, os ossos derramam-lhe sofrimento perturbante. Já esteve várias vezes no hospital, em cuidados. Pensei ir vê-la, ao Funchal. Mas …não tem sido possível. A Superiora já me disse muitas vezes que a casa está às minhas ordens.
Mal soube da vinda, prometi ir vê-la.
Pus-me a caminho no CORSA, para Aveiro. A Any preferiu ir de comboio. Cheguei às 18 h. Fui comprar umas calças e umas camisas de que estava a precisar ao Sr. Vale.
Um achado. Com 16.500$00, fiz a festa. O proveito deu para gasolina.
Às 20h.30m. fomos esperar a Any ao comboio. Jantar dos 4 no Mercantel. Ainda houve uns arrufos de mau génio…Mal chegámos a casa, fui deitar-me, ansioso pela viagem do dia seguinte, até Varziela. Eram 7 horas quando arranquei das Quintãs.
Uma manhã doce e fresca. A auto-estrada até Penafiel, permitiu-me chegar à Igreja Velha, pelas 9 horas. Virei à esquerda e fiquei diante do pequenino adro da igreja que me baptizou. Tão grande me parecia, quando ia lá à missa e catequese ou aos ensaios da 1ª comunhão e da comunhão solene. Estava fechada. Dei uma volta em redor da igreja. Muito bem cuidada. Lembrei as procissões que o bondoso Padre João fazia às quartas-feiras de cinza. Quando ia aos enterros, vestido de opa amarela, vermelha ou roxa, conforme a idade. Estavam ligadas às Irmandades de São José, do sagrado Coração de Jesus…as procissões até Pedra Maria, ida e volta. Duravam horas sem fim, num cortejo em que seguia a freguesia toda, apesar do trabalho. Primeiro as devoções e depois as obrigações… agora é o contrário.
Apareceu uma mulher dos seus 50 e tal anos. A cara não me era estranha. Foi pôr umas flores dentro da igreja, enquanto eu me pus a sacudir os tapetes do carro que bem precisavam.
- Lembro-me muito bem de quando você era rapaz…
De propósito, omitiu que era de quando eu andava a estudar para padre, como se dizia. Desistir era então uma vergonha…Agora as coisas mudaram. Já não se vai para padre aos 10 ou 11 anos.
- Conheci muito bem a sua irmã Delfina. Do meu tempo de escola e catequese. A sua tia Ilda, não era velha… A tia Esperança. A idade não perdoa.
- Então, quem mora aí na casa do Dr. Amorim?
Lá me pôs em dia, acerca da abundante descendência de sobrinhos, já ricos, antes de herdarem a vasta fortuna imobiliária da Casa da Igreja. Assim, era conhecida a grande quinta espalhada pela freguesia. O Tónio da Igreja,o feitor, nela enriqueceu e por ela pôde ser muitas vezes, o usurário nas aflições da freguesia. Também lá está.
Uma voz de mulher ouviu-se de dentro das portadas da casa do Dr. Amorim. Ireninha, venha ao telefone. Mera estratégia de a libertar da conversa com um estranho. É perigoso dar conversa a desconhecidos. É bem verdade, nos tempos que correm. Despedimo-nos. Ela já estava perfeitamente à vontade, porque sabia bem com quem estava a falar. Eu sou filha do Sousa Pinto. Bem me lembro do seu pai. Era freguês do meu, o alfaiate da aldeia.
Fui dar uma volta pelo caminho que dava para a Quinta da Seara e para a casa dos meus avós paternos, na Bouça da Pia. As pedras de granito cinzento-azulado, do velho muro, encastelado, revestido de musgo raiado a ouro castanho-escuro, que cerca o quintal do Dr. Amorim, por onde pendiam cachos de uvas gordas, tintas. Lá estavam, tal e qual. O penedo redondo por onde vínhamos a escorregar, com o sacrifício inexorável das calças, apesar da almofada feita de fetos, ali colhidos. Já poído, lá estava ainda e com o mesmo papel, como deixava pensar a mesma superfície, a reluzir de limpa.
Dos velhos eucaliptos e carvalhos frondosos, ainda sobravam alguns. Em vez da cortina cerrada de arvoredo, de então, agora via-se tudo até aos Montes dos Perdidos, ao longe. Tudo parecia mais perto. Dos abundantes penedos, encrostrados nas encostas nada sobrava. Todo o casario que as reveste, longas, foi erguido com as pedras deles esquartejadas, à força de dinamite e de cinzeladas teimosas dos abundantes pedreiros artesãos, já desaparecidos.
Um deles, foi o tio Armindo, o primeiro a aperceber-se e a aproveitar aquele filão de riqueza natural, aparentemente, inesgotável. Todos os vinhedos daquela zona de vinho verde foram erguidos nos esteios, compridos, cortados pela sua mestria com os guilhos que ele mesmo e a valente mulher, a tia Esperança, aguçavam na forja própria, construida, atrás da casa na Bouça da Pia.
Tomei o carro e fui ver a minha escola primária. Subi a barroca íngreme que tantas vezes palmilhei a pé descalço, por baixo da ramada alta e verde, cheia de sombra. O recinto enorme, então, parecia-me minúsculo. Está empedrado. É-me impossível imaginar os entusiastas campeonatos de futebol ali jogados com bolas de trapos.
O edifício da escola, de paredes nuas de granito, lá estava, restaurado, mas desabitado. Assomei aos vidros das janelas e a sala de aulas, já não era tão ampla, mesmo sem as carteiras escolares. Estava transformada em salão de ensaio do rancho folclórico de Varziela.
Os tempos tudo mudam no seu caminhar lento do dia a dia.
Não segui o caminho interior que ia dar à casa da Estrada, do Sr. Peixoto, onde, dantes, havia perús, patos e pavões garridos. Desci e rumei para a igreja de Pedra Maria.
De carro, foi um instante. A pé demorava uma eternidade. O adro estava deserto. Empedrado e limpo. Com meia dúzia de cedros ramalhudos esguios e de um verde escuro distribuem-se pelo adro derramando uma sombra pobre. As árvores seculares do meu tempo eram muito mais bonitas. De ramos grossos e espalhados davam para subir até eles e para ninhos do passaredo. No chão, havia erva relvada atapetando as correrias de pé descalço e proporcionavam agradáveis cavaqueiras à miudagem, na canícula das tardes de verão, deitada no chão fofo e perfumado.
Abeirei-me das grades altas de ferro forjado que cercam o cemitério. Uma vaga de saudade irrompeu no peito, sufocando-me a respiração. Os olhos ficaram turvos e doces lágrimas escorreram quentes pela face. Uma núvem de sombras em ecran gigante bailou diante do meu olhar. Tantos que me acarinharam nos primeiros passos estavam ali, diante de mim, em êxtase de saudade. Os meus pais. A minha irmá Delfina. Tão nova e agarrada à vida. Os meus avós, os tios. Ilda. Esperança e Armindo. Vizinhos.
De uns instantes de mágica evocação, misto de dor e bem-estar, desci por cima de um muro que ladeia o quintal do Abade e vai dar, depois de concluidas as obras, à porta lateral do fundo. A principal estava fechada por causa do vandalismo moderno.
Uma suposta viúva, toda de preto, estava a enfeitar a campa do marido recém falecido.
Procurei as campas dos meus. A primeira a aparecer foii a dos avós - JOSÉ e EMÍLIA. Duas fotografias dos seus trinta e tais anos, davam-me os traços que , hoje, encontro nos meus parentes. Rostos austeros e cheios de bondade, de linhas bem desenhadas , a do avô, sublinhada por um nobre bigode, imprescindível; a da avó, linda senhora, com olhos vivos e profundos.
Cheios de vida, vi-os falar nas minhas constantes visitas, furtivas, desde a minha casa, enquanto os meus pais laboravam na oficina de alfaiate, na encosta soalheira de Pedra Maria, na casa nova.
Sem perigo, deambulava num e noutro sentido, como se os dois lares fossem nossos. Lá recebia os carinhos de avós mais pacientes, apesar dos inúmeros netos que lhes entravam pela porta dentro.
Lembro o avô pachorrento e tolerante. A avó, mais preocupada com a economia da casa. Era mais parca nas atenções. Mas a atmosfera era de quente carinho. As imagens últimas que dela conservo, são da avó já presa à cadeira, entravada. O avô já não o voltei a ver depois de regressar da guerra da Guiné. Falecera em 1965, estava eu em Catió.
Depois, a campa dos meus pais. Formosos. Um belo par. A Sandra é o retrato da mãe Leonor, uma estrela; o Rogério, calmo e generoso, perpetua o pai, Joaquim.
Na mesma campa, desde há dois saudosos anos, o retrato da Delfina. Jovem. Acompanha-os no sono eterno, como fruto do amor de ambos. Sinto uma força a puxar-me num abraço que só o sangue do meu coração traduz. Os olhos voltam a orvalhar de êxtase e saudade como nunca senti. Doces pérolas escorrem-me, em dor profunda.
Despeço-me e vou continuar a romagem.
Pelo telemóvel, a Alexandrina está pronta a seguir com filhos e netos para um dia de praia na Póvoa de Varzim. Lamenta não poder receber-me, na visita à Tia Alice. Ficou com a Tia Aurora. Compreendo.
A casa da tia Aurora fala-me muito mais. Há muito que lhe prometi uma visita. Quantos bons momentos da minha meninice ali passei, com ela, o tio Almeida, o Fernando e a Alexandrina…
Dirijo-me para lá. Antes, porém, pude entrar na minha igreja de Pedra Maria. O jovem sacristão preparava-a para o Domingo seguinte. Subi as escadas de granito da minha infância. Entrei pela sacristia. Familiar. Asseio e sinais de outras posses revestem todo o interior. Entro na capela. Os olhos doces e maternais da imagem da SENHORA DE PEDRA MARIA tocam-me a alma de criança e vêm ao meu encontro, carinhosos. Não é imaginação. É real o acolhimento que me envolve, como um filho que já não vê a MÃE, há muito tempo e regressa a casa. Sinto-me em casa. Vagas de recordações me perpassam, à vista maternal da SENHORA que é Máe de todos os nascidos em Varziela.
Em relance amplo e profundo, de enlevo inefável, consigo alcançar todos os momentos de alegria e de tristezas que fizeram a minha infância e juventude vividos naquele torrão familiar…
Desço e dirijo-me para asa da tia Aurora, através do estradão de Pedra Maria. Passo em frente da casa do Abade que conheço desde os meus 12 anos. Ali envelheceu até aos seus setenta e muitos. Bato a aldraba da porta da frente. Gesto tanta vez repetido durante as sucessivas férias do tempo de seminarista. Era ali o meu posto de controlo. Quem me abria sempre a porta, doce e prazenteira, era a irmã do Abade, a Rosinha, que com a mãe lhes governavam a difícil e trabalhosa casa de pároco. Ambas já lá estão…
Por isso é que foi uma figura desconhecida que apareceu. Anunciei-me como o Quim Luís, o ex-seminarista. Logo surgiu o Abade Joaquim, na sua batina preta e cabeção branco no pescoço. Os concílios, Vaticanos I, e II, não estavam muito bem acolhidos. Pelo menos nas vestes talares. Compreendi bem as razóes.
Os créditos gratuitos que a roupagem clerical lhes rendiam, fosse qual fosse o grau da hierarquia, eram abundantes, perante o outro mundo dos leigos…
Por timidez ou por qualquer outra reserva mental, o acolhimento foi formal. Apenas um cumprimento de cerimónia e um meio sorriso nos lábios e as perguntas do costume.
Levemente surpreendido com a secura da recepção, voltei costas e desci para o meu CORSA fiel.
Passo devagar diante da da casa velha que os meus pais deixaram nova, tão novos. Agora é do Rogério. Não vive lá por causa do seu Intermarché, na longínqua Póvoa de Lanhoso. Voltas da vida…
Continuo.
Abro o portão de ferro. O habitual chiar dos gonzos anuncia a presença de alguém. Avanço para a porta da cozinha. Agora, já é de alumínio, cor de bronze, tal como as janelas daquela casa secular. Uma laje de granito ao cimo da porta principal regista a inscrição tosca de 1871. Nela vivem de renda, desde, talvez, há mais de 50 anos.
Quis o destino que aquela casa construida e implantada pelos meus bisavós paternos, viesse a ser a casa da neta Aurora e marido Almeida.
Dizem que a família dos TRINTA era gente de posses. O bisavô era comerciante de presuntos e enchidos defumados em casa. Porque lhe chamavam de TRINTA, não consegui saber, ainda. Mas presumo que, além da bisavó… talvez houvesse mais 29…amadas. O malandreco!…
Talvez tenha sido essa a razão de as vastas terras que possuia, terem ido à praça e adjudicadas ao bem situado Juiz Dr. MALTEZ. Os seus descendentes são os actuais senhorios…
A porta entraeabriu-se, em gesto muito vulgar. A figura elegante do TIO ALMEIDA, apesar dos 88 anos feitos de fresco, assomou. Um franco sorriso iluminou-lhe o rosto fino e fidalgo. Um abraço apertou-nos por instantes. Há quanto tempo aqui não vens meu malandro… Ambos sabíamos as razões. A força da vida…
A mesma ampla cozinha antiga, com lareira e forno a lenha para cozer o pão. Agora, só decorativos. Grandes armários com cortinas de chita rendilhada, como sempre vi. Uma mesa larga ao centro.
A figura sempre jovem, retrato da avó Emília, aparece a seguir, nos seus 86 anos, bem escondidos. Acertaram bem no nome que lhe deram no berço - AURORA. Não sabe desenhar o nome. Ela diz e é verdade. Se soubesse ler e tivesse a sorte de estudar, seria uma brilhante parlamentar.
Desde o 25 de Abril, quando as coisas começaram a assentar, não hesitou em aderir à corrente de SÁ CARNEIRO. Por causa dela, todo o clã – Almeida – continua fiel aos ideais por ele defendidos, embora entregues ao desvirtuado PSD.
Outro vulto , azul, começou a emergir lá de dentro. Tinha-nos ouvido. Embora fosse de manhã, estava deitada, para minorar a tormenta do reumático e o cansaço…as dores reflectidas nas rugas do rosto sempre redondo, não conseguiam esconder a alegria sentida pelo nosso encontro, há tanto, prometido e esperado.
Apesar dos seus 76 anos sofridos de trabalho, revejo-a sempre como jovem donzela, com vinte anos, debaixo do chapéu, branco, triangular, de abas largas, hirtas de goma, a esconder-lhe toda a cabeça, mas só deixando reluzir-lhe os olhos doces e o rosto róseo , bonito. Era a tia mais nova, que se ofereceu a Deus como principal opção de vida.
Com admirável serenidade e firmeza, apesar de ter só a 4ª classe, atravessou fiel e com sábio equilíbrio, as enormes transformações da Igreja, nas arrojadas transformações pós-conciliares…
Na família numerosa de irmáos e sobrinhos de 3 gerações, ela foi e é parte integrante de cada lar. Nos momentos de discórdias, foi sempre um luzeiro de Paz, concórdia e sinal de Esperança…
Por causa dela, entrei para o seminário e dele saí, envolto em frustração, ao fim de 9 anos e picos…e o meu filho primogénito está a terminar o curso de Teologia, em Madrid, na Companhia de Jesus, depois de 2 anos de vida académica, em Coimbra, em engenharia física. Ele, que, em pequeno, aos Domingos, dizia, sempre, enfadado
- para mim, de Missa, já chega…
Depois de mais um forte abraço, sentamo-nos os 4, à volta da mesa da Sala, por ordem da tia Aurora…
Em breves instantes percorremos pedaços da vida passada…de alegrias e tristezas.
Bem. Que querem almoçar? Arroz malandro de galinha, ou querem-na assada no forno om batatas e arroz?… desfechou a chefe da casa no seu jeito decidido e franco.
- Tanto me faz. Respondeu a Freirinha.
- Não. Se não se importa, eu prefiro - a assada. Ou eu não conhecesse bem os assados da tia Aurora – atalhei, atrevido.
Ao meio dia estávamos à volta da mesa da Sala. Os melhores pratos e talheres. Um ligeiro incidente não deu para ensombrar o momento. Não havia alfaces na venda do António. Mais uma vez a força de iniciativa da tia Aurora levou de vencida aquele obstáculo e as alfaces, embora, bébés, apareceram na travessa…
Uma bateria de garrafas de vinho especial, à moda afiançada do tio Almeida e a tarde passou, a correr, feliz, como só nas mesas do Céu deve acontecer…no almoço de cada dia…
Não mais esquecerei esta romagem às minhas raízes, por causa da Freirinha, de chapéu branco e largos vestidos azuis, a minha e nossa querida TIA ALICE – Irmã MARIA DA GRAÇA.
HINO À MINHA TERRA
Eu canto Santa Quitéria,
vestida de verdes serras,
hortas e campos floridos;
Eu canto o Pé do Monte,
Ond `inda corre a fonte
que viu nascer minha Mãe;
Canto as romarias,
Foguetes e procissões
Do São Pedro e da Virgem Santa;
A alegria dos farnéis e iguarias,
Deitados, na manta,
Em família,
até ò entardecer;
Canto as Ave Marias
Que, três vezes ao dia,
Pedem a oração
Da gente mansa,
Da terra que me viu nascer;
Canto as sombras da saudade,
Que repousam nos campos santos;
E as romagens floridas
À casa da verdade,
Fim de todos os prantos.
Canto as sementeiras da esperança,
Lavrada nas terras negras e sensuais;
Canto as vindimas, em desgarrada,
Das uvas gordas, pisadas,
noite adentro,
Em alegres madrigais
Canto as desfolhadas de ouro,
Em noites de lua cheia;
O trigo, o milho, o pão, louro,
O perfume do mosto verde, o calor da broa,
E as rezas, muitas,
À luz, mortiça, da candeia…
Canto o céu azul, as águas das fontes;
Os pássaros meigos
Que despertam sonhos de ternura,
Sob as telhas e beirais
Das casas de minha aldeia;
Canto o canto dos ventos, feros,
Os coruscantes clarões da trovoada;
Canto o vestido de neve, terno,
Que aquece a minha aldeia,
Em noites, escuras, de Inverno;
Canto os bravos meninos,
Que rompem, em pé descalço, sós,
Os pedregosos caminhos,
Até às luzes da escola
À lareira da Fé…dos seus avós.
Canto os calos e rugas
Dos nossos pais e dos seus;
Mãos e rostos, em hino,
que seguraram as mãos e
Acalentaram nossas lágrimas,
de menino;
Canto as moças trigueiras
Que mondam os milheirais;
Valentes, vão para as fábricas,
Comércio, feiras, como os demais…
E, à noite, embalam filhinhos,
D`amor, enchem as casas,
Heroínas.
Canto a bravura e a força
Dos que correram crentes,
A defender os ideais
Que ligam as gentes;
Ofertando sua vida, de mancebos,
joviais…
Canto a Senhora de Pedra Maria,
Minha vizinha
e Mãe das gentes de Varziela,
Sabem-no bem!…
Canto a Capelinha da Aparecida,
A Senhora mais escondida
Que minha aldeia tem.
Canto a Feira de Maio
E seus carrinhos eléctricos,
A roda das cadeirinhas,
O poço da morte,
As farturas de Lisboa
Que adoçaram os sonhos
da pequenada do meu tempo…
Canto a Feira dos Vinte e Três,
Com toldos brancos e o pó, em arraial;
Pipas de vinho, ao quartilho,
Bolinhos de bacalhau e brinquedos de folha,
Os aguadeiros de barro, gigantones…
E o gado manso.
Canto as noitadas do São Pedro
E o fogo da meia noite, feliz;
As novenas de Santa Quitéria…
E,…
Cantando a Fé e Virtude de Felgueiras,
Canto as glórias do meu País.
ÍNDICE
Capítulo Primeiro
1 Em Varziela
2 Escola Primária
3 Casa Nova
4 Ventos de Guerra
5 Exéquias do Rogério Sampaio
6 O Padre Amorim
7 Tempo das Vindimas
8 A Primeira Paixoneta
9 Um Duelo Oculto
10 Toque de finados
11 A Longa Subida
Capítulo Segundo
1 Entrada No Seminário
2 O Primeiro Combate
3 O Colégio de Ermesinde
4 As Primeiras Férias
Capítulo Terceiro
COLÉGIO DE TRANCOSO
1 O Começo da Grande Fraude e Desilusão
2 Perda da Mãe
Capítulo Quarto
SEMINÁRIO DE VILAR
1 Capa e Batina
2 Fuga pelo Hipnotismo
3 Em Memória da Tia Ilda
Capítulo Quinto
SEMINÁRIO DA SÉ
1 Apenas e só…caiado de branco…
2 Despedida
Capítulo Sexto
UM MUNDO NOVO
1 Regresso ao Colégio de ermesinde
2 Primeiro Trabalho
3 Prefeito do Colégio universal
4 Qunita de Pegões
Capítulo Sétimo
AVIDA MILITAR
1 Convento de Mafra
2
Capítulo oitavo
OFICIAL E CAVALHEIRO
1 Terras do Rio Nabão
2 Ilha da Madeira
3 Porto santo à Vista
4 O Quartel
5 O Batalhão de Infantaria
6 Boémia do Funchal
7 Golpe Traiçoeiro de Cupido
8 O Encontro fatal
9 Voando nas Nuvens
10 A Descida à Realidade
Capítulo Nono
DE ÉVORA PARA A GUINÉ
1 Sorte ou Destino
2 R.I.15 - Quartel de Évora
3 Despedida do Rio Tejo
4 Bissau à Vista
5 Quartel de Santa Luzia
6 Marcha para a Ilha do Como
7 Baptismo de Fogo
8 O Capitão Mourato - O novo comandante
9 O Capitão Silva e o Pacto com o Diabo
10 Os Treze Meses de Pesadelo
11 O Sete e Meio
12 Operação Tempestade
13 Catió no dia a dia
14 O Homem Grande
15 O Dia Final do Alferes Sasso
16 Regresso a Bissau
EPÍLOGO
Romagem a Varziela
